Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Fórum

O desconcerto das notícias como desafio ao jornalismo actual

“Fracturámos as notícias. Agora como é que as consertamos?”  -  esta podia ser a tradução, à letra, do título da conferência que Melissa Bell, do site Vox (grupo Vox Media), proferiu no grande evento anual que é a Reuters Memorial Lecture, em Oxford. O sentido é outro, como veremos, mas o essencial é que a jovem jornalista norte-americana fez uma boa síntese das nove fracturas com que os media “escavacaram” o jornalismo, e propõe seis sugestões úteis para recuperar a confiança do público.

A sua intervenção insere-se no contexto deste escrutínio de auto-crítica que tem atravessado os grandes meios de referência, nos Estados Unidos e também na Europa, à luz das surpresas eleitorais recentes. Pode talvez dizer-se que é, também, uma referência discreta de homenagem a outra senhora com o mesmo apelido, Emily Bell, da Columbia Journalism School, que protagonizou a Memorial Lecture de 2014 com uma palestra sob o título  - “Silicon Valley and Journalism: Make up or Break up?” 

Na língua inglesa, quando se diz break up referido a notícias, não significa partir coisa nenhuma, mas sim dar em primeira mão uma notícia muito importante, inesperada, eventualmente chocante. Assim, o título de Melissa Bell brinca com o sentido das palavras para nos fazer avaliar a crise que todos sentimos. 

A sua palestra resume em nove pontos o que aconteceu:

  1. -  Perder a confiança da audiência.  Segundo Melissa Bell, os media têm de pensar muito sobre como “trabalhar num ambiente de suspeita e de cinismo”.
  2. -  Dar pouca atenção às receitas.  A autora vai ao ponto de questionar a divisão entre as equipas publicitária e editorial. “No mínimo, temos de tornar conhecido o nosso modelo de negócio, e importante para todas as nossas equipas.”
  3. -  Recusar o abandono da ideia de sermos editores.  “A lealdade dos leitores não diminuiu, mas o nosso ponto de encontro mudou.” As publicações já não podem controlar  o modo como as audiências as encontram, mas podem controlar a qualidade do seu produto final.
  4. -  Suspirar pelo monopólio das notícias.  “Depois de perdermos o controlo do meio, debatemo-nos para manter a mensagem.” Uma espécie de saudade do tempo em que os media tinham o monopólio do que se dizia ou pensava.
  5. -  Prestar culto à objectividade (ou à ideia dela).  “Juntámo-nos em torno da ideia de termos a verdade, em vez de procurarmos a verdade.” (...) Bell critica o “juízo editorial” que se impõe como “o que nós pensamos que é importante e que você deve conhecer”.
  6. -  Ignorar o impacto emocional das notícias.  Não adianta fazê-lo, quando somos inundados com noticiários que “lançam momentos terríveis nas nossas caras” todos os dias.
  7. -  Competir por recursos diminutos.  E não são apenas as receitas. “Lutamos pelas mesmas notícias, vamos atrás das mesmas tempestades, deixando grandes vazios na cobertura.”
  8. -  Entrar numa corrida pelas audiências.  “Fizémos dos programas noticiosos mais entretenimento do que informação.” (...)
  9. Lutar a respeito da ética do jornalismo.  De cada vez que aparece qualquer novidade, seja o BuzzFeed ou os blogs, a indústria embrulha-se em debates sobre o que é ou deixa de ser autêntico jornalismo.

 

Agora as seis sugestões de Melissa Bell:

 

  1. Ser interessante.  As notícias não são um dever cívico obrigatório para as pessoas, “o nosso trabalho é torná-las apelativas e interessantes, algo que as pessoas desejem consumir.”
  2. Conhecer-se a si mesmo.  “Compreenda a missão da sua empresa, e deixe que guie a sua estratégia em todas as plataformas.”
  3. -  Encorajar a experimentação.  Do mesmo modo, reconhecer quando alguma coisa falha, descobrir porquê e seguir em frente.
  4. -  Encorajar interacção com a audiência.  “Como podemos encorajar as audiências a procurarem o conhecimento? Ninguém gosta que lhe digam o que deve pensar.”
  5. -  Admitir a proposta/promoção em vez da objectividade. Melissa Bell diz que, em vez de procurarmos ser objectivos, devíamos procurar ser advocates, no seu texto original. “Proponentes, ou defensores das audiências, dos seus interesses e necessidades. Por informação e factos dignos de confiança. Por publicidade não agressiva. E pelas pessoas que querem e precisam de compreender o mundo à sua volta.”
  6. -  Manter a decência.  “Temos de conquistar cuidadosamente, todos os dias, o respeito da nossa audiência”, no mundo digital, “onde o bullying é frequentemente recompensado”, diz Melissa Bell.

 

A palestra foi seguida de um painel-debate com Marty Baron (The Washington Post), Tom Standage (The Economist) e Ritu Kapur (Quintillion Media), moderado por Alan Rusbridger.

 

Mais informação no ReutersInstitute

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


ver mais >
Opinião
Ser Jornalista
Dinis de Abreu

O jornalismo vive dias difíceis. O avanço no digital não compensa os jornais que fecham e as redacções que reduzem os quadros. Criou-se um sentimento de precariedade no oficio de jornalsita que ameaça a sua independência. Ou pior: que o coloca numa grande dependência perante as incertezas.

Uma comunicação mal comunicada
Francisco Sarsfield Cabral
A tragédia dos incêndios florestal tem evidenciado uma preocupante desorganização no seu combate. Essa desorganização também se manifesta no campo da comunicação social. A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) anunciou há dias que passaria a concentrar a informação sobre os fogos em dois “briefings” diários na sua sede em Carnaxide – um de manhã, outro...
Dados os muitos terabytes de prosa – sólidamente negativa – com que os media globais saudaram a decisão do presidente Trump, anunciada em discurso na Casa Branca no passado dia 1 de Junho, de retirar os EUA. do Acordo de Paris, seria de esperar uma cobertura exaustiva do tema, ou seja, que nenhum aspecto ou complexidade dessa terrível ameaça para a saúde do planeta escapasse à atenção dos “opinion leaders”, em...
Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na...
Agenda
01
Set
IFA
09:00 @ Berlim, Alemanha
04
Set
11
Set
Jornalismo de Investigação
09:00 @ Cenjor,Lisboa