Terça-feira, 27 de Junho, 2017
Jantares-debate

Para Daniel Proença de Carvalho a Europa não estava preparada para os "choques assimétricos"

A União Europeia começou com um projecto generoso, mas talvez “com excessiva ambição”. Não estava preparada para os “choques assimétricos” causados pelas diferenças de desenvolvimento económico e cultural entre os vários países, agravados pela crise económica de 2008, que desembocou na crise das dívidas soberanas e num processo de ressentimentos e desagregação.

Com a queda do muro de Berlim, desapareceu o inimigo comum que funcionava como “factor agregador de unidade”. É altura de a Europa fazer uma reflexão indispensável sobre o seu projecto, e “não vemos que essa reflexão esteja a ser feita”. Mas pode ser que o efeito Trump e o efeito Putin, com a “aproximação aparente entre os dois”, levem de facto a Europa a reflectir e a reencontrar “uma maior pulsão para a unidade e para a solidariedade”.

Foi nestes termos que Daniel Proença de Carvalho descreveu a história recente da convergência europeia e a nota positiva possível no actual clima de imprevisibilidade. A sua palestra foi proferida no contexto da série de jantares-debate em curso, promovidos pelo Clube de Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Sobre o início do processo, Daniel Proença de Carvalho afirmou que

“talvez as condições económicas e de desenvolvimento dos vários países que integraram o Euro não estivessem ainda preparadas para um passo tão grande, mas ele foi dado, por voluntarismo, e durante alguns anos as coisas até pareciam funcionar razoavelmente”. (...)

 

Mas isso só poderia continuar “se houvesse, de facto, uma maior integração, nomeadamente com um Orçamento comum, que permitisse, justamente, transferências entre as várias regiões, que equilibrassem esses choques assimétricos”.

 

O orador identificou-se com o diagnóstico de Vítor Bento, de quem citou um texto recente, segundo o qual “não há propriamente culpados” na situação a que se chegou:

“Se, por um lado, os países que se endividaram obtendo taxas de juro muito favoráveis e, portanto, foram aliciados a ir mais longe do que seria prudente na dívida pública (e também na privada), a verdade é que também os países com grandes superavits, como a Alemanha e outros países do Centro e do Norte, de certo modo propiciaram, se não promoveram, essa situação.”

 

Este processo, como explicou Daniel Proença de Carvalho, só foi travado “quando o risco passou também a abranger países de grande relevo, e então seria uma catástrofe enorme (como o caso da Itália e o da Espanha), e aí, de facto, as instituições europeias encontraram respostas para, pelo menos, tentar estancar essa crise, e reduzi-la aos países que tiveram, de facto, que recorrer a resgates da União”.

 

Poucos anos depois da queda do muro de Berlim, “por razões de voluntarismo e de fraca análise da situação”, os Estados Unidos tiveram uma intervenção no Iraque e, mais tarde, “a própria Europa entendeu que era altura de exportar o seu modelo democrático e económico para outros países que lhe são próximos, e assim se realizaram as chamadas Primaveras árabes, em parte também incentivadas pelos países europeus e pelos Estados Unidos, e sabemos o que aconteceu”.

 

“Todos estes factores, uns económicos, outros de natureza política, fizeram com que o processo de agregação da União Europeia acabasse por entrar numa fase de regressão, senão mesmo de riscos de destruição deste projecto.”

 

O orador referiu-se depois ao aparecimento, na Europa, de partidos xenófobos e racistas, e de “formas de governo, em países como a Hungria, agora a Polónia, e a Turquia, que põem em causa o modelo democrático clássico que nós desenvolvemos no interior da União Europeia, os princípios da separação de poderes e os direitos fundamentais”, mas que começam a ter “adeptos um pouco por todo o lado”.

 

Nesta linha de pensamento, falou, por fim, “da Rússia de Putin”, que considera “um homem inteligente e um estratega”, mas com uma visão “para tentar reconquistar os sonhos de uma Rússia imperial”, que “começa a ver que há sintomas de desagregação no interior da Europa e, evidentemente, tudo fará para promover e aumentar esses movimentos de desagregação”. E falou, também, do “fenómeno Donald Trump, a acontecer “onde todos nós pensávamos que seria impossível”.

 

A acrescentar às dificuldades em promover a necessária reflexão europeia sobre “como chegámos a esta situação” e “o que podemos fazer para a corrigir”, Daniel Proença de Carvalho mencionou ainda a presente “crise de liderança”, a ausência dos grandes líderes fundadores do projecto, e o funcionamento das nossas sociedades democráticas que, “pelo seu voyeurismo, e pela excessiva transparência, afasta, porventura, os melhores da política, e torna muito difícil que hoje, líderes possam surgir, com o apoio dos seus eleitorados”.

 

Sobre a situação de Portugal neste contexto, recordou os três períodos na sua relação com a Europa:

Uma primeira fase, entre 1986 e 1991, de grande crescimento (acima dos 5%) e de convergência com a Europa, quando os fundos da União Europeia tiveram uma influência muito positiva, na criação de infra-estruturas e na melhoria dos nossos serviços.

Depois uma segunda fase, entre 1992 e 1998, já com crescimentos menores, “mas ainda continuámos a crescer alguma coisa”.

A partir de 1999 e, “de certa maneira a partir do Euro, nós deixámos de ter crescimento económico, mas um crescimento anémico… E depois, com o excesso da dívida, com a crise internacional e com a crise das dívidas soberanas, todos nós sabemos o que é que se passou”.

 

Daniel Proença de Carvalho referiu ainda, a terminar, que há dados muito recentes que parecem positivos, com um crescimento que não é só influência do Banco Europeu:

 

“Os últimos dados parecem até ser positivos. Mas é claro que são ainda muito ténues, muito recentes, e nada nos diz que as coisas possam correr bem. Dependemos muito do que se passar no exterior. De qualquer modo, precisávamos de fazer também o nosso trabalho de casa, e continuam algumas reformas por fazer, que aumentem a nossa competitividade, um dos factores mais graves que nós temos.” (...)

 

"A sociedade civil teve uma reacção muito positiva às dificuldades, e conseguiu superar e cumprir o seu papel, mas o Estado não deu a resposta que esperámos. (...) Tivémos um Governo com uma maioria absoluta do PSD e do CDS, que teve talvez condições para fazer algumas reformas, mas que também não fez, temos que reconhecer isso, e agora é difícil de imaginar que o actual Governo tenha condições políticas, pelos apoios que tem à sua esquerda, do Partido Socialista, para poder de facto realizar essas reformas." (...)   


Fotos Paula Lourenço/Grémio Literário

Connosco
Uma foto icónica partilhada por jornais e redes sociais Ver galeria

Há imagens que valem por mil palavras. Esta que reproduzimos acima é uma delas, registada pelo bombeiro Pedro Brás, no segundo dia do incêndio de Pedrogão Grande, quando 13 companheiros se deitaram no chão exaustos, no combate aos fogos.

A foto foi reproduzida, originalmente, pelos jornais espanhóis El Mundo e El Pais e, também, entre outros, pelo site electrónico Observador, doqual retiramos este documento.

Mais tarde, a imagem percorreu mundo, através das redes sociais e tornou-se icónica de uma luta desigual contra uma calamidade em que morreram 64 habitantes de Pedrogão Grande e 254 ficaram feridos, segundo as ultimas estimativas.

A foto foi tirada na manhã de 18 de Junho, e ganhou estatuto de viral. É uma imagem que “fala por si”, representando, simbolicamente, a homenagem a todos os bombeiros que estiveram envolvidos na contenção do  terrível sinistro.

Em pouco tempo, registaram-se cerca de 80 mil partilhas na rede social Facebook, e a  foto ganhou expressão, também, no Twitter e noutros  meios de comunicação social espalhados pelo mundo.

Dirigentes europeus intimam redes sociais a envolverem-se na luta contra o extremismo online Ver galeria
O Clube

 
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia é a nova iniciativa promovida pelo Clube Português de Imprensa (CPI) em parceria com o Jornal Tribuna de Macau (JTM), no quadro das comorações que assinalam o 35º aniversário daquele diário de língua portuguesa em Macau.

Com o valor de 10 mil euros e periodicidade anual, o Prémio será atribuído por um Júri constituído por representantes do CPI, do JTM e por personalidades de reconhecido mérito na área do jornalismo ou que se tenham distinguido na defesa, divulgação ou ensino da Língua Portuguesa no Mundo.

Trata-se, pois, de um novo Prémio que, de acordo com o respectivo Regulamento (que inserimos noutro espaço deste site) se destina “a jornalistas e à Imprensa de Língua Portuguesa de todo o Mundo, em suporte papel ou digital”. 


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Opinião
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Agenda
11
Jul
Exposição de Jornais Centenários em Bruxelas
09:00 @ Parlamento Europeu, Bruxelas
12
Jul
Curso de Verão “Jornalismo de Investigação”
09:00 @ Universidade Internacional Menéndez Pelayo, Santander
13
Jul
Westminster Media Forum
09:00 @ Central London, Londres
27
Jul
Festival de Jornalismos de Verão
09:00 @ Couthures, França