null, 17 de Dezembro, 2017
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O desconcerto das notícias como desafio ao jornalismo actual

“Fracturámos as notícias. Agora como é que as consertamos?”  -  esta podia ser a tradução, à letra, do título da conferência que Melissa Bell, do site Vox (grupo Vox Media), proferiu no grande evento anual que é a Reuters Memorial Lecture, em Oxford. O sentido é outro, como veremos, mas o essencial é que a jovem jornalista norte-americana fez uma boa síntese das nove fracturas com que os media “escavacaram” o jornalismo, e propõe seis sugestões úteis para recuperar a confiança do público.

A sua intervenção insere-se no contexto deste escrutínio de auto-crítica que tem atravessado os grandes meios de referência, nos Estados Unidos e também na Europa, à luz das surpresas eleitorais recentes. Pode talvez dizer-se que é, também, uma referência discreta de homenagem a outra senhora com o mesmo apelido, Emily Bell, da Columbia Journalism School, que protagonizou a Memorial Lecture de 2014 com uma palestra sob o título  - “Silicon Valley and Journalism: Make up or Break up?” 

Na língua inglesa, quando se diz break up referido a notícias, não significa partir coisa nenhuma, mas sim dar em primeira mão uma notícia muito importante, inesperada, eventualmente chocante. Assim, o título de Melissa Bell brinca com o sentido das palavras para nos fazer avaliar a crise que todos sentimos. 

A sua palestra resume em nove pontos o que aconteceu:

  1. -  Perder a confiança da audiência.  Segundo Melissa Bell, os media têm de pensar muito sobre como “trabalhar num ambiente de suspeita e de cinismo”.
  2. -  Dar pouca atenção às receitas.  A autora vai ao ponto de questionar a divisão entre as equipas publicitária e editorial. “No mínimo, temos de tornar conhecido o nosso modelo de negócio, e importante para todas as nossas equipas.”
  3. -  Recusar o abandono da ideia de sermos editores.  “A lealdade dos leitores não diminuiu, mas o nosso ponto de encontro mudou.” As publicações já não podem controlar  o modo como as audiências as encontram, mas podem controlar a qualidade do seu produto final.
  4. -  Suspirar pelo monopólio das notícias.  “Depois de perdermos o controlo do meio, debatemo-nos para manter a mensagem.” Uma espécie de saudade do tempo em que os media tinham o monopólio do que se dizia ou pensava.
  5. -  Prestar culto à objectividade (ou à ideia dela).  “Juntámo-nos em torno da ideia de termos a verdade, em vez de procurarmos a verdade.” (...) Bell critica o “juízo editorial” que se impõe como “o que nós pensamos que é importante e que você deve conhecer”.
  6. -  Ignorar o impacto emocional das notícias.  Não adianta fazê-lo, quando somos inundados com noticiários que “lançam momentos terríveis nas nossas caras” todos os dias.
  7. -  Competir por recursos diminutos.  E não são apenas as receitas. “Lutamos pelas mesmas notícias, vamos atrás das mesmas tempestades, deixando grandes vazios na cobertura.”
  8. -  Entrar numa corrida pelas audiências.  “Fizémos dos programas noticiosos mais entretenimento do que informação.” (...)
  9. Lutar a respeito da ética do jornalismo.  De cada vez que aparece qualquer novidade, seja o BuzzFeed ou os blogs, a indústria embrulha-se em debates sobre o que é ou deixa de ser autêntico jornalismo.

 

Agora as seis sugestões de Melissa Bell:

 

  1. Ser interessante.  As notícias não são um dever cívico obrigatório para as pessoas, “o nosso trabalho é torná-las apelativas e interessantes, algo que as pessoas desejem consumir.”
  2. Conhecer-se a si mesmo.  “Compreenda a missão da sua empresa, e deixe que guie a sua estratégia em todas as plataformas.”
  3. -  Encorajar a experimentação.  Do mesmo modo, reconhecer quando alguma coisa falha, descobrir porquê e seguir em frente.
  4. -  Encorajar interacção com a audiência.  “Como podemos encorajar as audiências a procurarem o conhecimento? Ninguém gosta que lhe digam o que deve pensar.”
  5. -  Admitir a proposta/promoção em vez da objectividade. Melissa Bell diz que, em vez de procurarmos ser objectivos, devíamos procurar ser advocates, no seu texto original. “Proponentes, ou defensores das audiências, dos seus interesses e necessidades. Por informação e factos dignos de confiança. Por publicidade não agressiva. E pelas pessoas que querem e precisam de compreender o mundo à sua volta.”
  6. -  Manter a decência.  “Temos de conquistar cuidadosamente, todos os dias, o respeito da nossa audiência”, no mundo digital, “onde o bullying é frequentemente recompensado”, diz Melissa Bell.

 

A palestra foi seguida de um painel-debate com Marty Baron (The Washington Post), Tom Standage (The Economist) e Ritu Kapur (Quintillion Media), moderado por Alan Rusbridger.

 

Mais informação no ReutersInstitute

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Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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