Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

Crise no jornalismo americano é mais geográfica do que tecnológica

A verdadeira crise no jornalismo americano “não é tecnológica, mas geográfica”. Os media, nos EUA, foram durante muito tempo locais, “frequentemente empregando repórteres e editores nas suas próprias comunidades e trazendo à luz vozes que reflectem a composição da sua audiência de leitores”. O que tem estado a acontecer é que as consequências, tanto da revolução digital como da crispação política, são mais pesadas para o jornalismo local, que está a encolher. A reflexão é da jornalista Kathleen McLaughlin, que começou a carreira num jornal local em Missoula, no Estado de Montana.

Os Estados Unidos têm 1.300 jornais, mas só três ou quatro deles são de âmbito nacional  - diz Tom Rosenthiel, que dirigiu durante 16 anos o Projecto para a Excelência no Jornalismo, no Pew Research Center. E o texto prossegue: 

“Temos 600 estações locais de televisão e seis redes a nível nacional. A nossa estrutura noticiosa está assente, em primeiro lugar, a nível local e regional, mas essa dinâmica está em mudança, em grande medida graças às redes sociais. De repente, a política presidencial prevaleceu sobre [trumped, no original] a local e estadual  - algo que eu nunca tinha visto no meu Estado de origem.”

Segundo o trabalho de Kathleen McLaughlin, que aqui citamos: 

“Os jornais locais e regionais, nos EUA, sofreram uma sangria de dinheiro, recursos humanos e leitores, e neste processo perderam muita da sua autoridade como vigilantes e fontes de influência. A seguir à eleição presidencial mais divisionista de memória recente, e no meio de muitos discursos angustiados sobre o estado do jornalismo, de certo modo olhámos menos para o que aconteceu aos media locais, o sítio onde a maioria dos americanos costumava ir buscar o essencial da sua informação. O suporte do jornalismo americano, um baluarte fundamental no nosso aparentemente delicado sistema, está a desmoronar-se.” 

“No seu lugar, ficámos com um vazio que foi facilmente preenchido, durante a campanha presidencial e até hoje, pela retórica e palhaçadas bombásticas, frequentemente racistas e sexistas, de estilo reality-TV, de Donald Trump.” (...) 

A consequência, como diz adiante, é que “os jornais ficaram mais pequenos e o seu conteúdo mais limitado, menos diferenciado; os jornalistas mais velhos, que conhecem os assuntos às vezes melhor do que aqueles sobre quem vão escrever, foram postos de lado, dando lugar a repórteres mal pagos que sabem usar o Twitter e o Instagram, mas a quem faltam as bases na história e na investigação.” (...) 

Diz ainda a autora:

“A situação é bem adequada a políticos que não querem responder a questões difíceis vindas do público, ou do seu intermediário, a Imprensa. (...)  Os funcionários eleitos, principalmente aqueles que usam as redes sociais, sentem-se mais confortáveis enviando a sua mensagem directamente ao público, pelo Facebook ou Twitter, do que confiando nos repórteres.” (...)

 

O artigo original de Kathleen McLaughlin, na íntegra, em The Guardian, a que pertence também a imagem utilizada

Connosco
Como a prometida liberdade em “rede social” nos trouxe à ditadura das notícias falsas Ver galeria

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Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Dois anos de notícias falsas, com duas plataformas chamadas à responsabilidade Ver galeria

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O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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