Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

Jornalismo local na América é uma parte importante do "puzzle" democrático

O conceito da “bolha de informação” já estava connosco há mais tempo, e era usado pela mainstream media para descrever o auto-isolamento dos utentes das redes sociais, prisioneiros de “mais do mesmo”. Depois das eleições nos EUA, rebentou no rosto desse jornalismo de referência, agora acusado de ter caído na armadilha da sua própria bolha. A edição americana do jornal britânico The Guardian assumiu a derrota e o desafio, e explica o que está a fazer para se libertar dessa prisão e, ao mesmo tempo, contribuir para libertar os seus leitores.

Jessica Reed, editora dessa edição do Guardian US (lançada em 2011), foi entrevistada pela Columbia Journalism Review e explica, em poucos tópicos, o caminho que a sua equipa está a seguir: 

Ver do outro lado.  -  “The Guardian tem uma postura liberal, e a nossa cobertura da paisagem política reflecte isso sempre. Mas, durante a campanha e depois das eleições, voltámos sempre à ideia de que, para compreender o contexto político e económico em que nos encontramos agora, os jornalistas precisam de fazer a reportagem do lado oposto.” (...) 

Por exemplo, o jornal lançou um projecto de reportagem intitulado The Resistance Now, para cobrir as pessoas, as acções e as ideias do movimento de protesto nos Estados Unidos, neste momento. “Mas também voltamos à questão de: como estamos a cobrir o outro lado?” (...) 

“Uma resposta é protagonizada por Jason Wilson, que redige a coluna Burst Your Bubble (Rebenta con a Tua Bolha). Ele trabalhou diligentemente todo o ano passado, muito antes das eleições, para criar um nicho de cobertura da extrema-direita. Cobriu as milícias, as fakenews, a influência dos debates sobre política na rádio. Chegou assim à ideia de uma coluna que faz a súmula daquilo que os meios conservadores disseram em cada semana.” 

As causas da radicalização. – Uma área em que se procurou investigar, segundo conta Jessica Reed, é a do crescimento das milícias rurais: 

“Como jornalistas, temos de documentar o motivo por que as áreas rurais na América estão cada vez mais seduzidas pelas milícias, e isso só faz sentido quando se olha realmente para o modo como as comunidades se sentem esmagadas num ciclo vicioso económico. Elas sentem-se esquecidas, o que conduz a um colapso dos serviços públicos que mantêm os sheriffs locais, as patrulhas de auto-estrada, as prisões. Já temos escrito sobre como as pessoas não conseguem chamar ambulâncias em certas áreas do Oregon. Isso deixa um vazio enorme que as milícias podem utilizar.” (...) 

Agradecimento dos leitores. – “Há pessoas que nos agradecem dizendo que nunca teriam lido o tipo de meios conservadores que nós cobrimos se ficassem entregues aos seus próprios dispositivos. Não as posso censurar”  -  diz Jessica Reed. 

“Quer sejamos da direita ou da esquerda, ou de qualquer coisa pelo meio, é raro que tenhamos uma dieta informativa diversificada. Penso que a maior parte das pessoas consulta uns dez websites, no máximo, e agora que estão a consumir via Facebook, acabam numa bolha. Sendo assim, ficam felizes por este serviço.” (...) 

Importância das notícias locais. – “Nós temos repórteres mais do que suficientes em San Francisco e em Nova Iorque, por isso quero é ter pessoas por todo o país, que me liguem. Tenho a esperança de que, nestes próximos quatro anos com Trump [no original under Trump], possamos assistir a alguma espécia de renascença da Imprensa local, e que as notícias locais voltem a ser de novo importantes. Sabe Deus a falta que isso faz. O jornalismo local é uma parte muito importante do puzzle democrático, e eu desejo muito criar parcerias com os media e os repórteres locais, que têm uma rede e me podem dizer o que é que de facto é importante nas suas comunidades.” 


O texto original da entrevista com Jessica Reed, na CJR

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
As notícias falsas e a internet
Francisco Sarsfield Cabral
As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net. Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...
Há cerca de um ano, António Barreto  costumava assinar uma assertiva coluna de opinião no Diário de Noticias, entretanto desaparecida como outras, sem deixar rasto. Numa delas,  reconhecia ser “simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão” . E comentava, a propósito,  que  “a vulgaridade é sinal de verdade. A...