Quinta-feira, 19 de Outubro, 2017
Media

Receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real

Os tempos vão difíceis para o jornalismo. Não há respostas fáceis sobre qual o modelo de negócio que possa garantir estabilidade no futuro, e “podemos agora enterrar de vez a esperança de que distribuir conteúdos e pagar as contas só por via da publicidade online seja uma estratégia sustentável; a receita do anúncio digital não é capaz de manter o jornalismo real”. É assim que começa a reflexão de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, que não fornece uma solução pronta a usar, mas propõe que procuremos, pelo menos, “uma receita que funcione”.

Ele próprio sugere várias, à medida que descreve o que se passa à sua volta e enumera os caminhos que vão sendo tentados: 

“A maior parte das grandes empresas noticiosas no país ainda não assentou num plano de negócio que funcione (e as mais pequenas, em números cada vez maiores, estão simplesmente a fechar); os jornalistas continuam a perder os seus empregos; e respostas mágicas que davam alguma esperança de conseguir inverter o sentido  - pelo vídeo, ou eventos ao vivo, ou realidade virtual -  parecem agora frustrantes.” 

O mais que se encontra, na sua opinião, são “pedaços de esperança, bocadinhos de ideias que funcionam, ainda que de modo limitado; misturando-as e ajustando-as, podemos começar a construir uma receita para um novo modelo jornalístico que talvez possa  - sublinhe-se o ‘possa’ -  funcionar.” 

Comparando o que está a acontecer com vários grandes jornais, de um lado, ou sites de informação política, do outro, a respeito da prática do acesso restringido e dos conteúdos pagos, Kyle Pope reconhece que há muitos leitores capazes de pagar por uma informação que lhes interesse de perto, e seja conforme à sua visão do mundo, deixando de fora o conteúdo genérico. Mas adverte:

“Isto arrisca-se a criar um novo tipo de separação de conteúdos: um jornalismo de alta qualidade, mais rigoroso, para aqueles que podem pagar, e um noticiário menos rigoroso e mais trivial (já não falando das fake news, que não têm futuro como assinatura), para aqueles que não podem.” 

Esta dicotomia, como explica a seguir, será ainda mais marcada “quanto à informação de que o público necessita para participar, de forma significativa, na sua própria governação”. 

Descreve depois formas de aproximação entre jornais habitualmente ciosos da sua independência e concorrência com os outros, que estão a acontecer na ressaca das eleições presidenciais:

“Os esforços de Trump, ao descrever a Imprensa como um bloco monolítico contencioso, tiveram um efeito colateral inesperado, aproximando jornalistas e as suas empresas no sentido de formarem uma pool de reportagem, que fora esvaziada pelos cortes de orçamento.” 

Kyle Pope não evita as questões incómodas, como as do dinheiro necessário para arrancar qualquer projecto, os constrangimentos ou limitações dos patrocínios e do mecenato, e aponta exemplos concretos entre os media norte-americanos. 

Fala também da orientação política claramente afirmada, contando que, “quando The New York Times decidiu chamar mentiroso a Trump, na sua primeira página, qualquer noção de que era neutro nas eleições acabou; enquanto os sumo-sacerdotes dos media continuam a debater se é bom ou mau para o jornalismo, uma coisa é certa: é muito bom para o negócio”. 

Assim, “o site Breitbart tornou-se a Fox no mundo digital, enquanto a Crooked Media foi recentemente lançada por pessoas que trabalharam com Obama, como o Breitbart da esquerda”. (...) 

“O receio, entre os dirigentes das empresas noticiosas, foi sempre o de que aumentar o partidarismo encolhe necessariamente as audiências, porque os que não estão de acordo vão-se embora. E é verdade que isso acontece. Mas esse argumento não tem em consideração o poder da apatia: durante muito tempo, a maior parte dos americanos simplesmente não queria saber do que falavam os media. Mas agora querem. E o resultado  - que é uma audiência envolvida, motivada e com apetite -  está a dar energia a empresas noticiosas que já não se deixam ficar no meio do caminho.”

Kyle Pope conclui com reservas, mas também com esperança:

“Isto é uma receita, não um projecto. Algumas destas ideias podem funcionar, outras não. (...)  Devemos continuar com a confiança de que há uma audiência para um trabalho de qualidade, assertivo, exigente, apenas à espera de ser alcançada. Não é um mau sítio para se estar.”

 

O artigo original, na íntegra, no site da CJR, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
“Floriram por Pessanha as rosas bravas, 150 anos depois” - a reportagem vencedora do Prémio de Jornalismo da Lusofonia Ver galeria

Um trabalho sobre Camilo Pessanha, no âmbito das comemorações  dos 150 anos do nascimento do poeta, assinado pela jornalista Sílvia Gonçalves ,  no jornal “Ponto Final” , foi distinguido com o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído em parceria pelo Clube Português de Imprensa e pelo Jornal Tribuna de Macau.

Trata-se de uma reportagem com o título “Floriram por Pessanha  as rosas bravas, 150 anos depois”  que o júri, escolheu por unanimidade, realçando “a originalidade da abordagem e a forma como foi construída a narrativa” , reconhecendo que o texto “não se limitou a ser evocativo dos 150 anos de Camilo Pessanha,  contribuindo para o conhecimento do poeta e da sua relação estreita com a lusofonia”.

Isabel Mota abre em Outubro novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

O novo ciclo de jantares-debate,  promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o  Grémio Literário, vai subordinar-se ao tema genérico “O estado do Estado;  Estado, Sociedade, Opções” e arranca no próximo dia 23 de Outubro, tendo Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, como oradora convidada.

Isabel Maria de Lucena Vasconcelos Cruz de Almeida Mota, de seu nome completo, nasceu em Lisboa, teve uma educação tradicional, uma adolescência pacata e  passou dois anos em Moçambique,  onde o pai foi colocado em missão.

Licenciou-se em Economia e Finanças, foi assistente no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa e  conselheira na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, em Bruxelas, tendo representado  Portugal em várias organizações multilaterais.

O Clube

O cineasta alemão Wim Wenders foi distinguido com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, pelo seu contributo para a história multicultural da Europa e dos ideais europeus. Ao ser informado da decisão, Wim Wenders declarou que “a Europa é uma utopia em curso, construída, mais do que por qualquer outra coisa, pelo seu legado cultural”. A cerimónia de entrega do Prémio  - instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a “Europa Nostra” e o Clube Português de Imprensa -  terá lugar em 24 de Outubro de 2017, na Fundação Calouste Gulbenkian.


ver mais >
Opinião
A comunicação social e a Catalunha
Francisco Sarsfield Cabral
A crise da Catalunha foi, em grande parte, feita para a comunicação social. Os independentistas catalães estavam nos últimos anos a perder adeptos. Uma forma de atrair para a causa os moderados seria provocar Madrid a usar a força policial na região e em particular em Barcelona. Correram mundo as imagens televisivas de polícias nacionais a carregar sobre pessoas que queriam votar no simulacro de referendo. O que descredibilizou...
Ao completar 25 anos, a SIC  cresceu, mas não se emancipou nem libertou o seu criador de preocupações. Francisco Pinto Balsemão, com 80 anos feitos, merecia um sossego que não tem, perante a crise que atingiu o Grupo de media que construiu do zero . Balsemão ganhou vários desafios, alguns deles complexos, desde que lançou o Expresso nos idos de 70 do século passado - o seu “navio-almirante”, como gosta de...
Na semana passada aconteceu o que há muito se esperava – um dos maiores grupos de comunicação anunciou que vai encerrar ou vender a maior parte dos seus títulos de imprensa. A braços com um endividamente gigantesco, acaba por reconhecer que as receitas que obtém, quando existem, são insuficientes para inverter a situação criada ao longo de anos. O cenário actual complica tudo: é devastador folhear um jornal...
Peter Barbey, actual proprietário (desde 2015) do The Village Voice, anunciou em 22 de Agosto o fim da edição impressa do semanário nova-iorquino, após 62 anos de publicação, continuando a ser produzida a versão digital. A edição impressa – gratuita desde há 21 anos -  tinha actualmente uma tiragem de 120 mil exemplares, enquanto a versão digital, segundo a comScore (empresa de análise de...
Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Agenda
20
Out
20
Out
Facebook para Jornalistas
12:00 @ Cenjor,Lisboa
23
Out
II Congresso Internacional sobre Competências Mediáticas
16:00 @ Brasil, Faculdade de Comunicação – Universidade Federal de Juiz de Fora , Minas Gerais
23
Out
Atelier de Jornalismo Digital
18:30 @ Cenjor,Lisboa