Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Media

Crítica de uma auto-crítica mediática como tema de reflexão

Estamos a fazer auto-crítica, ou auto-flagelação, ou auto-justificação? A surpresa e o escândalo perante resultados que não confirmaram as previsões deixaram em crise a auto-imagem de muitos dos seus intérpretes: os jornalistas em primeiro lugar, os especialistas em sondagens, os comentadores e os politólogos, e os próprios políticos, naturalmente. Esses resultados mais visíveis são o referendo do Brexit, a eleição de Donald Trump e, em França, a qualificação de Fillon nas “primárias” da direita. Matéria suficiente para uma crítica da auto-crítica, tema de uma reflexão de fundo assinada por Julien Salingue, co-animador do Observatório dos Media Acrimed.

Este ensaio, que constitui o texto de introdução do dossier “Auto-crítica mediática”, publicado na revista Médiacritique(s), faz o percurso penoso do caminho seguido por aquilo que o autor descreve como “uma sequência intensiva de auto-crítica” ou, pelo menos, “de aparente auto-crítica dos media feita dentro dos media”. O retrato que faz é abundante em exemplos citados e pouco brando na ironia. 

Sobre as sondagens, os exemplos recolhidos falam de uma Imprensa “obnubilada pela pretensão absurda de prever o futuro” e das mesmas sondagens como uma “droga dura”, de que seriam dependentes, em primeiro lugar, os políticos e os jornalistas. Mas também são mencionados os que as defendem, desde que “afinem permanentemente os seus dispositivos de inquérito” face à natureza “cada vez mais flutuante e volátil” do eleitorado. 

Outro tema é o da “desconexão” entre a Imprensa e as classes populares. É citado um texto do New York Times, em que Nicholas Kristof admite que “nós, os media tradicionais, estamos desconectados da classe trabalhadora americana; passamos demasiado tempo a discutir com senadores, e não o suficiente a ir ao encontro dos metalúrgicos no desemprego”. 

Deste ponto chega-se depressa a um terreno em que os próprios jornalistas se batem em defesa do seu ofício. É citado o editorialista Thomas Legrand, que rejeita a crítica de que é “a Imprensa que não compreende o povo, só porque se empenha em desconstruir o mundo simplista e binário proposto pelos demagogos”.


Mas outro texto, publicado no Charlie Hebdo, responde:

“Não é que os jornalistas não tenham feito o seu trabalho, é que esse trabalho não conseguiu convencer senão os que já estavam convencidos. A última notícia má é que não são os jornalistas que estão cortados do mundo, mas o mundo que se cortou dos jornalistas.” 

Neste ponto, Julien Salingue ironiza: “Os jornalistas não teriam, então, o povo que merecem!”... 

O seu ensaio recolhe outras citações, que põem em causa outros meios de salvação, como o “regresso ao terreno”, a verificação de factos, a recusa das “bolhas mediáticas” das redes sociais, chegando a um artigo que contesta: “Não há bolha nenhuma. E também não há imparcialidade jornalística, que ficaria acima da subjectividade das redes sociais.” (...) 

A crítica chega então à “editocracia” dos editorialistas, “persuadidos de serem os iluminadores do povo”, e à auto-justificação dos media tradicionais. 

Julien Salingue propõe, finalmente, uma crítica mais "radical", como a que se pratica no Acrimed, e que avalie as raízes dos problemas: “a overdose de sondagens e sondologia, o primado do jornalismo de comentário em detrimento do jornalismo de investigação, a ausência flagrante de pluralismo com uma ‘editocracia’ que partilha entre si o essencial das emissões ou das páginas de ‘debate’, as lógicas de concorrência ou de medição de audiências que favorecem a produção de uma informação low-cost e a sua ‘circulação circular’”...


O texto original, na íntegra, no Acrimed

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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