Segunda-feira, 17 de Fevereiro, 2020
Media

"Fact-Checking" tem de competir com as mentiras virais

Agora que se fala tanto na era da “pós-verdade”, a boa notícia é que as pessoas, confrontadas com os factos, são capazes de mudar de opinião, “mesmo que esses factos contrariem as suas preferências políticas”. Pelo outro lado, “é tão fácil publicar uma mentira viral e transmiti-la por todo o mundo”, que o jornalismo responsável tem aqui um problema de prontidão e velocidade de resposta. Esta reflexão é de Alexios Mantzarlis, director da rede internacional de Fact-Checking do Poynter Institute, em entrevista ao Observador.

E há mais factores envolvidos. Não temos que nos render a uma espécie de impossibilidade de demonstrar a diferença entre o verdadeiro e o falso mas, como acrescenta o entrevistado, “vivemos num mundo demasiado complexo, onde os factos e as emoções concorrem entre si e influenciam as decisões que tomamos”. Em política, a mensagem não vive só de factos:  

“Basta recordar o exemplo de Barack Obama. Em 2008, Obama conseguiu o voto de milhões de novos eleitores com base na esperança e na mudança. E isso não são factos. São sentimentos, emoções. A política é muito mais do que um conglomerado de factos. E isso é bom.”  

Mas, para uma democracia saudável, um jornalismo rigoroso e insistente na disciplina da “verificação dos factos” é indispensável:

 

“Não podemos discutir objectivamente nada se não tivermos presentes todos os factos. É muito difícil alcançarmos um mínimo consenso como sociedade se não tivermos um leque partilhado de factos. Dito isto, sim, acredito que o Fact Check pode ser uma parte importante de uma democracia que se quer saudável.”


“O Fact Check insere-se num contexto mais alargado de jornalismo de responsabilização, de exigir ao poder político evidências e rigor sobre as afirmações que faz. Os jornalistas de Fack Check não são os favoritos da classe política, mas creio que estão a ganhar cada vez mais respeito.”

 

O próprio Alexios Mantzarlis é, apesar da sua juventude, conhecido e respeitado no meio destas organizações especializadas no fact-checking. Um “itinerante greco-romano”, como se define a si mesmo no Twitter, foi co-fundador do factcheckeu.org, a primeira plataforma europeia neste terreno, e fundou e dirigiu o Pagella Politica, em Itália, antes de ser recrutado pelo Poynter Institute, em Setembro de 2015, para se tornar o primeiro director e editor da International Fact-Checking Network.

 

O seu conselho final, na entrevista ao Observador:

“Um dos maiores desafios que enfrentamos passa por ter acesso a fontes primárias de qualidade que transmitam informação fidedigna   —  muitas vezes porque as instituições não publicam essa informação ou fazem-no demasiado tarde. E, por causa da velocidade com que temos de trabalhar, numa altura em que é tão fácil publicar uma mentira viral e transmiti-la por todo o mundo, os fact checkers precisam de encontrar uma forma de tornar o seu trabalho mais rápido para impedir que a informação falsa [sem contraditório] chegue a uma audiência maior.”

 

O texto da entrevista, na íntegra, no Observador

Connosco
Imprensa britânica preocupada com regulação do “Ofcom” Ver galeria

A imprensa britânica teme que o controlo de conteúdos “online” pelo Ofcom constitua uma tentativa governamental de condicionar a liberdade de imprensa. O “The Daily Mail”, a título de exemplo, argumenta que a nova lei "pode levar à censura estatal".


Vários outros “media” estão, agora, em campanha para que a regulamentação do Ofcom se cinja a empresas tecnológicas, como o Facebook e o Google, e não se alargue à imprensa “online”. Os directores dos jornais receiam, igualmente, que a acção da entidade reguladora impeça a partilha de algumas das suas notícias mais “chocantes”.


A NMA -- News Media Association, organização que representa a maioria dos jornais britânicos, já expressou, igualmente, o seu desagrado face à proposta governamental e prometeu lutar pela garantia da “isenção explícita, em qualquer legislação, para editores e jornalistas", que são, afinal, mediadores da democracia.

O alastramento do coronavirus pode provocar um "infodemia" Ver galeria

As editoras científicas de todo o mundo concordaram em partilhar, de forma gratuita, informações sobre o novo coronavírus que, de outra forma, estariam escondidas atrás das “paywalls”. Assim, dados cruciais sobre a epidemia estão a ser divulgados mas, segundo a jornalista  Roxana Tabakman , não da melhor forma.

Tabakman é especializada em jornalismo científico e da saúde e, num artigo para o “Observatório da Imprensa” (associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria), teceu críticas às reportagens que têm sido publicadas sobre a doença.

Se, por um lado, há jornalismo sério que contribui para o conhecimento e para a saúde pública, por outro, existem repórteres sensacionalistas que desejam, apenas, conquistar audiências.
O jornalista científico Carlos Orsi descreveu, mesmo, a situação como um “ciclo perverso”: “a cobertura incessante  gera uma sensação de urgência e alimenta uma curiosidade do público que, na ausência de factos novos, não encontra alívio ou satisfação, mas redundância e tédio. Isso incentiva rumores que, por sua vez, justificam a reiteração redundante do que já se sabe".

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...
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O cinema e a televisão como "forma de futuro"
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