Sexta-feira, 25 de Maio, 2018
Media

Receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real

Os tempos vão difíceis para o jornalismo. Não há respostas fáceis sobre qual o modelo de negócio que possa garantir estabilidade no futuro, e “podemos agora enterrar de vez a esperança de que distribuir conteúdos e pagar as contas só por via da publicidade online seja uma estratégia sustentável; a receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real”. É assim que começa a reflexão de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, que não fornece uma solução pronta a usar, mas propõe que procuremos, pelo menos, “uma receita que funcione”.

Ele próprio sugere várias, à medida que descreve o que se passa à sua volta e enumera os caminhos que vão sendo tentados: 

“A maior parte das grandes empresas noticiosas no país ainda não assentou num plano de negócio que funcione (e as mais pequenas, em números cada vez maiores, estão simplesmente a fechar); os jornalistas continuam a perder os seus empregos; e respostas mágicas que davam alguma esperança de conseguir inverter o sentido  - pelo vídeo, ou eventos ao vivo, ou realidade virtual -  parecem agora frustrantes.” 

O mais que se encontra, na sua opinião, são “pedaços de esperança, bocadinhos de ideias que funcionam, ainda que de modo limitado; misturando-as e ajustando-as, podemos começar a construir uma receita para um novo modelo jornalístico que talvez possa  - sublinhe-se o ‘possa’ -  funcionar.” 

Comparando o que está a acontecer com vários grandes jornais, de um lado, ou sites de informação política, do outro, a respeito da prática do acesso restringido e dos conteúdos pagos, Kyle Pope reconhece que há muitos leitores capazes de pagar por uma informação que lhes interesse de perto, e seja conforme à sua visão do mundo, deixando de fora o conteúdo genérico. Mas adverte:

“Isto arrisca-se a criar um novo tipo de separação de conteúdos: um jornalismo de alta qualidade, mais rigoroso, para aqueles que podem pagar, e um noticiário menos rigoroso e mais trivial (já não falando das fake news, que não têm futuro como assinatura), para aqueles que não podem.” 

Esta dicotomia, como explica a seguir, será ainda mais marcada “quanto à informação de que o público necessita para participar, de forma significativa, na sua própria governação”. 

Descreve depois formas de aproximação entre jornais habitualmente ciosos da sua independência e concorrência com os outros, que estão a acontecer na ressaca das eleições presidenciais:

“Os esforços de Trump, ao descrever a Imprensa como um bloco monolítico contencioso, tiveram um efeito colateral inesperado, aproximando jornalistas e as suas empresas no sentido de formarem uma pool de reportagem, que fora esvaziada pelos cortes de orçamento.” 

Kyle Pope não evita as questões incómodas, como as do dinheiro necessário para arrancar qualquer projecto, os constrangimentos ou limitações dos patrocínios e do mecenato, e aponta exemplos concretos entre os media norte-americanos. 

Fala também da orientação política claramente afirmada, contando que, “quando The New York Times decidiu chamar mentiroso a Trump, na sua primeira página, qualquer noção de que era neutro nas eleições acabou; enquanto os sumo-sacerdotes dos media continuam a debater se é bom ou mau para o jornalismo, uma coisa é certa: é muito bom para o negócio”. 

Assim, “o site Breitbart tornou-se a Fox no mundo digital, enquanto a Crooked Media foi recentemente lançada por pessoas que trabalharam com Obama, como o Breitbart da esquerda”. (...) 

“O receio, entre os dirigentes das empresas noticiosas, foi sempre o de que aumentar o partidarismo encolhe necessariamente as audiências, porque os que não estão de acordo vão-se embora. E é verdade que isso acontece. Mas esse argumento não tem em consideração o poder da apatia: durante muito tempo, a maior parte dos americanos simplesmente não queria saber do que falavam os media. Mas agora querem. E o resultado  - que é uma audiência envolvida, motivada e com apetite -  está a dar energia a empresas noticiosas que já não se deixam ficar no meio do caminho.”

Kyle Pope conclui com reservas, mas também com esperança:

“Isto é uma receita, não um projecto. Algumas destas ideias podem funcionar, outras não. (...)  Devemos continuar com a confiança de que há uma audiência para um trabalho de qualidade, assertivo, exigente, apenas à espera de ser alcançada. Não é um mau sítio para se estar.”

 

O artigo original, na íntegra, no site da CJR, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
Os jornalistas têm o dever de resistir à manipulação Ver galeria

A opinião pública é hoje atingida pelo “maior caudal informativo da História”, mas esta informação chega aos cidadãos “cheia de verdades e mentiras, de realidade e ficção, de razões e emoções, muitas vezes parcial e sem contexto”. Um relativismo crescente provoca “que se confunda o verosímil com o verdadeiro, sem qualquer verificação”; e “dilui as fronteiras entre a verdade e a mentira, reduzindo a zero o valor moral da primeira e a recusa da segunda”.

Por estes motivos, “o jornalismo do futuro, sem o qual não podemos imaginar uma sociedade aberta com cidadãos livres, enfrenta agora o desafio de restaurar o valor e o mérito da verdade”. É esta a reflexão estruturante de um trabalho do jornalista Fernando González Urbaneja, na 35ª edição da revista Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Mário Centeno: “Há sempre alternativas”, mas “os riscos estão sempre presentes” Ver galeria

O exercício de cargos de governo “é uma missão de serviço público” e, portanto, de “representação de escolhas colectivas”, as quais devem ser feitas entre opções bem clarificadas perante a sociedade. Porque “há sempre alternativas”. Mas é também verdade que a alternativa pode significar opções de “regresso a algo por que Portugal já passou”, sabendo que “os riscos estão sempre presentes”. Foi esta a linha de discurso de Mário Centeno, Ministro das Finanças, orador convidado no jantar-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema que tem presidido a esta série - “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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