Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

Denúncia das "falsas notícias" favorece objectivos de regimes autoritários

A moda que pegou agora, entre dirigentes autoritários ou acusados de corrupção, é de “virar o bico ao prego” e acusar de “falsas informações” os jornais que os incomodam. O exemplo em que se apoiam vem “de cima”, e é Donald Trump. Esta reflexão é de um artigo no Le Monde, começando pelo caso do primeiro-ministro do Cambodja, Hun Sen, que aproveitou o facto de media como The New York Times, a CNN ou a BBC, terem sido recentemente excluídos de um briefing com a Imprensa, na Casa Branca. “Donald Trump compreende que eles são um grupo anárquico”  - declarou Hun Sen.

Ora, os bons exemplos são para seguir... O porta-voz do primeiro-ministro do Cambodja foi, aliás, mais longe, congratulando-se pelo facto de o Presidente dos EUA ver que “as informações publicadas por estas instituições dos media não reflectem a situação real” e deixando desde já avisos à Imprensa estrangeira no seu país. 

Também o primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, suspeito de corrupção, denuncia as fakenews que, segundo afirma, estão a ser usadas pelos seus acusadores “para fazerem cair um governo”:

“É esta a maior ameaça, e vamos combatê-la sem descanso”  - declarou. 

Por seu lado, na China, argumento semelhante começa a ser usado, neste caso a respeito de artigos publicados no Ocidente sobre torturas infligidas a um “defensor dos direitos humanos”,  Xie Yang, detido há um ano por “subversão”. A agência oficial Nova China ataca o advogado do detido, acusando-o de “ter utilizado a opinião pública para fazer pressão sobre a polícia e manchar o governo chinês”. 

Como comenta o artigo que citamos, essas denúncias “não seriam outra coisa senão fakenews”.

Ainda no Le Monde, outro texto muito recente explica como a desconfiança em relação aos meios de comunicação se tem acentuado, segundo os dados do inquérito realizado pelo Instituto Kandar para o jornal La Croix

São aí citadas as palavras do chefe da redacção de France Inter, Jean-Marc Four, sobre este inquérito:

“O mundo parece dividido em dois: de um lado, os que se voltam para os media tradicionais, pelo menos em caso de grandes acontecimentos; do outro, uma parte que já não escuta, não vê ou não lê estes meios de comunicação, e que estes já não sabem como atingir.” 

Jean-Marc Four pede que haja mais equilíbrio entre o espaço que ocupam os editorialistas e comentadores e o do que se passa no terreno; e declara que é necessário “um diálogo directo entre os jornalistas e o público, ou de viva voz ou por meio das redes sociais”. 


Mais informação em Le Monde, a que pertence a imagem, da AFP

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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