Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

"Fact-Checking" tem de competir com as mentiras virais

Agora que se fala tanto na era da “pós-verdade”, a boa notícia é que as pessoas, confrontadas com os factos, são capazes de mudar de opinião, “mesmo que esses factos contrariem as suas preferências políticas”. Pelo outro lado, “é tão fácil publicar uma mentira viral e transmiti-la por todo o mundo”, que o jornalismo responsável tem aqui um problema de prontidão e velocidade de resposta. Esta reflexão é de Alexios Mantzarlis, director da rede internacional de Fact-Checking do Poynter Institute, em entrevista ao Observador.

E há mais factores envolvidos. Não temos que nos render a uma espécie de impossibilidade de demonstrar a diferença entre o verdadeiro e o falso mas, como acrescenta o entrevistado, “vivemos num mundo demasiado complexo, onde os factos e as emoções concorrem entre si e influenciam as decisões que tomamos”. Em política, a mensagem não vive só de factos:  

“Basta recordar o exemplo de Barack Obama. Em 2008, Obama conseguiu o voto de milhões de novos eleitores com base na esperança e na mudança. E isso não são factos. São sentimentos, emoções. A política é muito mais do que um conglomerado de factos. E isso é bom.”  

Mas, para uma democracia saudável, um jornalismo rigoroso e insistente na disciplina da “verificação dos factos” é indispensável:

 

“Não podemos discutir objectivamente nada se não tivermos presentes todos os factos. É muito difícil alcançarmos um mínimo consenso como sociedade se não tivermos um leque partilhado de factos. Dito isto, sim, acredito que o Fact Check pode ser uma parte importante de uma democracia que se quer saudável.”


“O Fact Check insere-se num contexto mais alargado de jornalismo de responsabilização, de exigir ao poder político evidências e rigor sobre as afirmações que faz. Os jornalistas de Fack Check não são os favoritos da classe política, mas creio que estão a ganhar cada vez mais respeito.”

 

O próprio Alexios Mantzarlis é, apesar da sua juventude, conhecido e respeitado no meio destas organizações especializadas no fact-checking. Um “itinerante greco-romano”, como se define a si mesmo no Twitter, foi co-fundador do factcheckeu.org, a primeira plataforma europeia neste terreno, e fundou e dirigiu o Pagella Politica, em Itália, antes de ser recrutado pelo Poynter Institute, em Setembro de 2015, para se tornar o primeiro director e editor da International Fact-Checking Network.

 

O seu conselho final, na entrevista ao Observador:

“Um dos maiores desafios que enfrentamos passa por ter acesso a fontes primárias de qualidade que transmitam informação fidedigna   —  muitas vezes porque as instituições não publicam essa informação ou fazem-no demasiado tarde. E, por causa da velocidade com que temos de trabalhar, numa altura em que é tão fácil publicar uma mentira viral e transmiti-la por todo o mundo, os fact checkers precisam de encontrar uma forma de tornar o seu trabalho mais rápido para impedir que a informação falsa [sem contraditório] chegue a uma audiência maior.”

 

O texto da entrevista, na íntegra, no Observador

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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