Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

A língua como ferramenta e oficina do bom e mau jornalismo

As línguas em que nos expressamos, partilhadas por milhões de pessoas, são sujeitas a uma evolução que vai incluindo muitas contribuições. O nosso ofício de jornalistas tornou-se uma das principais chaves nessa evolução e melhoramento da língua, mas também na sua deterioração. É nestes termos que começa um artigo do jornalista espanhol Arsenio Escolar, publicado na edição nº 32 de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor chama a atenção para os novos hábitos da linguagem utilizada em áreas especializadas do jornalismo, detendo-se nos casos do político e do desportivo. Algumas vezes trata-se da escolha de palavras “alargadas”, ou “inchadas”, para substituir os termos habituais correspondentes ao mesmo sentido. Outras vezes trata-se de neologismos, ou da tradução equívoca de termos de línguas estrangeiras. 

Os exemplos que cita são, naturalmente, da língua espanhola, mas não teremos dificuldade em reconhecê-los  - alguns são comuns às duas línguas -  e em perceber a provável intenção de quem os utiliza e em que contextos. 

Entre os exemplos do primeiro caso, Arsenio Escolar cita “intencionalidade” em vez de “intenção”, “casuística” em vez de “causa”, “metodologia” em vez de “método”, interrogando-se sobre o seu motivo: se foram políticos “de curta formação e largas ambições” que trouxeram esta moda, ou se terão sido os escritores, em geral também jornalistas, que redigiam os discursos e a argumentação aos mesmos políticos. 

No jornalismo desportivo foram divulgadas numerosas expressões mais ou menos pomposas, cujos exemplos espanhóis reconhecemos facilmente, e aos quais podíamos acrescentar os nossos próprios. O avançado que chega diante da baliza adversária e “não perdoa” (ou então “concretiza”…) é igual dos dois lados da fronteira. 

O autor encerra com o exemplo curioso do “paraíso fiscal”, muito usado depois das revelações dos Panama Papers. A expressão na língua inglesa, para designar um sítio onde se pagam menos impostos, ou nenhuns, é tax haven, que significa “porto”, ou “abrigo” de impostos; mas o que se divulgou, nas nossas línguas, foi tax Heaven, religiosamente entendido como “Paraíso fiscal”:

“Decerto que os potentados que lá escondiam o seu dinheiro deviam sentir-se no Paraíso… até que chegou a Imprensa e ficou com os papéis do Panamá.” 


O texto original, em Cuadernos de Periodistas

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Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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