Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Media

Jornalismo é uma profissão desejada por muitos mas marcada por incertezas e riscos

O que leva tantos jovens a desejarem o jornalismo? E o que os espera à saída do curso? Segundo o Relatório Anual da Profissão do Jornalismo em 2016, apresentado pela Asociación de la Prensa de Madrid, há 7.890 jornalistas registados em situação de desemprego, o que representa um aumento de 78% em relação a 2008, quando começou a grande crise. No entanto, as faculdades espanholas continuam a produzir 6.000 licenciados por ano  -  dez vezes mais do que o mercado consegue absorver.

Estes números, e a situação que descrevem, são reflectidos por Miguel Ormaetxea em artigo publicado na Media-tics, e o que ele conta é que o quadro real, visto de perto, é ainda pior. 

Mais de 55% dos jornalistas que trabalham têm uma jornada laboral de cerca de 45 horas semanais, e 40% dos que têm contrato ganham, ou menos de 600 euros, ou um máximo de 1.500 por mês. Entre os que trabalham de modo independente [autónomos, no relatório], 35% declaram que, ou não recebem nada, ou então alguma importância até um máximo de 1.000 euros por mês. 

“Se fizermos um cálculo sobre as 180 horas por mês da franja maioritária dos jornalistas que têm trabalho, podemos deduzir que recebem cerca de 5,5 euros por cada hora de trabalho  - mais ou menos metade do que cobram as empregadas de trabalho doméstico.” 

O texto de Miguel Ormaetxea incide sobretudo nas condições laborais, comparando a situação espanhola com a de outros países europeus, como a Alemanha e o Reino Unido, por exemplo, que também não é famosa: 

“Estes dados têm origem, em grande parte, na desastrosa situação dos meios de comunicação tradicionais. Basta um dado: segundo a Infoadex, os diários receberam, em 2007, um investimento publicitário de 2.027 milhões de euros. No ano passado esta importância reduziu-se a 658 milhões, e ainda não bateu no fundo.”  

“A difusão dos diários espanhóis, em 2007, estava em 4,3 milhões de exemplares, e agora está perto dos dois milhões de exemplares por dia, o que nos coloca no penúltimo lugar dentro da União Europeia.”

A última reflexão de autor é sobre os riscos de vida que o jornalismo implica cada vez mais, citando agora os números mais recentes de Repórteres sem Fronteiras  - que apresentamos noutro local deste site. Interroga-se Miguel Ormaetxea: “Por que será que os aspirantes a jornalistas continuam a encher as aulas?”

 

 

Mais informação no artigo citado, cuja imagem incluímos, e a reportagem da APM na apresentação do relatório, onde se explica também o modo de o obter

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...