Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

A mentira como matéria prima na vertigem das notícias falsas

Um dos problemas com a proliferação de notícias falsas é a dificuldade em distingui-las das verdadeiras. Mesmo pessoas educadas se deixam enganar; um inquérito feito pela Universidade de Stanford a quase oito mil estudantes norte-americanos, de todos os graus de ensino, revelou que uma simples foto com legenda falseada podia ser validada por 40% dos observadores.

E The Washington Post entrevistou dois jovens que se gabaram de ganhar muito dinheiro com um site de fakenews onde chegaram a pôr uma fotografia com alegadas experiências com humanos, praticadas por cientistas na Coreia do Norte."Em dez minutos ganhou 120 dólares. Nunca mais parou de mentir. Nem de ganhar carradas de dinheiro."

Esta reflexão é do jornalista e professor Paulo José Cunha, publicada no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor deste trabalho declara que a associação desta dificuldade em distinguir o falso do verdadeiro com a proliferação deliberada de “noticiário mentiroso” desemboca numa “mistura de desinformação, preconceito, intolerância, incompetência para a escolha consciente e incapacidade de autodeterminação; ou seja, o contrário das bases para o bom funcionamento do sistema democrático”. 

O responsável pelo inquérito da Universidade de Stanford, Sam Wineburg, afirma:  “Muita gente acredita que os jovens, bem ambientados nas redes sociais, têm perspicácia para compreender o que lêem. O nosso trabalho mostra que o oposto disso é verdadeiro.” 

A reportagem publicada pelo Washington Post em Novembro do ano passado “revela que Paris Swade e Danny Gold, donos de um site direitista radical de notícias falsas, orgulham-se  – sim, orgulham-se!, sem qualquer sinal de remorso –  de praticar ‘imprensa marrom’. Até os nomes que os dois usam são falsos. Para ganhar caminhões de dinheiro precisam de um laptop e de um sofá para escrever e acompanhar a viralização dos posts. Na última eleição, todos os candidatos republicanos investiram grana preta no site deles”. 

A mesma reportagem conta que Paris Wade e Ben Goldman, os seus verdadeiros nomes, eram dois empregados de restaurante no desemprego seis meses antes de descobrirem que podiam ganhar muito dinheiro sentados num sofá, a produzir e divulgar tretas nos seus computadores pessoais. 

“Entre Junho e Agosto, como dizem, quando tinham menos de 150 mil seguidores no Facebook, faziam entre 10 mil e 40 mil dólares por mês pondo anúncios que, entre outras coisas, prometiam soluções para o acne, alternativas ao Viagra, [métodos para curar vários problemas corporais] e ‘as selfies das 13 celebridades mais sexys e mais nuas’. Depois o drama político aprofundou-se e a sua audiência multiplicou por cinco, e agora Goldman pensa que o que ganhou nos últimos seis meses ter-lhe-ia custado 20 anos a servir mesas no seu antigo trabalho.”

 

O artigo de Paulo José Cunha, no Observatório da Imprensa, e a reportagem original em The Washington Post

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


ver mais >
Opinião
Ser Jornalista
Dinis de Abreu

O jornalismo vive dias difíceis. O avanço no digital não compensa os jornais que fecham e as redacções que reduzem os quadros. Criou-se um sentimento de precariedade no oficio de jornalsita que ameaça a sua independência. Ou pior: que o coloca numa grande dependência perante as incertezas.

Uma comunicação mal comunicada
Francisco Sarsfield Cabral
A tragédia dos incêndios florestal tem evidenciado uma preocupante desorganização no seu combate. Essa desorganização também se manifesta no campo da comunicação social. A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) anunciou há dias que passaria a concentrar a informação sobre os fogos em dois “briefings” diários na sua sede em Carnaxide – um de manhã, outro...
Dados os muitos terabytes de prosa – sólidamente negativa – com que os media globais saudaram a decisão do presidente Trump, anunciada em discurso na Casa Branca no passado dia 1 de Junho, de retirar os EUA. do Acordo de Paris, seria de esperar uma cobertura exaustiva do tema, ou seja, que nenhum aspecto ou complexidade dessa terrível ameaça para a saúde do planeta escapasse à atenção dos “opinion leaders”, em...
Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na...
Agenda
01
Set
IFA
09:00 @ Berlim, Alemanha
04
Set
11
Set
Jornalismo de Investigação
09:00 @ Cenjor,Lisboa