Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Os perigos das notícias falsas nos Media e nas redes sociais na era da “pós-verdade”

O conceito de “pós-verdade” é mais do que uma expressão que está na moda para designar a facilidade com que se pode mentir e multiplicar a mentira na era da comunicação instantânea, sem dar tempo a uma rectificação eficaz. O que demonstraram o Brexit e as recentes eleições presidenciais nos EUA é que, “tanto num caso como no outro foram plantadas conscientemente notícias falsas na comunicação social e nas redes sociais, que podem ter alterado o sentido de voto de milhões de eleitores em ambos os países”.

Outro exemplo grave vem a abrir o artigo que citamos do DN-Media: um activista italiano lançou um tweet apresentado como proveniente de António Guterres, afirmando que ele tinha o apoio do embaixador russo nas Nações Unidas. O próprio António Guterres não tinha, na sua candidatura, qualquer conta no Twitter, mas foi necessária uma vasta operação de contra-informação para repor a verdade, com pedido de desculpas ao embaixador e esclarecimentos dirigidos aos órgãos de comunicação.

O autor da façanha acabou por dizer que o fizera, como noutros casos, apenas para demonstrar como é fácil criar estas situações... 

Segundo João Céu e Silva, o autor do texto que citamos, “se nos meios de comunicação tradicionais o falso era detectado e repudiado, neste século em que hipercomunicação digital se torna o principal meio de promoção de ideias a nível global, verifica-se que a repetição continuada da inverdade pelo discurso político, mesmo que não tenha sustentabilidade ou seja desmascarado, se torna aceitável de tão repetido. Daí que se considere que a bolha informativa é tão gigantesca que acaba por descredibilizar a própria realidade”.

Por seu lado, para Felisbela Lopes, investigadora académica ouvida também no mesmo trabalho, não há um cansaço no consumo de informação por ser tão acessível actualmente, mas sim uma uniformização num "jornalismo online pouco atractivo porque vive muito pendurado nas notícias das agências ainda iguais para todos os meios. Muito do que existe nas redes são boatos e uma pseudo partilha democrática de conteúdos que se transforma numa não verdade, um acesso que é muito perigoso para os mais novos porque grande parte das novas gerações só tem acesso à informação pelas redes sociais".

Já para Marina Costa Lobo, investigadora doutorada em Ciência Política pela Universidade de Oxford, esta admite que a confiança na informação online ou tradicional não "se distingue pelo suporte, pois a qualidade de muitos órgãos online já é de confiança em Portugal". Considera que era mais fácil distinguir a qualidade da informação quando se "era capaz de a olho nu avaliar a qualidade de uma publicação". Não deixa de referir que "fazer um jornal em papel para publicar notícias falsas tinha um alto custo mas agora, em online, é muito baixo".

 

O artigo na íntegra, no DN-Media

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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