Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real

Os tempos vão difíceis para o jornalismo. Não há respostas fáceis sobre qual o modelo de negócio que possa garantir estabilidade no futuro, e “podemos agora enterrar de vez a esperança de que distribuir conteúdos e pagar as contas só por via da publicidade online seja uma estratégia sustentável; a receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real”. É assim que começa a reflexão de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, que não fornece uma solução pronta a usar, mas propõe que procuremos, pelo menos, “uma receita que funcione”.

Ele próprio sugere várias, à medida que descreve o que se passa à sua volta e enumera os caminhos que vão sendo tentados: 

“A maior parte das grandes empresas noticiosas no país ainda não assentou num plano de negócio que funcione (e as mais pequenas, em números cada vez maiores, estão simplesmente a fechar); os jornalistas continuam a perder os seus empregos; e respostas mágicas que davam alguma esperança de conseguir inverter o sentido  - pelo vídeo, ou eventos ao vivo, ou realidade virtual -  parecem agora frustrantes.” 

O mais que se encontra, na sua opinião, são “pedaços de esperança, bocadinhos de ideias que funcionam, ainda que de modo limitado; misturando-as e ajustando-as, podemos começar a construir uma receita para um novo modelo jornalístico que talvez possa  - sublinhe-se o ‘possa’ -  funcionar.” 

Comparando o que está a acontecer com vários grandes jornais, de um lado, ou sites de informação política, do outro, a respeito da prática do acesso restringido e dos conteúdos pagos, Kyle Pope reconhece que há muitos leitores capazes de pagar por uma informação que lhes interesse de perto, e seja conforme à sua visão do mundo, deixando de fora o conteúdo genérico. Mas adverte:

“Isto arrisca-se a criar um novo tipo de separação de conteúdos: um jornalismo de alta qualidade, mais rigoroso, para aqueles que podem pagar, e um noticiário menos rigoroso e mais trivial (já não falando das fake news, que não têm futuro como assinatura), para aqueles que não podem.” 

Esta dicotomia, como explica a seguir, será ainda mais marcada “quanto à informação de que o público necessita para participar, de forma significativa, na sua própria governação”. 

Descreve depois formas de aproximação entre jornais habitualmente ciosos da sua independência e concorrência com os outros, que estão a acontecer na ressaca das eleições presidenciais:

“Os esforços de Trump, ao descrever a Imprensa como um bloco monolítico contencioso, tiveram um efeito colateral inesperado, aproximando jornalistas e as suas empresas no sentido de formarem uma pool de reportagem, que fora esvaziada pelos cortes de orçamento.” 

Kyle Pope não evita as questões incómodas, como as do dinheiro necessário para arrancar qualquer projecto, os constrangimentos ou limitações dos patrocínios e do mecenato, e aponta exemplos concretos entre os media norte-americanos. 

Fala também da orientação política claramente afirmada, contando que, “quando The New York Times decidiu chamar mentiroso a Trump, na sua primeira página, qualquer noção de que era neutro nas eleições acabou; enquanto os sumo-sacerdotes dos media continuam a debater se é bom ou mau para o jornalismo, uma coisa é certa: é muito bom para o negócio”. 

Assim, “o site Breitbart tornou-se a Fox no mundo digital, enquanto a Crooked Media foi recentemente lançada por pessoas que trabalharam com Obama, como o Breitbart da esquerda”. (...) 

“O receio, entre os dirigentes das empresas noticiosas, foi sempre o de que aumentar o partidarismo encolhe necessariamente as audiências, porque os que não estão de acordo vão-se embora. E é verdade que isso acontece. Mas esse argumento não tem em consideração o poder da apatia: durante muito tempo, a maior parte dos americanos simplesmente não queria saber do que falavam os media. Mas agora querem. E o resultado  - que é uma audiência envolvida, motivada e com apetite -  está a dar energia a empresas noticiosas que já não se deixam ficar no meio do caminho.”

Kyle Pope conclui com reservas, mas também com esperança:

“Isto é uma receita, não um projecto. Algumas destas ideias podem funcionar, outras não. (...)  Devemos continuar com a confiança de que há uma audiência para um trabalho de qualidade, assertivo, exigente, apenas à espera de ser alcançada. Não é um mau sítio para se estar.”

 

O artigo original, na íntegra, no site da CJR, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

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A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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