null, 24 de Março, 2019
Media

“Le Canard Enchaîné” - o “pato” a quem os ministros atendem o telefone

“Le Canard Enchaîné” é um pato realista. O famoso semanário satírico francês sabe que terá, um destes dias, de passar a ser digital, mas vai adiando até poder... E gaba-se disso. Assim como se gaba de ser independente de todos os poderes, incluindo o económico, porque não inclui publicidade. Não se incomoda de fazer jornalismo de investigação. Mas acautela o seu rigor e credibilidade. “Se telefonarmos a um ministro, por exemplo, ele responde.”

A passar um século de vida, com uma redacção de três dezenas de jornalistas e 400 mil exemplares em papel, vendidos todas as semanas, Le Canard Enchaîné é um exemplo de sobrevivência no meio de uma tempestade com muitas vítimas; por exemplo, embora tenha sofrido alguma queda nas vendas, continua a dar lucro  - cerca de três milhões de euros em 2015, sem aumentar o preço (1,20 euros) desde 1993. O editor-chefe, Érik Empatz, foi entrevistado pela Rádio Renascença e, sem querer dar lições aos outros, explica os segredos do sucesso:

 

“Desde o início que nunca tivemos publicidade. Não dependemos dos grandes grupos económicos, como foi acontecendo com outros jornais franceses que foram comprados. Penso que é isso que nos torna fortes.”

 E noutro ponto:

“Se tivéssemos apenas um conselho a deixar, seria este: a independência de um jornal começa na caixa registadora.Quero dizer com isto que devemos tentar ser o mais independentes possíveis em termos financeiros. A independência financeira dá uma força que agrada aos leitores.” 

Em relação às novas tecnologias, faz um reparo:

“Não cometemos um erro que muitos jornais em França  – e noutros países –  cometeram, quer sejam diários ou semanários. A maioria precipitou-se e foi a correr para a Internet. Passaram a disponibilizar os artigos de forma gratuita. E, depois, graças a esta ‘fórmula gratuita’, perderam uma boa parte dos seus leitores.” 

Mas é realista:

“Por enquanto, a Internet não está no topo das nossas prioridades porque as nossas vendas em papel ainda são muito boas. (...) Se, um dia, passarmos apenas a estar disponíveis na Internet, o que deverá acontecer no futuro  – provavelmente, num futuro muito próximo –, isso será também porque em França há uma diminuição muito acentuada dos pontos de venda. Existem cada vez menos quiosques, desapareceram muitos nos últimos anos. E isso é muito preocupante.” 

O outro “segredo” de Érik Empatz é defender o rigor do semanário, sobretudo em matéria de reportagem de investigação:

“Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história. Mas é o facto de não abdicarmos desse rigor, em detrimento da velocidade de publicação, que, no fim das contas, nos garante a reputação de sermos exactos e precisos nas investigações que levamos a cabo.” 


A entrevista à RR, na íntegra. Pesquisar no arquivo do CPI "Le Canard Enchaîné soma e segue cem anos depois"

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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