Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Especialista da BBC preocupado com as várias formas de intimidação de jornalistas

Os novos meios colocados pela informática ao dispor do jornalismo podem ser usados para o bem como para o mal. Decorre daqui que os próprios jornalistas estão mais expostos a ser intimidados, mas também que podem cometer erros que atinjam pessoas inocentes. O direito à privacidade e o dever de revelar a verdade colocam-se, perante o jornalista de investigação, num “equilíbrio delicado”. Esta reflexão é de Paul Myers, que dirige o departamento de Apoio à Investigação da BBC.

Segundo conta o próprio, a sua paixão de juventude eram “os segredos, os computadores e a comunicação”. Usou a Internet pela primeira vez em 1978, no mesmo ano em que começou a trabalhar para uma rádio-pirata. 

“Quando fui para o departamento de investigação sobre Informação da BBC, no princípio de 1995, a rede www ainda estava muito na infância. Tendo formação em computadores, procurei imediatamente aproveitar o poder da Internet para resolver problemas jornalísticos. Era muito gratificante ajudar na investigação, utilizando as minhas competências únicas para encontrar a informação e estabelecer ligações que mais ninguém conseguia.” 

Questionado sobre os problemas actuais do jornalismo, Paul Myers responde:

“Agora há muita intimidação dos jornalistas. Intimidação vinda dos governos, de empresas, de extremistas políticos ou de bandos organizados de brutos agindo por conta própria. Assim, é fácil ir pelo ‘fruto que está à mão’ e evitar conflitos, e eu compreendo perfeitamente e respeito aqueles que não querem colocar-se pessoalmente na linha de fogo.” 

“Mas as empresas noticiosas não deviam deixar-se intimidar. Deviam cobrir os assuntos com diligência, com coragem e sem preconceitos. Do mesmo modo, não deviam ter medo de cobrir assuntos que sejam sensíveis, ou que ponham em causa crenças populares.” 

Sobre as novas capacidades postas ao nosso dispor pela revolução digital, Paul Myers reconhece que elas permitem que qualquer pessoa, “em circunstâncias extraordinárias, se torne repórter”:

“Vivemos tempos excitantes, com uma grande quantidade de novas oportunidades, desafios, obstáculos e armadilhas.” 

A pergunta difícil ficou para o fim, e era como se pode reconciliar “o imperativo moral da privacidade pessoal com a necessidade de obter informação pessoal, numa investigação”. A resposta de Paul Myers: 

“Claro que o público tem de ter consciência de que a privacidade é actualmente um assunto complicado e sério. Todos precisamos de verificar os nossos padrões de privacidade nas redes sociais. Devemos ter o direito de exigir que os nossos dados não sejam utilizados por terceira parte contra os nossos desejos, e a legislação deve apoiar isto.” 

“Para os jornalistas de investigação, é um ‘equilíbrio delicado’. Precisamos de estar certos a respeito de quem investigamos, e porquê. Precisamos de ser extremamente sensíveis quando elaboramos reportagens. E nunca devemos expor pessoas inocentes ao ataque e ao ridículo.”

 

A entrevista original na Global Investigative Journalism Network, que cita, por sua vez, o Media Power Monitor; o site da BBC, de onde colhemos as imagens utilizadas

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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Opinião
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