Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Denúncia das "falsas notícias" favorece objectivos de regimes autoritários

A moda que pegou agora, entre dirigentes autoritários ou acusados de corrupção, é de “virar o bico ao prego” e acusar de “falsas informações” os jornais que os incomodam. O exemplo em que se apoiam vem “de cima”, e é Donald Trump. Esta reflexão é de um artigo no Le Monde, começando pelo caso do primeiro-ministro do Cambodja, Hun Sen, que aproveitou o facto de media como The New York Times, a CNN ou a BBC, terem sido recentemente excluídos de um briefing com a Imprensa, na Casa Branca. “Donald Trump compreende que eles são um grupo anárquico”  - declarou Hun Sen.

Ora, os bons exemplos são para seguir... O porta-voz do primeiro-ministro do Cambodja foi, aliás, mais longe, congratulando-se pelo facto de o Presidente dos EUA ver que “as informações publicadas por estas instituições dos media não reflectem a situação real” e deixando desde já avisos à Imprensa estrangeira no seu país. 

Também o primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, suspeito de corrupção, denuncia as fakenews que, segundo afirma, estão a ser usadas pelos seus acusadores “para fazerem cair um governo”:

“É esta a maior ameaça, e vamos combatê-la sem descanso”  - declarou. 

Por seu lado, na China, argumento semelhante começa a ser usado, neste caso a respeito de artigos publicados no Ocidente sobre torturas infligidas a um “defensor dos direitos humanos”,  Xie Yang, detido há um ano por “subversão”. A agência oficial Nova China ataca o advogado do detido, acusando-o de “ter utilizado a opinião pública para fazer pressão sobre a polícia e manchar o governo chinês”. 

Como comenta o artigo que citamos, essas denúncias “não seriam outra coisa senão fakenews”.

Ainda no Le Monde, outro texto muito recente explica como a desconfiança em relação aos meios de comunicação se tem acentuado, segundo os dados do inquérito realizado pelo Instituto Kandar para o jornal La Croix

São aí citadas as palavras do chefe da redacção de France Inter, Jean-Marc Four, sobre este inquérito:

“O mundo parece dividido em dois: de um lado, os que se voltam para os media tradicionais, pelo menos em caso de grandes acontecimentos; do outro, uma parte que já não escuta, não vê ou não lê estes meios de comunicação, e que estes já não sabem como atingir.” 

Jean-Marc Four pede que haja mais equilíbrio entre o espaço que ocupam os editorialistas e comentadores e o do que se passa no terreno; e declara que é necessário “um diálogo directo entre os jornalistas e o público, ou de viva voz ou por meio das redes sociais”. 


Mais informação em Le Monde, a que pertence a imagem, da AFP

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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Opinião
Ser Jornalista
Dinis de Abreu

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