Quinta-feira, 19 de Outubro, 2017
Jantares-debate

Para Daniel Proença de Carvalho a Europa não estava preparada para os "choques assimétricos"

A União Europeia começou com um projecto generoso, mas talvez “com excessiva ambição”. Não estava preparada para os “choques assimétricos” causados pelas diferenças de desenvolvimento económico e cultural entre os vários países, agravados pela crise económica de 2008, que desembocou na crise das dívidas soberanas e num processo de ressentimentos e desagregação.

Com a queda do muro de Berlim, desapareceu o inimigo comum que funcionava como “factor agregador de unidade”. É altura de a Europa fazer uma reflexão indispensável sobre o seu projecto, e “não vemos que essa reflexão esteja a ser feita”. Mas pode ser que o efeito Trump e o efeito Putin, com a “aproximação aparente entre os dois”, levem de facto a Europa a reflectir e a reencontrar “uma maior pulsão para a unidade e para a solidariedade”.

Foi nestes termos que Daniel Proença de Carvalho descreveu a história recente da convergência europeia e a nota positiva possível no actual clima de imprevisibilidade. A sua palestra foi proferida no contexto da série de jantares-debate em curso, promovidos pelo Clube de Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Sobre o início do processo, Daniel Proença de Carvalho afirmou que

“talvez as condições económicas e de desenvolvimento dos vários países que integraram o Euro não estivessem ainda preparadas para um passo tão grande, mas ele foi dado, por voluntarismo, e durante alguns anos as coisas até pareciam funcionar razoavelmente”. (...)

 

Mas isso só poderia continuar “se houvesse, de facto, uma maior integração, nomeadamente com um Orçamento comum, que permitisse, justamente, transferências entre as várias regiões, que equilibrassem esses choques assimétricos”.

 

O orador identificou-se com o diagnóstico de Vítor Bento, de quem citou um texto recente, segundo o qual “não há propriamente culpados” na situação a que se chegou:

“Se, por um lado, os países que se endividaram obtendo taxas de juro muito favoráveis e, portanto, foram aliciados a ir mais longe do que seria prudente na dívida pública (e também na privada), a verdade é que também os países com grandes superavits, como a Alemanha e outros países do Centro e do Norte, de certo modo propiciaram, se não promoveram, essa situação.”

 

Este processo, como explicou Daniel Proença de Carvalho, só foi travado “quando o risco passou também a abranger países de grande relevo, e então seria uma catástrofe enorme (como o caso da Itália e o da Espanha), e aí, de facto, as instituições europeias encontraram respostas para, pelo menos, tentar estancar essa crise, e reduzi-la aos países que tiveram, de facto, que recorrer a resgates da União”.

 

Poucos anos depois da queda do muro de Berlim, “por razões de voluntarismo e de fraca análise da situação”, os Estados Unidos tiveram uma intervenção no Iraque e, mais tarde, “a própria Europa entendeu que era altura de exportar o seu modelo democrático e económico para outros países que lhe são próximos, e assim se realizaram as chamadas Primaveras árabes, em parte também incentivadas pelos países europeus e pelos Estados Unidos, e sabemos o que aconteceu”.

 

“Todos estes factores, uns económicos, outros de natureza política, fizeram com que o processo de agregação da União Europeia acabasse por entrar numa fase de regressão, senão mesmo de riscos de destruição deste projecto.”

 

O orador referiu-se depois ao aparecimento, na Europa, de partidos xenófobos e racistas, e de “formas de governo, em países como a Hungria, agora a Polónia, e a Turquia, que põem em causa o modelo democrático clássico que nós desenvolvemos no interior da União Europeia, os princípios da separação de poderes e os direitos fundamentais”, mas que começam a ter “adeptos um pouco por todo o lado”.

 

Nesta linha de pensamento, falou, por fim, “da Rússia de Putin”, que considera “um homem inteligente e um estratega”, mas com uma visão “para tentar reconquistar os sonhos de uma Rússia imperial”, que “começa a ver que há sintomas de desagregação no interior da Europa e, evidentemente, tudo fará para promover e aumentar esses movimentos de desagregação”. E falou, também, do “fenómeno Donald Trump, a acontecer “onde todos nós pensávamos que seria impossível”.

 

A acrescentar às dificuldades em promover a necessária reflexão europeia sobre “como chegámos a esta situação” e “o que podemos fazer para a corrigir”, Daniel Proença de Carvalho mencionou ainda a presente “crise de liderança”, a ausência dos grandes líderes fundadores do projecto, e o funcionamento das nossas sociedades democráticas que, “pelo seu voyeurismo, e pela excessiva transparência, afasta, porventura, os melhores da política, e torna muito difícil que hoje, líderes possam surgir, com o apoio dos seus eleitorados”.

 

Sobre a situação de Portugal neste contexto, recordou os três períodos na sua relação com a Europa:

Uma primeira fase, entre 1986 e 1991, de grande crescimento (acima dos 5%) e de convergência com a Europa, quando os fundos da União Europeia tiveram uma influência muito positiva, na criação de infra-estruturas e na melhoria dos nossos serviços.

Depois uma segunda fase, entre 1992 e 1998, já com crescimentos menores, “mas ainda continuámos a crescer alguma coisa”.

A partir de 1999 e, “de certa maneira a partir do Euro, nós deixámos de ter crescimento económico, mas um crescimento anémico… E depois, com o excesso da dívida, com a crise internacional e com a crise das dívidas soberanas, todos nós sabemos o que é que se passou”.

 

Daniel Proença de Carvalho referiu ainda, a terminar, que há dados muito recentes que parecem positivos, com um crescimento que não é só influência do Banco Europeu:

 

“Os últimos dados parecem até ser positivos. Mas é claro que são ainda muito ténues, muito recentes, e nada nos diz que as coisas possam correr bem. Dependemos muito do que se passar no exterior. De qualquer modo, precisávamos de fazer também o nosso trabalho de casa, e continuam algumas reformas por fazer, que aumentem a nossa competitividade, um dos factores mais graves que nós temos.” (...)

 

"A sociedade civil teve uma reacção muito positiva às dificuldades, e conseguiu superar e cumprir o seu papel, mas o Estado não deu a resposta que esperámos. (...) Tivémos um Governo com uma maioria absoluta do PSD e do CDS, que teve talvez condições para fazer algumas reformas, mas que também não fez, temos que reconhecer isso, e agora é difícil de imaginar que o actual Governo tenha condições políticas, pelos apoios que tem à sua esquerda, do Partido Socialista, para poder de facto realizar essas reformas." (...)   


Fotos Paula Lourenço/Grémio Literário

Connosco
Relatório assinala em Espanha quebra do consumo de TV por assinatura Ver galeria

O consumo doméstico de televisão por assinatura em Espanha, no ano de 2016, foi de 14,5 euros por mês, por habitação, o que significa quase 21% do seu gasto total em tecnologias de informação e comunicação. Esta quantia é 6,5% inferior à de 2015, que se situava numa média de 15,4%. Os dados são do relatório La sociedad en red 2016, elaborado pelo Observatorio Nacional de las Tecnologías de la Sociedad de la Información (ONTSI).

As imagens e as palavras depois da tragédia Ver galeria

A tragédia causada pelos incêndios no centro e norte do País, neste domingo 15 de Outubro, já considerado “o pior dia do ano” em número de ocorrências (mais de 500), simultâneas ou consecutivas, é retratado nas primeiras páginas dos jornais de 17. Quase todos destacam os números das vítimas, somando as de agora às de Pedrógão. Os dois jornais que usam a mesma foto, de três mulheres junto de uma casa destruída, abraçando-se ao lado de uma menina, são também os que procuram as palavras fortes para caracterizar o ocorrido: “Imperdoável” (Correio da Manhã); “Cem mortes sem desculpa” (Jornal de Notícias). 

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


ver mais >
Opinião
A comunicação social e a Catalunha
Francisco Sarsfield Cabral
A crise da Catalunha foi, em grande parte, feita para a comunicação social. Os independentistas catalães estavam nos últimos anos a perder adeptos. Uma forma de atrair para a causa os moderados seria provocar Madrid a usar a força policial na região e em particular em Barcelona. Correram mundo as imagens televisivas de polícias nacionais a carregar sobre pessoas que queriam votar no simulacro de referendo. O que descredibilizou...
Ao completar 25 anos, a SIC  cresceu, mas não se emancipou nem libertou o seu criador de preocupações. Francisco Pinto Balsemão, com 80 anos feitos, merecia um sossego que não tem, perante a crise que atingiu o Grupo de media que construiu do zero . Balsemão ganhou vários desafios, alguns deles complexos, desde que lançou o Expresso nos idos de 70 do século passado - o seu “navio-almirante”, como gosta de...
Na semana passada aconteceu o que há muito se esperava – um dos maiores grupos de comunicação anunciou que vai encerrar ou vender a maior parte dos seus títulos de imprensa. A braços com um endividamente gigantesco, acaba por reconhecer que as receitas que obtém, quando existem, são insuficientes para inverter a situação criada ao longo de anos. O cenário actual complica tudo: é devastador folhear um jornal...
Peter Barbey, actual proprietário (desde 2015) do The Village Voice, anunciou em 22 de Agosto o fim da edição impressa do semanário nova-iorquino, após 62 anos de publicação, continuando a ser produzida a versão digital. A edição impressa – gratuita desde há 21 anos -  tinha actualmente uma tiragem de 120 mil exemplares, enquanto a versão digital, segundo a comScore (empresa de análise de...
Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Agenda
20
Out
20
Out
Facebook para Jornalistas
12:00 @ Cenjor,Lisboa
23
Out
II Congresso Internacional sobre Competências Mediáticas
16:00 @ Brasil, Faculdade de Comunicação – Universidade Federal de Juiz de Fora , Minas Gerais
23
Out
Atelier de Jornalismo Digital
18:30 @ Cenjor,Lisboa