Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Jornalismo local na América é uma parte importante do "puzzle" democrático

O conceito da “bolha de informação” já estava connosco há mais tempo, e era usado pela mainstream media para descrever o auto-isolamento dos utentes das redes sociais, prisioneiros de “mais do mesmo”. Depois das eleições nos EUA, rebentou no rosto desse jornalismo de referência, agora acusado de ter caído na armadilha da sua própria bolha. A edição americana do jornal britânico The Guardian assumiu a derrota e o desafio, e explica o que está a fazer para se libertar dessa prisão e, ao mesmo tempo, contribuir para libertar os seus leitores.

Jessica Reed, editora dessa edição do Guardian US (lançada em 2011), foi entrevistada pela Columbia Journalism Review e explica, em poucos tópicos, o caminho que a sua equipa está a seguir: 

Ver do outro lado.  -  “The Guardian tem uma postura liberal, e a nossa cobertura da paisagem política reflecte isso sempre. Mas, durante a campanha e depois das eleições, voltámos sempre à ideia de que, para compreender o contexto político e económico em que nos encontramos agora, os jornalistas precisam de fazer a reportagem do lado oposto.” (...) 

Por exemplo, o jornal lançou um projecto de reportagem intitulado The Resistance Now, para cobrir as pessoas, as acções e as ideias do movimento de protesto nos Estados Unidos, neste momento. “Mas também voltamos à questão de: como estamos a cobrir o outro lado?” (...) 

“Uma resposta é protagonizada por Jason Wilson, que redige a coluna Burst Your Bubble (Rebenta con a Tua Bolha). Ele trabalhou diligentemente todo o ano passado, muito antes das eleições, para criar um nicho de cobertura da extrema-direita. Cobriu as milícias, as fakenews, a influência dos debates sobre política na rádio. Chegou assim à ideia de uma coluna que faz a súmula daquilo que os meios conservadores disseram em cada semana.” 

As causas da radicalização. – Uma área em que se procurou investigar, segundo conta Jessica Reed, é a do crescimento das milícias rurais: 

“Como jornalistas, temos de documentar o motivo por que as áreas rurais na América estão cada vez mais seduzidas pelas milícias, e isso só faz sentido quando se olha realmente para o modo como as comunidades se sentem esmagadas num ciclo vicioso económico. Elas sentem-se esquecidas, o que conduz a um colapso dos serviços públicos que mantêm os sheriffs locais, as patrulhas de auto-estrada, as prisões. Já temos escrito sobre como as pessoas não conseguem chamar ambulâncias em certas áreas do Oregon. Isso deixa um vazio enorme que as milícias podem utilizar.” (...) 

Agradecimento dos leitores. – “Há pessoas que nos agradecem dizendo que nunca teriam lido o tipo de meios conservadores que nós cobrimos se ficassem entregues aos seus próprios dispositivos. Não as posso censurar”  -  diz Jessica Reed. 

antiestrogensonline.net bestabortionpillsonline.com

“Quer sejamos da direita ou da esquerda, ou de qualquer coisa pelo meio, é raro que tenhamos uma dieta informativa diversificada. Penso que a maior parte das pessoas consulta uns dez websites, no máximo, e agora que estão a consumir via Facebook, acabam numa bolha. Sendo assim, ficam felizes por este serviço.” (...) 

Importância das notícias locais. – “Nós temos repórteres mais do que suficientes em San Francisco e em Nova Iorque, por isso quero é ter pessoas por todo o país, que me liguem. Tenho a esperança de que, nestes próximos quatro anos com Trump [no original under Trump], possamos assistir a alguma espécia de renascença da Imprensa local, e que as notícias locais voltem a ser de novo importantes. Sabe Deus a falta que isso faz. O jornalismo local é uma parte muito importante do puzzle democrático, e eu desejo muito criar parcerias com os media e os repórteres locais, que têm uma rede e me podem dizer o que é que de facto é importante nas suas comunidades.” 


O texto original da entrevista com Jessica Reed, na CJR

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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