“Le Canard Enchaîné” é um pato realista. O famoso semanário satírico francês sabe que terá, um destes dias, de passar a ser digital, mas vai adiando até poder... E gaba-se disso. Assim como se gaba de ser independente de todos os poderes, incluindo o económico, porque não inclui publicidade. Não se incomoda de fazer jornalismo de investigação. Mas acautela o seu rigor e credibilidade. “Se telefonarmos a um ministro, por exemplo, ele responde.”
A passar um século de vida, com uma redacção de três dezenas de jornalistas e 400 mil exemplares em papel, vendidos todas as semanas, Le Canard Enchaîné é um exemplo de sobrevivência no meio de uma tempestade com muitas vítimas; por exemplo, embora tenha sofrido alguma queda nas vendas, continua a dar lucro - cerca de três milhões de euros em 2015, sem aumentar o preço (1,20 euros) desde 1993. O editor-chefe, Érik Empatz, foi entrevistado pela Rádio Renascença e, sem querer dar lições aos outros, explica os segredos do sucesso:
“Desde o início que nunca tivemos publicidade. Não dependemos dos grandes grupos económicos, como foi acontecendo com outros jornais franceses que foram comprados. Penso que é isso que nos torna fortes.”
E noutro ponto:
“Se tivéssemos apenas um conselho a deixar, seria este: a independência de um jornal começa na caixa registadora.Quero dizer com isto que devemos tentar ser o mais independentes possíveis em termos financeiros. A independência financeira dá uma força que agrada aos leitores.”
Em relação às novas tecnologias, faz um reparo:
“Não cometemos um erro que muitos jornais em França – e noutros países – cometeram, quer sejam diários ou semanários. A maioria precipitou-se e foi a correr para a Internet. Passaram a disponibilizar os artigos de forma gratuita. E, depois, graças a esta ‘fórmula gratuita’, perderam uma boa parte dos seus leitores.”
Mas é realista:
“Por enquanto, a Internet não está no topo das nossas prioridades porque as nossas vendas em papel ainda são muito boas. (...) Se, um dia, passarmos apenas a estar disponíveis na Internet, o que deverá acontecer no futuro – provavelmente, num futuro muito próximo –, isso será também porque em França há uma diminuição muito acentuada dos pontos de venda. Existem cada vez menos quiosques, desapareceram muitos nos últimos anos. E isso é muito preocupante.”
O outro “segredo” de Érik Empatz é defender o rigor do semanário, sobretudo em matéria de reportagem de investigação:
“Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história. Mas é o facto de não abdicarmos desse rigor, em detrimento da velocidade de publicação, que, no fim das contas, nos garante a reputação de sermos exactos e precisos nas investigações que levamos a cabo.”
A entrevista à RR, na íntegra. Pesquisar no arquivo do CPI "Le Canard Enchaîné soma e segue cem anos depois"
A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.
Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.
Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.
Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.
Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.
No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.
Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.
Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.
Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.
Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.
Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.
A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.
Faz cinco anos que começámos este site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.
O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária.
Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.
O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.
Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.