Sexta-feira, 10 de Julho, 2020
Media

O testemunho de um jornalista na reforma especializado em reportagem de investigação

Com quase 30 anos no estatuto de grande repórter, na área do jornalismo de investigação, José António Cerejo decidiu reformar-se. Os motivos por que o fez têm a ver com “os ritmos que o tempo presente impõe” e algumas dificuldades de relacionamento com as direcções, pelo teor do que propunha para publicação. “Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço.” Questões de ritmo e de rumo, portanto. O seu testemunho vem publicado no site do 4º Congresso dos Jornalistas, em entrevista realizada pelos estudantes de duas Universidades representadas no MediaLab criado para o efeito.

Houve mais motivos. Logo a seguir à referência aos ritmos de trabalho, que hoje em dia se tornam incompatíveis com a reportagem de investigação, José António Cerejo refere a diferença salarial entre si e os mais jovens: “eu próprio não me sentia bem a ter tempo para fazer as minhas coisas e ver os meus camaradas da redacção, sobretudo os mais novos, a ganharem misérias e a trabalharem loucamente a toda a hora”. (...) 

Mas o factor persistente voltava sempre, na forma de reparos ao trabalho apresentado “que, para mim, eram muitas vezes sentidos como formas de condicionamento”:

“Aconteceu-me muitas vezes, com todas as direcções que o Público teve, desde o princípio mas, sobretudo, nos últimos 15 anos de redacção. Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço. Tive fricções porque em determinadas matérias [as hierarquias] diziam que não estava suficientemente fundamentado, mas para mim estava.” (...) 

Este tema da relação entre os jornalistas e os órgãos dos vários poderes que se podem sentir visados na investigação acaba por dominar o texto da entrevista. José António Cerejo conclui com reparos a ambos os lados:

 

“É algo que, para mim, é muito mau no jornalismo português, que é a excessiva proximidade que os jornalistas têm com os poderes todos. As pessoas muitas vezes justificam esse tipo de aproximação com a necessidade de estar próximo de fontes de informação importantes. Eu percebo, mas não justifica que se vá além do necessário. Por exemplo, os políticos têm de dar a informação porque têm a obrigação institucional e constitucional. Os jornalistas não têm de andar sempre atrás deles para nos dizerem as coisas que, por obrigação legal, têm de ser ditas.” (...)

 

A entrevista, na íntegra, no site do Congresso dos Jornalistas, com texto de Carolina Branco e foto de Zita Moura

Connosco
Empresas de "fact-checking" empenhadas em travar "fake news" Ver galeria

As empresas de “fact-checking” continuam empenhadas em combater a desinformação sobre o novo coronavírus e em travar novas vagas de “fake news”.

Com este objectivo, a CoronaVirusFacts Alliance, que reúne dezenas de organizações de verificação de factos, aliou-se à academia, de forma a conseguir analisar as principais tendências da “infodemia”, bem como os seus efeitos na sociedade.

A aliança de “fact-checkers” seleccionou, então, os projectos das Universidades de Minas Gerais, Wisconsin-Madison, Dartmouth, MIT, e Texas, cada um com objectivos específicos.

O representante Universidade de Minas Gerais ficará responsável por catalogar os diferentes tipos de notícias falsas, para que seja mais fácil identificar padrões de desinformação.

Na Universidade de Wisconsin-Madison, as duas investigadoras seleccionadas vão estudar a utilidade dos infográficos no combate das “fake news” e as diferenças entre os “fact-checkers” de cada país.

Já no MIT, serão analisadas notícias facciosas divulgadas, através do Whatsapp, em países do sul asiático.



Jornalistas independentes em Hong Kong podem vir a ser expulsos Ver galeria

Os jornalistas estrangeiros radicados em Hong Kong podem vir a ser expulsos do território,  caso “cruzem a linha” ao reportarem pedidos pela independência da região, advertiu Charles Ho, membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

“Se um jornalista promover apelos pela independência de Hong Kong, é óbvio que será expulso”, afirmou Ho, que é, também, chefe do grupo de imprensa de Hong Kong Sing Tao News Corporation. “Hong Kong continuará a gozar de liberdade de expressão e os jornalistas ainda serão capazes de reportar sobre questões de independência, mas não deverão ser vistos como motivadores da causa”.

Recorde-se que a China aprovou, recentemente, a lei de segurança nacional de Hong Kong, visando punir “actos de secessão, subversão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras para pôr em risco a segurança nacional”.

O documento exige, ainda, que o governo de Hong Kong reforce a “orientação, supervisão e regulamentação” da imprensa local.

O documento foi aprovado na sequência repetidas advertências do poder comunista chinês contra a dissidência em Hong Kong, abalada em 2019 por sete meses de manifestações em defesa de reformas democráticas e quase sempre marcadas por confrontos com a polícia, que levaram à detenção de mais de nove mil pessoas.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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A internet e a liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague