Quarta-feira, 8 de Abril, 2020
Media

Crítica de uma auto-crítica mediática como tema de reflexão

Estamos a fazer auto-crítica, ou auto-flagelação, ou auto-justificação? A surpresa e o escândalo perante resultados que não confirmaram as previsões deixaram em crise a auto-imagem de muitos dos seus intérpretes: os jornalistas em primeiro lugar, os especialistas em sondagens, os comentadores e os politólogos, e os próprios políticos, naturalmente. Esses resultados mais visíveis são o referendo do Brexit, a eleição de Donald Trump e, em França, a qualificação de Fillon nas “primárias” da direita. Matéria suficiente para uma crítica da auto-crítica, tema de uma reflexão de fundo assinada por Julien Salingue, co-animador do Observatório dos Media Acrimed.

Este ensaio, que constitui o texto de introdução do dossier “Auto-crítica mediática”, publicado na revista Médiacritique(s), faz o percurso penoso do caminho seguido por aquilo que o autor descreve como “uma sequência intensiva de auto-crítica” ou, pelo menos, “de aparente auto-crítica dos media feita dentro dos media”. O retrato que faz é abundante em exemplos citados e pouco brando na ironia. 

Sobre as sondagens, os exemplos recolhidos falam de uma Imprensa “obnubilada pela pretensão absurda de prever o futuro” e das mesmas sondagens como uma “droga dura”, de que seriam dependentes, em primeiro lugar, os políticos e os jornalistas. Mas também são mencionados os que as defendem, desde que “afinem permanentemente os seus dispositivos de inquérito” face à natureza “cada vez mais flutuante e volátil” do eleitorado. 

Outro tema é o da “desconexão” entre a Imprensa e as classes populares. É citado um texto do New York Times, em que Nicholas Kristof admite que “nós, os media tradicionais, estamos desconectados da classe trabalhadora americana; passamos demasiado tempo a discutir com senadores, e não o suficiente a ir ao encontro dos metalúrgicos no desemprego”. 

Deste ponto chega-se depressa a um terreno em que os próprios jornalistas se batem em defesa do seu ofício. É citado o editorialista Thomas Legrand, que rejeita a crítica de que é “a Imprensa que não compreende o povo, só porque se empenha em desconstruir o mundo simplista e binário proposto pelos demagogos”.


Mas outro texto, publicado no Charlie Hebdo, responde:

“Não é que os jornalistas não tenham feito o seu trabalho, é que esse trabalho não conseguiu convencer senão os que já estavam convencidos. A última notícia má é que não são os jornalistas que estão cortados do mundo, mas o mundo que se cortou dos jornalistas.” 

Neste ponto, Julien Salingue ironiza: “Os jornalistas não teriam, então, o povo que merecem!”... 

O seu ensaio recolhe outras citações, que põem em causa outros meios de salvação, como o “regresso ao terreno”, a verificação de factos, a recusa das “bolhas mediáticas” das redes sociais, chegando a um artigo que contesta: “Não há bolha nenhuma. E também não há imparcialidade jornalística, que ficaria acima da subjectividade das redes sociais.” (...) 

A crítica chega então à “editocracia” dos editorialistas, “persuadidos de serem os iluminadores do povo”, e à auto-justificação dos media tradicionais. 

Julien Salingue propõe, finalmente, uma crítica mais "radical", como a que se pratica no Acrimed, e que avalie as raízes dos problemas: “a overdose de sondagens e sondologia, o primado do jornalismo de comentário em detrimento do jornalismo de investigação, a ausência flagrante de pluralismo com uma ‘editocracia’ que partilha entre si o essencial das emissões ou das páginas de ‘debate’, as lógicas de concorrência ou de medição de audiências que favorecem a produção de uma informação low-cost e a sua ‘circulação circular’”...


O texto original, na íntegra, no Acrimed

Connosco
Editores descontentes com projecto de apoio aos jornais "à medida das televisões" Ver galeria

Na sequência de apelos de várias empresas mediáticas, o Governo está, finalmente, a preparar um conjunto de medidas de apoio aos “media”, gravemente afectados pela crise instalada no país, na sequência da pandemia de Covid-19. 

Tudo indica, contudo, que o pacote destinado a compensar a quebra de receitas de circulação e publicidade não irá ao encontro das necessidades dos editores de jornais e revistas nem, tão pouco, de quem as distribui.

Isto porque as medidas que o Governo está a preparar terão como base a quebra de receitas da publicidade, omitindo, porém, o valor perdido com a diminuição abrupta na circulação, problema que não afecta as televisões.
"O pacote, como está neste momento, é feito à medida das televisões, porque não tem em conta os jornais e revistas, os meios mais prejudicados com a crise de saúde e económica que estamos a viver", explicou Afonso Camões, administrador do Grupo Global Media. "Sem imprensa escrita, é ,em primeira e última análise, o direito à informação, o Estado de direito e a Democracia que ficam em causa".

Perseguição à imprensa gera divisão ideológica no Brasil Ver galeria

Apesar dos esforços dos “media” para alcançar um consenso perante a pandemia do coronavírus, o discurso do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem contribuído para a polarização ideológica dos cidadãos, referiu Francisco Fernandes Ladeira, num artigo publicado no Observatório da Imprensa.

Isto porque, segundo Ladeira, Bolsonaro tem contrariado as directivas da imprensa para a contenção do coronavírus, apontadas pela OMS e pelo próprio ministério da Saúde brasileiro, acusando os “media” de disseminarem o pânico, deliberadamente, e sem fundamento.
Até meados do mês de Março, com a divulgação dos primeiros casos de covid-19 no Brasil, havia um relativo consenso entre a população sobre a quarentena transversal ser a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus.
Porém, devido aos discursos “inflamados” do Presidente os “media” têm sido descredibilizados. Essas premissas incentivaram, mesmo, aviolência sob jornalistas, que têm encontrado cada vez mais obstáculos ao exercício da profissão.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


ver mais >
Opinião
Com a crise do coronavirus, os sinos começaram a “tocar a rebate” pela Imprensa que, em Portugal, já se defrontava com uma situação precária, devido à quebra continuada de vendas e de receitas publicitárias. Os anunciantes começaram por migrar para as televisões, com uma política de preços em jeito de “saldo de fim de estação”, e mais tarde para a Internet, seduzidos pelas ...
O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
Em toda a parte, ou quase, a pandemia causada pelo coronavírus fechou em casa muitos milhões de pessoas, para evitarem ser contaminadas. Um dos efeitos desse confinamento foi terem aumentado as audiências de televisão. Por outro lado, as pessoas precisam de informação, por isso o estado de emergência em Portugal mantém abertos os quiosques, que vendem jornais.   Melhores tempos para a comunicação social? Nem por isso,...
No Brasil uma empresa de mídia afixou uma campanha, de grande formato, com uma legenda: “Eu tô aqui porque sou um outdoor. E você, tá fazendo o quê na rua?”. Este é o melhor exemplo que vi nos últimos dias sobre a necessidade de manter a comunicação e reforçar as mensagens. Em Portugal e no estrangeiro sucedem-se adiamentos e cancelamentos de campanhas. Mas há também marcas que resolveram até...
Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun