Segunda-feira, 20 de Janeiro, 2020
Media

O testemunho de um jornalista na reforma especializado em reportagem de investigação

Com quase 30 anos no estatuto de grande repórter, na área do jornalismo de investigação, José António Cerejo decidiu reformar-se. Os motivos por que o fez têm a ver com “os ritmos que o tempo presente impõe” e algumas dificuldades de relacionamento com as direcções, pelo teor do que propunha para publicação. “Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço.” Questões de ritmo e de rumo, portanto. O seu testemunho vem publicado no site do 4º Congresso dos Jornalistas, em entrevista realizada pelos estudantes de duas Universidades representadas no MediaLab criado para o efeito.

Houve mais motivos. Logo a seguir à referência aos ritmos de trabalho, que hoje em dia se tornam incompatíveis com a reportagem de investigação, José António Cerejo refere a diferença salarial entre si e os mais jovens: “eu próprio não me sentia bem a ter tempo para fazer as minhas coisas e ver os meus camaradas da redacção, sobretudo os mais novos, a ganharem misérias e a trabalharem loucamente a toda a hora”. (...) 

Mas o factor persistente voltava sempre, na forma de reparos ao trabalho apresentado “que, para mim, eram muitas vezes sentidos como formas de condicionamento”:

“Aconteceu-me muitas vezes, com todas as direcções que o Público teve, desde o princípio mas, sobretudo, nos últimos 15 anos de redacção. Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço. Tive fricções porque em determinadas matérias [as hierarquias] diziam que não estava suficientemente fundamentado, mas para mim estava.” (...) 

Este tema da relação entre os jornalistas e os órgãos dos vários poderes que se podem sentir visados na investigação acaba por dominar o texto da entrevista. José António Cerejo conclui com reparos a ambos os lados:

 

“É algo que, para mim, é muito mau no jornalismo português, que é a excessiva proximidade que os jornalistas têm com os poderes todos. As pessoas muitas vezes justificam esse tipo de aproximação com a necessidade de estar próximo de fontes de informação importantes. Eu percebo, mas não justifica que se vá além do necessário. Por exemplo, os políticos têm de dar a informação porque têm a obrigação institucional e constitucional. Os jornalistas não têm de andar sempre atrás deles para nos dizerem as coisas que, por obrigação legal, têm de ser ditas.” (...)

 

A entrevista, na íntegra, no site do Congresso dos Jornalistas, com texto de Carolina Branco e foto de Zita Moura

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral
O Presidente da República voltou a falar na necessidade de o Estado tomar medidas de apoio à comunicação social. Marcelo Rebelo de Sousa discursava na apresentação de um programa do “Público” para dar a estudantes universitários acesso gratuito a assinaturas daquele jornal, com o apoio de entidades privadas que pagam metade dos custos envolvidos. O Presidente entende, e bem, que o Estado tem responsabilidades neste campo e...
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