Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Media

O testemunho de um jornalista na reforma especializado em reportagem de investigação

Com quase 30 anos no estatuto de grande repórter, na área do jornalismo de investigação, José António Cerejo decidiu reformar-se. Os motivos por que o fez têm a ver com “os ritmos que o tempo presente impõe” e algumas dificuldades de relacionamento com as direcções, pelo teor do que propunha para publicação. “Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço.” Questões de ritmo e de rumo, portanto. O seu testemunho vem publicado no site do 4º Congresso dos Jornalistas, em entrevista realizada pelos estudantes de duas Universidades representadas no MediaLab criado para o efeito.

Houve mais motivos. Logo a seguir à referência aos ritmos de trabalho, que hoje em dia se tornam incompatíveis com a reportagem de investigação, José António Cerejo refere a diferença salarial entre si e os mais jovens: “eu próprio não me sentia bem a ter tempo para fazer as minhas coisas e ver os meus camaradas da redacção, sobretudo os mais novos, a ganharem misérias e a trabalharem loucamente a toda a hora”. (...) 

Mas o factor persistente voltava sempre, na forma de reparos ao trabalho apresentado “que, para mim, eram muitas vezes sentidos como formas de condicionamento”:

“Aconteceu-me muitas vezes, com todas as direcções que o Público teve, desde o princípio mas, sobretudo, nos últimos 15 anos de redacção. Muitas vezes tive que discutir demasiado coisas que para mim não justificavam a discussão e o cansaço. Tive fricções porque em determinadas matérias [as hierarquias] diziam que não estava suficientemente fundamentado, mas para mim estava.” (...) 

Este tema da relação entre os jornalistas e os órgãos dos vários poderes que se podem sentir visados na investigação acaba por dominar o texto da entrevista. José António Cerejo conclui com reparos a ambos os lados:

 

“É algo que, para mim, é muito mau no jornalismo português, que é a excessiva proximidade que os jornalistas têm com os poderes todos. As pessoas muitas vezes justificam esse tipo de aproximação com a necessidade de estar próximo de fontes de informação importantes. Eu percebo, mas não justifica que se vá além do necessário. Por exemplo, os políticos têm de dar a informação porque têm a obrigação institucional e constitucional. Os jornalistas não têm de andar sempre atrás deles para nos dizerem as coisas que, por obrigação legal, têm de ser ditas.” (...)

 

A entrevista, na íntegra, no site do Congresso dos Jornalistas, com texto de Carolina Branco e foto de Zita Moura

Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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