Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Jornal católico americano faz apelo à responsabilidade dos Media

O diário norte-americano National Catholic Reporter escolheu para tema do seu editorial de fim de ano a questão da falsidade e da necessidade de assumirmos o controlo daquilo que nos chega pelos visores “do crescente número de aparelhos que consultamos constantemente”. Depois de um balanço do que aconteceu na campanha eleitoral, da responsabilidade dos media e da Internet, e avaliando a dificuldade de fazer esse controlo sem cairmos na tentação da censura, o texto conclui: “A verdade pode ser complexa e, por vezes, difícil de encontrar. Mas não é falsa.”

O editorial faz um retrato sombrio do ambiente neste país “agora perigosamente dividido”:

“Uma campanha negativa chegou até níveis sem precedentes. Donald Trump é o Presidente-eleito porque foi desde o início um tão ofensivo fanfarrão e provocador que os padrões normais da decência política  - mesmo que sejam sempre forçados numa campanha presidencial -  foram incapazes de o conter ou de o submeter a qualquer grau de responsabilidade.”  (...) 

“Um segundo fanfarrão [bully, no original] entrou na arena política dos EUA com toda a força durante a campanha de 2016: a Internet, como transporte de mentiras indiferenciadas, exageros e notícias falsas. O ciberespaço, esse novo elemento da nossa experiência política, ameaça o equilíbrio da República para além do mandato de um único presidente. Se os factos já não importam, se aquilo que um candidato diz não importa, e se não se pode separar a ficção da realidade, então ficamos livres para nos entregarmos à fantasia, por muito cínica ou sinistra que seja.” (...) 

O único ponto positivo em tudo isto, segundo o editorial do NCR, é que “as pessoas estão talvez mais conscientes do que nunca de que a sociedade civil e as instituições democráticas são muito mais frágeis do que imaginavam. Fomos alertados para o facto de que a democracia está sob ameaça quando as diferenças de rendimento são enormes e a oportunidade para a mobilidade social se torna impossivelmente estreita para demasiadas pessoas.” 

O artigo dedica parte importante do seu desenvolvimento ao exame da responsabilidade dos próprios media, citando um estudo do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy, de Harvard, que aponta para o facto de os jornalistas terem passado anos a dizer à sua audiência “que os dirigentes políticos não são de confiança e que o governo é incapaz”; depois, quando tratam da sociedade, “focam-se nos problemas e não nas histórias de sucesso”. Cria-se então um fundo de “raiva pública, percepção equivocada e ansiedade”, que fica ao dispor de quem saiba dirigi-lo contra os governantes. 

Mais grave do que isso é a proliferação dos sites que se intitulam noticiosos, dos bloggers, geradores de notícias falsas e “agregadores” de todas as espécies, que tornam muito mais difícil qualquer esforço de auto-correcção. 

“O problema com os media, hoje, é que, com sites que precisam de preencher o seu tempo de antena 24 horas por dia, e com o lixo produzido no ‘éter’ tornado indistinguível, para os que não tenham capacidade de discernimento, do material com valor, ficamos em risco de ser submergidos por tudo o que é repugnante e desnecessário.” 

O apelo final é no sentido de nos educarmos a nós próprios a avaliar o que vemos e a determinar o que é de facto credível:

“A verdade pode ser complexa e, por vezes, difícil de encontrar. Mas não é falsa.”

 

 

O editorial na íntegra e, ainda em tempo, uma reportagem do NCR, do dia seguinte às eleições, com informação sobre o sentido do “voto religioso”  - dos eleitores pertencentes às maiores confissões nos EUA. Fotos do CNSCatholic News Service

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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