Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Especialista da BBC preocupado com as várias formas de intimidação de jornalistas

Os novos meios colocados pela informática ao dispor do jornalismo podem ser usados para o bem como para o mal. Decorre daqui que os próprios jornalistas estão mais expostos a ser intimidados, mas também que podem cometer erros que atinjam pessoas inocentes. O direito à privacidade e o dever de revelar a verdade colocam-se, perante o jornalista de investigação, num “equilíbrio delicado”. Esta reflexão é de Paul Myers, que dirige o departamento de Apoio à Investigação da BBC.

Segundo conta o próprio, a sua paixão de juventude eram “os segredos, os computadores e a comunicação”. Usou a Internet pela primeira vez em 1978, no mesmo ano em que começou a trabalhar para uma rádio-pirata. 

“Quando fui para o departamento de investigação sobre Informação da BBC, no princípio de 1995, a rede www ainda estava muito na infância. Tendo formação em computadores, procurei imediatamente aproveitar o poder da Internet para resolver problemas jornalísticos. Era muito gratificante ajudar na investigação, utilizando as minhas competências únicas para encontrar a informação e estabelecer ligações que mais ninguém conseguia.” 

Questionado sobre os problemas actuais do jornalismo, Paul Myers responde:

“Agora há muita intimidação dos jornalistas. Intimidação vinda dos governos, de empresas, de extremistas políticos ou de bandos organizados de brutos agindo por conta própria. Assim, é fácil ir pelo ‘fruto que está à mão’ e evitar conflitos, e eu compreendo perfeitamente e respeito aqueles que não querem colocar-se pessoalmente na linha de fogo.” 

“Mas as empresas noticiosas não deviam deixar-se intimidar. Deviam cobrir os assuntos com diligência, com coragem e sem preconceitos. Do mesmo modo, não deviam ter medo de cobrir assuntos que sejam sensíveis, ou que ponham em causa crenças populares.” 

Sobre as novas capacidades postas ao nosso dispor pela revolução digital, Paul Myers reconhece que elas permitem que qualquer pessoa, “em circunstâncias extraordinárias, se torne repórter”:

“Vivemos tempos excitantes, com uma grande quantidade de novas oportunidades, desafios, obstáculos e armadilhas.” 

A pergunta difícil ficou para o fim, e era como se pode reconciliar “o imperativo moral da privacidade pessoal com a necessidade de obter informação pessoal, numa investigação”. A resposta de Paul Myers: 

“Claro que o público tem de ter consciência de que a privacidade é actualmente um assunto complicado e sério. Todos precisamos de verificar os nossos padrões de privacidade nas redes sociais. Devemos ter o direito de exigir que os nossos dados não sejam utilizados por terceira parte contra os nossos desejos, e a legislação deve apoiar isto.” 

“Para os jornalistas de investigação, é um ‘equilíbrio delicado’. Precisamos de estar certos a respeito de quem investigamos, e porquê. Precisamos de ser extremamente sensíveis quando elaboramos reportagens. E nunca devemos expor pessoas inocentes ao ataque e ao ridículo.”

 

A entrevista original na Global Investigative Journalism Network, que cita, por sua vez, o Media Power Monitor; o site da BBC, de onde colhemos as imagens utilizadas

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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