Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real

Os tempos vão difíceis para o jornalismo. Não há respostas fáceis sobre qual o modelo de negócio que possa garantir estabilidade no futuro, e “podemos agora enterrar de vez a esperança de que distribuir conteúdos e pagar as contas só por via da publicidade online seja uma estratégia sustentável; a receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real”. É assim que começa a reflexão de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, que não fornece uma solução pronta a usar, mas propõe que procuremos, pelo menos, “uma receita que funcione”.

Ele próprio sugere várias, à medida que descreve o que se passa à sua volta e enumera os caminhos que vão sendo tentados: 

“A maior parte das grandes empresas noticiosas no país ainda não assentou num plano de negócio que funcione (e as mais pequenas, em números cada vez maiores, estão simplesmente a fechar); os jornalistas continuam a perder os seus empregos; e respostas mágicas que davam alguma esperança de conseguir inverter o sentido  - pelo vídeo, ou eventos ao vivo, ou realidade virtual -  parecem agora frustrantes.” 

O mais que se encontra, na sua opinião, são “pedaços de esperança, bocadinhos de ideias que funcionam, ainda que de modo limitado; misturando-as e ajustando-as, podemos começar a construir uma receita para um novo modelo jornalístico que talvez possa  - sublinhe-se o ‘possa’ -  funcionar.” 

Comparando o que está a acontecer com vários grandes jornais, de um lado, ou sites de informação política, do outro, a respeito da prática do acesso restringido e dos conteúdos pagos, Kyle Pope reconhece que há muitos leitores capazes de pagar por uma informação que lhes interesse de perto, e seja conforme à sua visão do mundo, deixando de fora o conteúdo genérico. Mas adverte:

“Isto arrisca-se a criar um novo tipo de separação de conteúdos: um jornalismo de alta qualidade, mais rigoroso, para aqueles que podem pagar, e um noticiário menos rigoroso e mais trivial (já não falando das fake news, que não têm futuro como assinatura), para aqueles que não podem.” 

Esta dicotomia, como explica a seguir, será ainda mais marcada “quanto à informação de que o público necessita para participar, de forma significativa, na sua própria governação”. 

Descreve depois formas de aproximação entre jornais habitualmente ciosos da sua independência e concorrência com os outros, que estão a acontecer na ressaca das eleições presidenciais:

“Os esforços de Trump, ao descrever a Imprensa como um bloco monolítico contencioso, tiveram um efeito colateral inesperado, aproximando jornalistas e as suas empresas no sentido de formarem uma pool de reportagem, que fora esvaziada pelos cortes de orçamento.” 

Kyle Pope não evita as questões incómodas, como as do dinheiro necessário para arrancar qualquer projecto, os constrangimentos ou limitações dos patrocínios e do mecenato, e aponta exemplos concretos entre os media norte-americanos. 

Fala também da orientação política claramente afirmada, contando que, “quando The New York Times decidiu chamar mentiroso a Trump, na sua primeira página, qualquer noção de que era neutro nas eleições acabou; enquanto os sumo-sacerdotes dos media continuam a debater se é bom ou mau para o jornalismo, uma coisa é certa: é muito bom para o negócio”. 

Assim, “o site Breitbart tornou-se a Fox no mundo digital, enquanto a Crooked Media foi recentemente lançada por pessoas que trabalharam com Obama, como o Breitbart da esquerda”. (...) 

“O receio, entre os dirigentes das empresas noticiosas, foi sempre o de que aumentar o partidarismo encolhe necessariamente as audiências, porque os que não estão de acordo vão-se embora. E é verdade que isso acontece. Mas esse argumento não tem em consideração o poder da apatia: durante muito tempo, a maior parte dos americanos simplesmente não queria saber do que falavam os media. Mas agora querem. E o resultado  - que é uma audiência envolvida, motivada e com apetite -  está a dar energia a empresas noticiosas que já não se deixam ficar no meio do caminho.”

Kyle Pope conclui com reservas, mas também com esperança:

“Isto é uma receita, não um projecto. Algumas destas ideias podem funcionar, outras não. (...)  Devemos continuar com a confiança de que há uma audiência para um trabalho de qualidade, assertivo, exigente, apenas à espera de ser alcançada. Não é um mau sítio para se estar.”

 

O artigo original, na íntegra, no site da CJR, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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