Agora que se fala tanto na era da “pós-verdade”, a boa notícia é que as pessoas, confrontadas com os factos, são capazes de mudar de opinião, “mesmo que esses factos contrariem as suas preferências políticas”. Pelo outro lado, “é tão fácil publicar uma mentira viral e transmiti-la por todo o mundo”, que o jornalismo responsável tem aqui um problema de prontidão e velocidade de resposta. Esta reflexão é de Alexios Mantzarlis, director da rede internacional de Fact-Checking do Poynter Institute, em entrevista ao Observador.
E há mais factores envolvidos. Não temos que nos render a uma espécie de impossibilidade de demonstrar a diferença entre o verdadeiro e o falso mas, como acrescenta o entrevistado, “vivemos num mundo demasiado complexo, onde os factos e as emoções concorrem entre si e influenciam as decisões que tomamos”. Em política, a mensagem não vive só de factos:
“Basta recordar o exemplo de Barack Obama. Em 2008, Obama conseguiu o voto de milhões de novos eleitores com base na esperança e na mudança. E isso não são factos. São sentimentos, emoções. A política é muito mais do que um conglomerado de factos. E isso é bom.”
Mas, para uma democracia saudável, um jornalismo rigoroso e insistente na disciplina da “verificação dos factos” é indispensável:
“Não podemos discutir objectivamente nada se não tivermos presentes todos os factos. É muito difícil alcançarmos um mínimo consenso como sociedade se não tivermos um leque partilhado de factos. Dito isto, sim, acredito que o Fact Check pode ser uma parte importante de uma democracia que se quer saudável.”
“O Fact Check insere-se num contexto mais alargado de jornalismo de responsabilização, de exigir ao poder político evidências e rigor sobre as afirmações que faz. Os jornalistas de Fack Check não são os favoritos da classe política, mas creio que estão a ganhar cada vez mais respeito.”
O próprio Alexios Mantzarlis é, apesar da sua juventude, conhecido e respeitado no meio destas organizações especializadas no fact-checking. Um “itinerante greco-romano”, como se define a si mesmo no Twitter, foi co-fundador do factcheckeu.org, a primeira plataforma europeia neste terreno, e fundou e dirigiu o Pagella Politica, em Itália, antes de ser recrutado pelo Poynter Institute, em Setembro de 2015, para se tornar o primeiro director e editor da International Fact-Checking Network.
O seu conselho final, na entrevista ao Observador:
“Um dos maiores desafios que enfrentamos passa por ter acesso a fontes primárias de qualidade que transmitam informação fidedigna — muitas vezes porque as instituições não publicam essa informação ou fazem-no demasiado tarde. E, por causa da velocidade com que temos de trabalhar, numa altura em que é tão fácil publicar uma mentira viral e transmiti-la por todo o mundo, os fact checkers precisam de encontrar uma forma de tornar o seu trabalho mais rápido para impedir que a informação falsa [sem contraditório] chegue a uma audiência maior.”
O texto da entrevista, na íntegra, no Observador
A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.
Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.
Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.
Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.
Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.
No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.
Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.
Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.
Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.
Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.
Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.
A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.
Faz cinco anos que começámos este site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.
O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária.
Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.
O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.
Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.