Sábado, 1 de Outubro, 2022
Media

Crítica de uma auto-crítica mediática como tema de reflexão

Estamos a fazer auto-crítica, ou auto-flagelação, ou auto-justificação? A surpresa e o escândalo perante resultados que não confirmaram as previsões deixaram em crise a auto-imagem de muitos dos seus intérpretes: os jornalistas em primeiro lugar, os especialistas em sondagens, os comentadores e os politólogos, e os próprios políticos, naturalmente. Esses resultados mais visíveis são o referendo do Brexit, a eleição de Donald Trump e, em França, a qualificação de Fillon nas “primárias” da direita. Matéria suficiente para uma crítica da auto-crítica, tema de uma reflexão de fundo assinada por Julien Salingue, co-animador do Observatório dos Media Acrimed.

Este ensaio, que constitui o texto de introdução do dossier “Auto-crítica mediática”, publicado na revista Médiacritique(s), faz o percurso penoso do caminho seguido por aquilo que o autor descreve como “uma sequência intensiva de auto-crítica” ou, pelo menos, “de aparente auto-crítica dos media feita dentro dos media”. O retrato que faz é abundante em exemplos citados e pouco brando na ironia. 

Sobre as sondagens, os exemplos recolhidos falam de uma Imprensa “obnubilada pela pretensão absurda de prever o futuro” e das mesmas sondagens como uma “droga dura”, de que seriam dependentes, em primeiro lugar, os políticos e os jornalistas. Mas também são mencionados os que as defendem, desde que “afinem permanentemente os seus dispositivos de inquérito” face à natureza “cada vez mais flutuante e volátil” do eleitorado. 

Outro tema é o da “desconexão” entre a Imprensa e as classes populares. É citado um texto do New York Times, em que Nicholas Kristof admite que “nós, os media tradicionais, estamos desconectados da classe trabalhadora americana; passamos demasiado tempo a discutir com senadores, e não o suficiente a ir ao encontro dos metalúrgicos no desemprego”. 

Deste ponto chega-se depressa a um terreno em que os próprios jornalistas se batem em defesa do seu ofício. É citado o editorialista Thomas Legrand, que rejeita a crítica de que é “a Imprensa que não compreende o povo, só porque se empenha em desconstruir o mundo simplista e binário proposto pelos demagogos”.


Mas outro texto, publicado no Charlie Hebdo, responde:

“Não é que os jornalistas não tenham feito o seu trabalho, é que esse trabalho não conseguiu convencer senão os que já estavam convencidos. A última notícia má é que não são os jornalistas que estão cortados do mundo, mas o mundo que se cortou dos jornalistas.” 

Neste ponto, Julien Salingue ironiza: “Os jornalistas não teriam, então, o povo que merecem!”... 

O seu ensaio recolhe outras citações, que põem em causa outros meios de salvação, como o “regresso ao terreno”, a verificação de factos, a recusa das “bolhas mediáticas” das redes sociais, chegando a um artigo que contesta: “Não há bolha nenhuma. E também não há imparcialidade jornalística, que ficaria acima da subjectividade das redes sociais.” (...) 

A crítica chega então à “editocracia” dos editorialistas, “persuadidos de serem os iluminadores do povo”, e à auto-justificação dos media tradicionais. 

Julien Salingue propõe, finalmente, uma crítica mais "radical", como a que se pratica no Acrimed, e que avalie as raízes dos problemas: “a overdose de sondagens e sondologia, o primado do jornalismo de comentário em detrimento do jornalismo de investigação, a ausência flagrante de pluralismo com uma ‘editocracia’ que partilha entre si o essencial das emissões ou das páginas de ‘debate’, as lógicas de concorrência ou de medição de audiências que favorecem a produção de uma informação low-cost e a sua ‘circulação circular’”...


O texto original, na íntegra, no Acrimed

Connosco
Gazeta Wyborcza da Polónia recebe prémio da liberdade de imprensa Ver galeria

A Gazeta Wyborcza e a Fundação Gazeta Wyborcza, da Polónia, receberam, no World News Media Congress 2022, das mãos do Rei Felipe VI, o prémio da liberdade de imprensa da Associação Mundial de Editores Noticiosos (WAN-IFRA).

Para a WAN-IFRA, o prémio reconheceu “um meio que se apresenta como um farol de independência e um baluarte contra o autoritarismo”, além se ser “um jornal de referência que demonstra os seus valores diariamente, através das suas páginas, apoiando jovens jornalistas, na promoção de notícias locais e trabalhando através das fronteiras em solidariedade com colegas necessitados”.

Estes são valores que, para a Associação, representam o que se defende para os media a nível mundial, e que demonstram a importância de continuar a defender uma imprensa livre, para além da demonstração de solidariedade.

A Gazeta Wyborcza criou, em 2019, a Fundação A Gazeta Wyborcza, de forma a salvaguardar o futuro da publicação e a fortalecer o jornalismo de qualidade na Polónia. Os seus projectos denunciaram já organizações neofascistas, combateram a desinformação, a polarização, entre outras questões que marcaram a actualidade.

Tendo em conta a deterioração da democracia polaca, que se encontra em 64º lugar no “Ranking de Liberdade de Imprensa” dos Repórteres Sem Fronteiras, “o compromisso cívico é mais necessário do que nunca”, conforme referiu Joanna Krawczyk, directora da Gazeta Wyborcza e presidente do Conselho da Fundação.

Organizações preocupadas com “Lei Classificada” em Espanha propõem reformulação Ver galeria

As organizações Hay Derecho, Más Democracia, Access Info e Transparencia Internacional España emitiram um comunicado conjunto, no Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, acerca do Segredo de Estado.

Alegam, designadamente, que o Projecto de Lei sobre a Lei Classificada não garante um equilíbrio entre a classificação da informação e o direito à liberdade de informação, responsabilidade e transparência.

A lei “não pode permitir, em nome de uma alegada segurança nacional, potenciais violações dos direitos humanos, quanto mais crimes contra a humanidade”, realçaram. Além disso, admitiram uma “reserva temporária”, mas acreditam que a “transparência deve prevalecer no final desse tempo legalmente estabelecido”.

As principais preocupações para com o Projecto de Lei apresentado pelo Governo espanhol devem-se a questões como a motivação para a classificação, a legitimação de quem classifica, os direitos fundamentais, os prazos para desclassificar a informação, a legitimação para recorrer das decisões e o incumprimento do próprio processo.

Para as organizações, é preciso que seja justificada e pertinente a classificação de uma informação como “Segredo de Estado”, já que há tópicos assim classificados que em nada têm a ver com a segurança nacional. Também, o facto de existirem diversos cargos políticos aos quais se dá o direito de classificar uma informação como tal, revelou-se um problema.

Além de ter de assegurar o respeito pelos direitos fundamentais no âmbito da liberdade à informação, as associações consideraram que o Projecto de Lei deveria clarificar os prazos para desclassificar a informação como “secreta”, já que existe informação há mais de 50 anos nesta condição.

O Clube


Lançado em novembro de 2016, este site do Clube Português de Imprensa tem mantido, desde então, uma actividade regular, com actualizações diárias, quer sobre iniciativas próprias da Associação, quer sobre a actualidade relacionada com os media portugueses e internacionais.

O site tem sido, ainda, um fórum de debate e de reflexão sobre as questões que se colocam ao jornalismo e aos jornalistas, reunindo a opinião de vários colunistas e textos editados por instituições com as quais celebrámos parcerias, desde o Observatório de Imprensa do Brasil à Asociacion de la Prensa de Madrid ou ao jornal “A Tribuna” de Macau.

Em seis anos de presença online constante, com um crescimento assinalável de visitantes, é natural que o site deva corresponder a essa procura, reinventando-se e procedendo a uma actualização tecnológica.

Pela sua natureza, essa modernização conceptual implicará algumas modificações na frequência e rotatividade de conteúdos, já a partir de outubro. É uma transição necessária.

Continuamos a contar com o interesse e adesão dos associados, além dos muitos milhares de frequentadores deste site, que constituem um valioso incentivo para quem contribui, sem outras ambições nem dependências, para um suporte digital que é um dos principais “cartões de visita” do Clube Português de Imprensa, fundado em 1980.  

 

A Direcção


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