Sábado, 18 de Janeiro, 2020
Media

A importância das palavras e o papel dos Media perante a realidade mal conhecida

Há expressões que deformam a realidade, ou tentam camuflar parte dela. Há outras, pelo contrário, que identificam uma realidade mal conhecida, lhe dão nome próprio e contribuem, assim, para a consciência pública dela. Os meios de comunicação têm um papel importante neste processo de difusão do facto e do conceito, até à sua consagração final no dicionário. É este o tema de um estudo publicado no Observatório dos Media francês, Acrimed, sobre uma expressão nascida há pouco mais de quatro anos: o "assédio de rua".

Os factos são mais antigos; o artigo que citamos designa-os por uma série de termos encadeados  -  "assobios, solicitações verbais, gestos obscenos", ou "o comportamento de homens (caso mais frequente) que interpelam, assobiam ou insultam mulheres (caso mais frequente) na rua". 

Mas a expressão aparece pela primeira vez, na Imprensa francesa, num artigo de Le Figaro, em 2 de Agosto de 2012, e a sua importância cresceu rapidamente; de modo paralelo, no Twitter, o hashtag #harcelementderue conheceu uma popularidade imediata. 

Pouco antes, em 26 de Julho do mesmo ano, a RTBF – Rádio-Televisão Belga Fancófona tinha difundido um documentário de Sophie Peeters intitulado Femme de la rue, sobre situações de assédio a mulheres em Bruxelas. Logo a seguir, a expressão harcèlement de rue "fez uma grande entrada na Imprensa francesa: do Figaro ao Monde, passando por La Voix du Nord e La Nouvelle République, nada menos que 21 artigos a utilizaram no espaço de poucos dias". 

Os arquivos do Twitter datam a aparição do hashtag em 31 de Julho, portanto logo após a difusão do documentário e pouco antes do primeiro artigo impresso; e quatro em cada nove utilizadores(as) identificam-se como "feministas" no seu perfil. A autora deste artigo aponta que o assédio de rua já era teorizado entre as feministas nos EUA, onde se designava por street harassment

Violaine Nicaud descreve, depois, a expansão de harcèlement de rue na Imprensa escrita: pouco expressiva depois do início e durante o ano seguinte, mas crescente a partir de 2014. Uma análise mais fina "mostra que a Imprensa regional parece interessar-se mais pelo fenómeno do ‘assédio de rua’ do que a nacional", por efeito de debates sobre o tema ou mesmo a constituição de associações com o objectivo de sensibilizar para este tipo de assédio  - como a Stop harcèlement de rue

A autora comenta também o progressivo desaparecimento das aspas na apresentação da expressão, que é indicativo "para predizer se um neologismo será solúvel na cultura de um país". O primeiro artigo de Le Figaro, acima mencionado, já fazia eco de um debate entre os utentes do Twitter, opondo pessoas que davam testemunho de situações que tinham a ver com ‘assédio de rua’ a outras "que minimizavam ou negavam o fenómeno". 

A consagração de um neologismo é a sua entrada no dicionário. Em 2015, três anos depois do início da sua difusão, a expressão integra Le Petit Robert, com a seguinte definição: "Acto de abordar alguém com insistência, ou de lhe fazer assédio verbal num espaço público."


O artigo original, na íntegra, no Acrimed, com imagem do twitter StopHarcèlementDeRue

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral
O Presidente da República voltou a falar na necessidade de o Estado tomar medidas de apoio à comunicação social. Marcelo Rebelo de Sousa discursava na apresentação de um programa do “Público” para dar a estudantes universitários acesso gratuito a assinaturas daquele jornal, com o apoio de entidades privadas que pagam metade dos custos envolvidos. O Presidente entende, e bem, que o Estado tem responsabilidades neste campo e...
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