Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

Plataformas digitais transformam os conteúdos e o jornalismo em meros brindes

Quando as empresas prestadoras de serviços acabam por se tornar proprietárias dos seus clientes, e quando ocupam o seu espaço até fazerem deles seus “inquilinos”, ainda podemos dizer que o negócio foi de interesse recíproco? E se estivermos a falar da relação entre os jornais e as plataformas de distribuição? Esta reflexão é o tema de um longo estudo fazendo o ponto de situação deste conflito de interesses, que conduz a uma “servidão voluntária” da Imprensa, a troco da miragem de uma audiência ilusória.

O estudo, publicado no Acrimed, começa por chamar a atenção para o facto, “público mas pouco conhecido”, de que Jeff Bezos, fundador da Amazon, é, desde Outubro de 2013, também o proprietário do jornal norte-americano The Washington Post. E que esta “aquisição de um jornal por um oligarca do digital ilustra uma tendência actual: que, desde há uns anos, actores como Google, Apple, Facebook e Amazon (chamados os GAFA) estão a investir em força, directa ou indirectamente, na Imprensa”. 

Depois, outra diferença, muito recente: até há uns meses, a utilização das redes sociais pelos jornais franceses funcionava como uma retransmissão dos seus artigos pelo Facebook, Twitter e outras menos conhecidas; o leitor encontrava a referência ao artigo e, quando fazia clic, era reenviado para o site correspondente. 

Agora, as mesmas redes tornaram-se espaços de publicação, onde os jornais colocam directamente os seus “conteúdos”. O “isco” era a promessa de conquistarem novas audiências, mas neste processo os jornais abdicaram, no fundo, da propriedade do seu produto. O Facebook, como a Google e o Snaptchat, “são soberanos nos seus espaços” e é a Imprensa que “fica dependente das condições que lhe são impostas”. Onde está a garantia, por exemplo, de que o leitor que encontra artigos de Le Monde no Snapchat continuará a ir ao site próprio do diário? 

Bem documentado, e incidindo, naturalmente, no caso francês, o estudo de Benjamin Lagues descreve um momento em que vários editores europeus tentaram travar a Google mas acabaram por ser derrotados e forçados a recuar, na Espanha, na Alemanha e na Bélgica. 

Em França, as empresas que fornecem o acesso à Internet estão a tornar-se, também, as proprietárias de jornais  -  “como a Free, por intermédio do seu director Xavier Niel, que detém, com Bergé e Pigasse, o grupo Le Monde (incluindo L’Obs, Télérama, Courrier International) e a SFR, por intermédio de Patrick Drahi, que detém o grupo L’Express e o título Libération”. 

O autor conclui:

“A falta de reacção dos governantes perante as práticas dos actores do digital já não é surpresa. Caminho andado, o jornalismo tornou-se, para estes gigantes, o que era antes a cafeteira ou o rádio-despertador de cabeceira oferecido pela Télérama: um simples brinde.”

 

O artigo original, na íntegra, no site Acrimed

Connosco
Como a prometida liberdade em “rede social” nos trouxe à ditadura das notícias falsas Ver galeria

A história de como a Internet, depois de ter prometido dar voz e libertação a todos os marginalizados, desembocou na presente ditadura das fake news em “rede social”, é uma longa teia de ilusões aceitáveis e de equívocos pouco inocentes. O jornalista Marcelo Rech, presidente do Fórum Mundial de Editores, desfia esta narrativa num artigo extenso, mas de leitura indispensável. É melhor percebermos como chegámos até aqui. E, se pudermos, mantendo a atitude que ele escolheu como título  -  “Uma chance para o optimismo”.

Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Dois anos de notícias falsas, com duas plataformas chamadas à responsabilidade Ver galeria

A chamada “era de ouro das notícias falsas” não tem mais de dois anos, e está hoje bem documentada, pelo que vale a pena rever a sua história. É este o tema de um artigo do jornalista Nelson de Sá, da Folha de S. Paulo, que descreve o que se passou com o “duopólio” Google-Facebook  -  a sua inicial desvalorização do problema, as tentativas de auto-justificação, as primeiras medidas de controlo e o reconhecimento de que a estrutura de financiamento das grandes plataformas está edificada para premiar o que é “viral”, não o que é verdadeiro.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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