Sábado, 26 de Setembro, 2020
Media

Plataformas digitais transformam os conteúdos e o jornalismo em meros brindes

Quando as empresas prestadoras de serviços acabam por se tornar proprietárias dos seus clientes, e quando ocupam o seu espaço até fazerem deles seus “inquilinos”, ainda podemos dizer que o negócio foi de interesse recíproco? E se estivermos a falar da relação entre os jornais e as plataformas de distribuição? Esta reflexão é o tema de um longo estudo fazendo o ponto de situação deste conflito de interesses, que conduz a uma “servidão voluntária” da Imprensa, a troco da miragem de uma audiência ilusória.

O estudo, publicado no Acrimed, começa por chamar a atenção para o facto, “público mas pouco conhecido”, de que Jeff Bezos, fundador da Amazon, é, desde Outubro de 2013, também o proprietário do jornal norte-americano The Washington Post. E que esta “aquisição de um jornal por um oligarca do digital ilustra uma tendência actual: que, desde há uns anos, actores como Google, Apple, Facebook e Amazon (chamados os GAFA) estão a investir em força, directa ou indirectamente, na Imprensa”. 

Depois, outra diferença, muito recente: até há uns meses, a utilização das redes sociais pelos jornais franceses funcionava como uma retransmissão dos seus artigos pelo Facebook, Twitter e outras menos conhecidas; o leitor encontrava a referência ao artigo e, quando fazia clic, era reenviado para o site correspondente. 

Agora, as mesmas redes tornaram-se espaços de publicação, onde os jornais colocam directamente os seus “conteúdos”. O “isco” era a promessa de conquistarem novas audiências, mas neste processo os jornais abdicaram, no fundo, da propriedade do seu produto. O Facebook, como a Google e o Snaptchat, “são soberanos nos seus espaços” e é a Imprensa que “fica dependente das condições que lhe são impostas”. Onde está a garantia, por exemplo, de que o leitor que encontra artigos de Le Monde no Snapchat continuará a ir ao site próprio do diário? 

Bem documentado, e incidindo, naturalmente, no caso francês, o estudo de Benjamin Lagues descreve um momento em que vários editores europeus tentaram travar a Google mas acabaram por ser derrotados e forçados a recuar, na Espanha, na Alemanha e na Bélgica. 

Em França, as empresas que fornecem o acesso à Internet estão a tornar-se, também, as proprietárias de jornais  -  “como a Free, por intermédio do seu director Xavier Niel, que detém, com Bergé e Pigasse, o grupo Le Monde (incluindo L’Obs, Télérama, Courrier International) e a SFR, por intermédio de Patrick Drahi, que detém o grupo L’Express e o título Libération”. 

O autor conclui:

“A falta de reacção dos governantes perante as práticas dos actores do digital já não é surpresa. Caminho andado, o jornalismo tornou-se, para estes gigantes, o que era antes a cafeteira ou o rádio-despertador de cabeceira oferecido pela Télérama: um simples brinde.”

 

O artigo original, na íntegra, no site Acrimed

Connosco
“Media” franceses publicam carta de apoio ao “Charlie Hebdo” Ver galeria

Cerca de uma centena de “media” franceses publicaram uma carta aberta de apoio à revista “Charlie Hebdo”, em resposta a um apelo do director da publicação, Riss. Aliás, as antigas instalações da revista voltaram a testemunhar a violência: em 25 de Setembro, quatro pessoas ficaram feridas, naquele local, noutro ataque desta vez com arma branca.

Em declarações à agência de notícias France-Presse, Riss afirmou que a revista satírica francesa tinha sido “mais uma vez ameaçada por organizações terroristas”, em pleno julgamento dos atentados de Janeiro de 2015, visando, igualmente, “todos os meios de comunicação e, mesmo, o Presidente”.

“Achámos necessário sugerir aos ‘media’ que pensassem na resposta colectiva que merecia ser dada a esta situação”, explicou.

Na carta aberta, intitulada “Juntos, vamos defender a liberdade”, os órgãos de comunicação social apelaram, então,  à defesa da imprensa.  “Hoje, em 2020, alguns de vós estão a receber ameaças de morte nas redes sociais quando expõem opiniões. Os meios de comunicação social são, abertamente, visados por organizações terroristas internacionais. Os Estados exercem pressões sobre os jornalistas franceses [considerados] ‘culpados’ de publicarem artigos críticos”, pode ler-se no documento.


Liberdade de imprensa em Hong Kong continua a deteriorar-se Ver galeria

As autoridades de Hong Kong estão a apertar  as restrições à liberdade de imprensa, tendo anunciado que vão deixar de aceitar determinadas acreditações jornalísticas.

Assim, só serão aceites acreditações fornecidas por organizações noticiosas registadas no sistema de informação governamental. Desta forma, as centenas de  jornalistas membros daHong Kong Journalists Association (HKJA) e da Hong Kong Press Photographers Association (HKPPA) não poderão comparecer a conferências de imprensa. 

Entretanto, a  HKJA, a HKPPA, e cinco outros sindicatos, exigiram que a nova política fosse retirada. "A emenda permite às autoridades decidirem quem é considerado repórter, o que altera, fundamentalmente, o sistema existente em Hong Kong.  (...) Isto condicionará, gravemente, a liberdade de imprensa, conduzindo a cidade a um regime autoritário".

Numa carta remetida ao Hong Kong Foreign Correspondents Club , um superintendente da polícia, Kwok Ka-chuen,  tentou justificar a aplicação da emenda, afirmando que as manifestações da região semi-autónoma "atraem, frequentemente centenas de repórteres, que participam em protestos, e que agridem a polícia”.  "Isto sobrecarrega a aplicação da lei”.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo