Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Um veterano “fact-checker” americano conta a história desta nova ferramenta do jornalismo

Foi em 2016 que o Dicionário de Oxford consagrou a expressão “pós-verdade” como a palavra do ano, como corolário à ideia de que os factos objectivos se tornaram “menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e a convicção pessoal”. Este facto, mais a recente popularização dos conceitos de fakenews e dos “factos alternativos”, deram novo protagonismo à “verificação dos factos” como uma especialização dentro das redacções. Peter Canby, o mais importante veterano dos fact-checkers ainda em funções, na revista The New Yorker desde 1978, conta como era no princípio.

Conforme explicou a uma sala apinhada, na Columbia Journalism School, em Nova Iorque, as coisas mudaram muito, a equipa a que pertence tem hoje o dobro dos efectivos e pelo menos metade deles falam uma segunda língua, incluindo dois que falam russo e um que é fluente em árabe. 

A importância do fact-checking deu um salto a propósito de uma questão sobre citações de Sigmund Freud, que chegou ao Supremo Tribunal, com um despacho que  - como descreve Peter Canby -  “dizia basicamente que as revistas eram responsáveis pelas citações [que publicavam] de um modo como não tinha sido visto”. Foi a partir daí que se passou a guardar todo o material das entrevistas, incluindo notas, fitas gravadas e transcrições. 

Sobre a situação actual, diz Peter Canby:

“As pessoas que nunca estiveram envolvidas no jornalismo, ou na ‘verificação de factos’, pensam que o mundo está dividido entre factos e opiniões, e que os fact-checkers tratam apenas dos factos. Para nós, a maior complexidade é a daquilo em que pensamos como sendo opiniões baseadas em factos. O modo como se constrói uma argumentação, se houver ingredientes que estejam notoriamente em falta, isso é qualquer coisa que nós vamos buscar.” 

Foram recordados episódios que ilustram até que ponto se pode chegar em termos de fact-checking. Numa reportagem sobre um grupo de tropas especiais iraquianas, que tinham sofrido às mãos de terroristas e estavam envolvidas na batalha de Mossul, os membros da equipa de fact-checkers tinham de contactar 42 pessoas mencionadas: 

“Todos eles tinham telemóveis”  -  contou Canby. “Os nossos fact-checkers ligavam e eles respondiam  -  Desculpe, mas estamos em combate. Pode ligar mais tarde?” 

As dificuldades em obter resposta dos gabinetes da Casa Branca, nos tempos que correm, são de outra natureza. Mas Peter Canby afirma:

“Nós pensamos que é muito importante, mesmo quando sabemos que não vamos ter resposta da Casa Branca, agir como se fôssemos tê-la.”


O artigo original, na Columbia Journalism Review, a que pertence também a imagem utilizada

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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