Sábado, 1 de Outubro, 2022
Media

Crise no jornalismo americano é mais geográfica do que tecnológica

A verdadeira crise no jornalismo americano “não é tecnológica, mas geográfica”. Os media, nos EUA, foram durante muito tempo locais, “frequentemente empregando repórteres e editores nas suas próprias comunidades e trazendo à luz vozes que reflectem a composição da sua audiência de leitores”. O que tem estado a acontecer é que as consequências, tanto da revolução digital como da crispação política, são mais pesadas para o jornalismo local, que está a encolher. A reflexão é da jornalista Kathleen McLaughlin, que começou a carreira num jornal local em Missoula, no Estado de Montana.

Os Estados Unidos têm 1.300 jornais, mas só três ou quatro deles são de âmbito nacional  - diz Tom Rosenthiel, que dirigiu durante 16 anos o Projecto para a Excelência no Jornalismo, no Pew Research Center. E o texto prossegue: 

“Temos 600 estações locais de televisão e seis redes a nível nacional. A nossa estrutura noticiosa está assente, em primeiro lugar, a nível local e regional, mas essa dinâmica está em mudança, em grande medida graças às redes sociais. De repente, a política presidencial prevaleceu sobre [trumped, no original] a local e estadual  - algo que eu nunca tinha visto no meu Estado de origem.”

Segundo o trabalho de Kathleen McLaughlin, que aqui citamos: 

“Os jornais locais e regionais, nos EUA, sofreram uma sangria de dinheiro, recursos humanos e leitores, e neste processo perderam muita da sua autoridade como vigilantes e fontes de influência. A seguir à eleição presidencial mais divisionista de memória recente, e no meio de muitos discursos angustiados sobre o estado do jornalismo, de certo modo olhámos menos para o que aconteceu aos media locais, o sítio onde a maioria dos americanos costumava ir buscar o essencial da sua informação. O suporte do jornalismo americano, um baluarte fundamental no nosso aparentemente delicado sistema, está a desmoronar-se.” 

“No seu lugar, ficámos com um vazio que foi facilmente preenchido, durante a campanha presidencial e até hoje, pela retórica e palhaçadas bombásticas, frequentemente racistas e sexistas, de estilo reality-TV, de Donald Trump.” (...) 

A consequência, como diz adiante, é que “os jornais ficaram mais pequenos e o seu conteúdo mais limitado, menos diferenciado; os jornalistas mais velhos, que conhecem os assuntos às vezes melhor do que aqueles sobre quem vão escrever, foram postos de lado, dando lugar a repórteres mal pagos que sabem usar o Twitter e o Instagram, mas a quem faltam as bases na história e na investigação.” (...) 

Diz ainda a autora:

“A situação é bem adequada a políticos que não querem responder a questões difíceis vindas do público, ou do seu intermediário, a Imprensa. (...)  Os funcionários eleitos, principalmente aqueles que usam as redes sociais, sentem-se mais confortáveis enviando a sua mensagem directamente ao público, pelo Facebook ou Twitter, do que confiando nos repórteres.” (...)

 

O artigo original de Kathleen McLaughlin, na íntegra, em The Guardian, a que pertence também a imagem utilizada

Connosco
Gazeta Wyborcza da Polónia recebe prémio da liberdade de imprensa Ver galeria

A Gazeta Wyborcza e a Fundação Gazeta Wyborcza, da Polónia, receberam, no World News Media Congress 2022, das mãos do Rei Felipe VI, o prémio da liberdade de imprensa da Associação Mundial de Editores Noticiosos (WAN-IFRA).

Para a WAN-IFRA, o prémio reconheceu “um meio que se apresenta como um farol de independência e um baluarte contra o autoritarismo”, além se ser “um jornal de referência que demonstra os seus valores diariamente, através das suas páginas, apoiando jovens jornalistas, na promoção de notícias locais e trabalhando através das fronteiras em solidariedade com colegas necessitados”.

Estes são valores que, para a Associação, representam o que se defende para os media a nível mundial, e que demonstram a importância de continuar a defender uma imprensa livre, para além da demonstração de solidariedade.

A Gazeta Wyborcza criou, em 2019, a Fundação A Gazeta Wyborcza, de forma a salvaguardar o futuro da publicação e a fortalecer o jornalismo de qualidade na Polónia. Os seus projectos denunciaram já organizações neofascistas, combateram a desinformação, a polarização, entre outras questões que marcaram a actualidade.

Tendo em conta a deterioração da democracia polaca, que se encontra em 64º lugar no “Ranking de Liberdade de Imprensa” dos Repórteres Sem Fronteiras, “o compromisso cívico é mais necessário do que nunca”, conforme referiu Joanna Krawczyk, directora da Gazeta Wyborcza e presidente do Conselho da Fundação.

Organizações preocupadas com “Lei Classificada” em Espanha propõem reformulação Ver galeria

As organizações Hay Derecho, Más Democracia, Access Info e Transparencia Internacional España emitiram um comunicado conjunto, no Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, acerca do Segredo de Estado.

Alegam, designadamente, que o Projecto de Lei sobre a Lei Classificada não garante um equilíbrio entre a classificação da informação e o direito à liberdade de informação, responsabilidade e transparência.

A lei “não pode permitir, em nome de uma alegada segurança nacional, potenciais violações dos direitos humanos, quanto mais crimes contra a humanidade”, realçaram. Além disso, admitiram uma “reserva temporária”, mas acreditam que a “transparência deve prevalecer no final desse tempo legalmente estabelecido”.

As principais preocupações para com o Projecto de Lei apresentado pelo Governo espanhol devem-se a questões como a motivação para a classificação, a legitimação de quem classifica, os direitos fundamentais, os prazos para desclassificar a informação, a legitimação para recorrer das decisões e o incumprimento do próprio processo.

Para as organizações, é preciso que seja justificada e pertinente a classificação de uma informação como “Segredo de Estado”, já que há tópicos assim classificados que em nada têm a ver com a segurança nacional. Também, o facto de existirem diversos cargos políticos aos quais se dá o direito de classificar uma informação como tal, revelou-se um problema.

Além de ter de assegurar o respeito pelos direitos fundamentais no âmbito da liberdade à informação, as associações consideraram que o Projecto de Lei deveria clarificar os prazos para desclassificar a informação como “secreta”, já que existe informação há mais de 50 anos nesta condição.

O Clube


Lançado em novembro de 2016, este site do Clube Português de Imprensa tem mantido, desde então, uma actividade regular, com actualizações diárias, quer sobre iniciativas próprias da Associação, quer sobre a actualidade relacionada com os media portugueses e internacionais.

O site tem sido, ainda, um fórum de debate e de reflexão sobre as questões que se colocam ao jornalismo e aos jornalistas, reunindo a opinião de vários colunistas e textos editados por instituições com as quais celebrámos parcerias, desde o Observatório de Imprensa do Brasil à Asociacion de la Prensa de Madrid ou ao jornal “A Tribuna” de Macau.

Em seis anos de presença online constante, com um crescimento assinalável de visitantes, é natural que o site deva corresponder a essa procura, reinventando-se e procedendo a uma actualização tecnológica.

Pela sua natureza, essa modernização conceptual implicará algumas modificações na frequência e rotatividade de conteúdos, já a partir de outubro. É uma transição necessária.

Continuamos a contar com o interesse e adesão dos associados, além dos muitos milhares de frequentadores deste site, que constituem um valioso incentivo para quem contribui, sem outras ambições nem dependências, para um suporte digital que é um dos principais “cartões de visita” do Clube Português de Imprensa, fundado em 1980.  

 

A Direcção


ver mais >
Opinião
Se a exibição cinematográfica em sala foi seriamente afectada pelo advento dos aparelhos de televisão, cada vez mais sofisticados (o cinema em casa), a difusão da Imprensa sofreu um impacto ainda maior com o desenvolvimento e democratização da Internet, desde o telemóvel ao computador doméstico. A divulgação regular das contas feitas pela APCT - Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens, é...
Com o fim dos confinamentos ditados pela pandemia, a publicidade exterior deu um grande salto: na primeira metade deste ano o investimento dos anunciantes nas redes de outdoor cresceu mais de 73% comparado com igual período do ano passado. Mais significativo ainda - no total do primeiro semestre o outdoor captou cerca de 12% de todo o mercado publicitário português, colocando-se assim como o terceiro meio mais utilizado pelos anunciantes, depois da televisão (53%) e...
Se tudo correr bem, no início da próxima semana, Macau “liberta-se”, embora gradualmente, do primeiro grande surto de covid-19 desde Fevereiro de 2020. No total, desde 18 de Julho, foram detectados 1.117 casos de infecção, dos quais apenas cerca de 700 apresentaram sintomas, e houve um total de apenas seis mortos, todas senhoras idosas com doenças crónicas. Se tudo correr bem, o grande surto de covid em Macau durou três semanas. O...
Trump só aceita resultados eleitorais quando é declarado vencedor. Caso contrário, trata-se de uma fraude. Esta versão peculiar da democracia começa a fazer escola. É o caso de Bolsonaro. Os jornalistas são alvo da fúria de Trump e Bolsonaro. Donald Trump prepara a sua candidatura à presidência dos EUA em 2024. As sessões da comissão de inquérito do Congresso federal, que investiga o assalto ao...
Apesar de todo o meu passado de jornalista, tento cada vez mais colocar-me no presente de cidadão leitor, escutante ou visionador da atual torrente de notícias. Não ouso elevar-me ao papel de futurólogo desta relação entre receptor e emissor. Na verdade, isso interessa-me pouco. Quero fixar-me no hoje, já não tenho alma de vidente. E o hoje é a sociedade dos sentidos e das emoções. Li recentemente um pequeno ensaio do...
Agenda
05
Out
The Publisher Podcast Summit
09:00 @ Proud Cabaret City, Londres
06
Out
News Impact Summit
10:00 @ Praga, República Checa
10
Out