Quinta-feira, 21 de Novembro, 2019
Media

O testemunho de um jornalista na reforma especializado em reportagem de investigação

Com quase 30 anos no estatuto de grande repórter, na área do jornalismo de investigação, José António Cerejo decidiu reformar-se. Os motivos por que o fez têm a ver com “os ritmos que o tempo presente impõe” e algumas dificuldades de relacionamento com as direcções, pelo teor do que propunha para publicação. “Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço.” Questões de ritmo e de rumo, portanto. O seu testemunho vem publicado no site do 4º Congresso dos Jornalistas, em entrevista realizada pelos estudantes de duas Universidades representadas no MediaLab criado para o efeito.

Houve mais motivos. Logo a seguir à referência aos ritmos de trabalho, que hoje em dia se tornam incompatíveis com a reportagem de investigação, José António Cerejo refere a diferença salarial entre si e os mais jovens: “eu próprio não me sentia bem a ter tempo para fazer as minhas coisas e ver os meus camaradas da redacção, sobretudo os mais novos, a ganharem misérias e a trabalharem loucamente a toda a hora”. (...) 

Mas o factor persistente voltava sempre, na forma de reparos ao trabalho apresentado “que, para mim, eram muitas vezes sentidos como formas de condicionamento”:

“Aconteceu-me muitas vezes, com todas as direcções que o Público teve, desde o princípio mas, sobretudo, nos últimos 15 anos de redacção. Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço. Tive fricções porque em determinadas matérias [as hierarquias] diziam que não estava suficientemente fundamentado, mas para mim estava.” (...) 

Este tema da relação entre os jornalistas e os órgãos dos vários poderes que se podem sentir visados na investigação acaba por dominar o texto da entrevista. José António Cerejo conclui com reparos a ambos os lados:

 

“É algo que, para mim, é muito mau no jornalismo português, que é a excessiva proximidade que os jornalistas têm com os poderes todos. As pessoas muitas vezes justificam esse tipo de aproximação com a necessidade de estar próximo de fontes de informação importantes. Eu percebo, mas não justifica que se vá além do necessário. Por exemplo, os políticos têm de dar a informação porque têm a obrigação institucional e constitucional. Os jornalistas não têm de andar sempre atrás deles para nos dizerem as coisas que, por obrigação legal, têm de ser ditas.” (...)

 

A entrevista, na íntegra, no site do Congresso dos Jornalistas, com texto de Carolina Branco e foto de Zita Moura

Connosco
O risco do jornalismo de dados produzir gráficos enganosos Ver galeria

As visualizações de dados podem ser enganosas. No seu novo livro, "How Charts Lie",Alberto Cairo, não poupa palavras para expor os perigos de visualizações de dados mal projectadas. 

O autor identifica cinco grandes categorias de desenhos de gráficos, que não são o que parecem à primeira vista, desde os que contêm dados insuficientes até aos que, deliberadamente, ocultam ou enganam o espectador. 

Os jornalistas podem proteger-se de serem "enganados" pelos gráficos, aceitando que são tão vulneráveis quanto o público em geral.

Cairo descreve os gráficos como argumentos feitos visualmente, que precisam de ser avaliados e verificados com o mesmo cuidado que qualquer outro dado ao qual recorremos para escrever uma história. 

O número crescente de ferramentas de visualização de dados gratuitas e de baixo custo, como Datawrapper e Flourish, tornaram as histórias baseadas em dados acessíveis, até mesmo às pequenas redacções.

"Pensamos no New York Times como o padrão ouro da visualização de dados, mas, na Flórida, o Tampa Bay Times tem apenas duas ou três pessoas a realizar esse tipo de trabalho e estão a fazer peças vencedoras do Pulitzer", explica o autor. 

O artigo de Corinne Podger, publicado no site do IJNet, analisa os riscos dos enganos do jornalismo de dados.

Jornalismo tecnológico requer soluções no mundo digital Ver galeria

A postura dos jornalistas em relação aos meios tecnológicos tem vindo a sofrer algumas alterações. 

Os jornalistas têm adoptado novamente uma atitude de “watchdog” em relação a Silicon Valley, tendo começado a produzir reportagens sobre negligência e outros problemas gerados por estas empresas. Começaram a debater questões sociais e técnicas, como o caso das campanhas de desinformação e os efeitos discriminatórios de algoritmos. 

Porém, é importante que os jornalistas não só ajudem a compreender os problemas tecnológicos, mas que identifiquem, também, as possíveis soluções e os efeitos positivos da tecnologia na sociedade. 

Os autores do texto, publicado no site Columbia Journalism Review, sugerem que seja adoptado um jornalismo de soluções como um movimento a seguir na cobertura de temas tecnológicos. Este género de jornalismo propõe realizar reportagens centradas nas respostas aos problemas sociais reportados, minimizando a ideia feita de que os jornalistas apenas estão presentes quando ocorrem escândalos. 

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
A “tabloidizacão” dos media portugueses parece imparável, com as televisões na dianteira, privadas e pública, sejam os canais generalistas ou temáticos. A obsessão pelos “casos” que puxem ao drama, ao pasmo ou à lágrima, tomou conta dos telejornais e da Imprensa. A frenética disputa das audiências nas TVs e a queda continuada das vendas nos jornais são, normalmente, apontadas...
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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