Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

A solidariedade jornalística posta à prova no clima de hostilidade Trump - Media

O actual clima de hostilidade entre a Casa Branca e os media  - tendo como base de apoio os milhões de votantes que elegeram o seu titular -  pode ser contido por uma solidariedade profissional de resistência? A pergunta é posta por Gary Weiss, jornalista de investigação, na Columbia Journalism Review, e as respostas que obteve na sua pesquisa são pouco animadoras. Seja pelo lado do individualismo competitivo da própria classe, seja pelo da capacidade de intimidação de Donald Trump e dos seus apoiantes, não é fácil mobilizar uma frente comum. Um dos entrevistados diz que a situação é “assustadora”.

O autor lembra os episódios recentes, da conferência de Imprensa de 11 de Janeiro, em que o Presidente chamou fakenews à CNN e recusou responder a uma pergunta do seu repórter presente, designando ainda o BuzzFeed como “um monte de lixo a desmoronar-se”, ou do twitter de 17 de Fevereiro, em que definiu vários grandes jornais e cadeias de televisão como “o inimigo do povo americano”. 

Cita depois vários jornalistas que consultou sobre estes factos, com a questão da viabilidade de uma estratégia de solidariedade. Marvin Kalb, cujas reportagens na CNN o colocaram na lista dos “inimigos” de Richard Nixon, pensa que Trump não vai mudar na sua atitude para com os media, e estes também não: 

“Eles estão claramente no campo de batalha, dois exércitos prontos a combater, e não é [no espírito de] ‘que ganhe o melhor’.” A questão, para Kalb, é: “Pode o país sobreviver? E de que modo?” 

Gary Weiss diz que “há um lado escuro na guerra de Trump contra os media, uma espécie de guerra suja que é travada pelos seus ‘verdadeiros crentes’ contra a Imprensa, sobretudo nos territórios sombrios e anónimos da Internet; quem se atravesse no seu caminho pode tornar-se o alvo de uma campanha de difamação total”. (...) 

“O debate presente, no jornalismo como fora dele, é sobre o nível de preocupação que devem os media ter. Será Trump, essencialmente, um delicado que chama nomes, ou está a lançar as fundações de qualquer coisa muito mais escura? Edward Allwood, autor de Dark Days in the Newsroom, uma visão do tratamento da Imprensa pelo senador Joseph McCarthy, receia esta última.” 

A respeito do que sucedeu com o BuzzFeed, depois da publicação do dossier sobre Trump e a Rússia, Chip Berlet, um repórter freelance de temas políticos, disse que os jornalistas “estão a cometer os erros do passado, quando se dobram para atacar o BuzzFeed

“Denunciar a pessoa que está perto de nós, para justificar as nossas próprias credenciais, é uma táctica antiga, que provou ser desastrosa. Isso nunca acaba bem, porque a faca continua a cortar o salame.”

 

O texto original, na CJR

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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