Terça-feira, 29 de Setembro, 2020
Media

Trabalho precário e mal remunerado afecta o jornalismo praticado em Portugal

As condições em que trabalham hoje os jornalistas portugueses significam salários baixos e vínculo profissional precário. Implicam também um abandono precoce da profissão, decorrente desta mesma precariedade. São estas algumas das conclusões de um inquérito feito a 806 profissionais, de todo o País, por João Miranda, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, no âmbito de uma tese de doutoramento.

Segundo os resultados deste trabalho, realizado durante o ano passado e agora apresentado na Faculdade de Letras daquela Universidade, da qual João Miranda é docente e doutorando, um pouco mais de metade (56,3%) dos jornalistas declara receber 1000, ou menos, euros brutos por mês, o que significa “valores líquidos ainda mais baixos, que não incluem impostos nem descontos”.

Nos termos da notícia do Público online, que aqui citamos, “o grupo mais significativo é o dos que recebem entre 601 e 900 euros, com 22,1% dos inquiridos, e uma percentagem relevante (7,3%) que refere receber abaixo do que era o salário mínimo quando foi desenvolvido o inquérito”.

“Com melhores remunerações, há 19,1% que declaram receber entre 1001 e 1500 euros e 24,6% que indicam mais de 1500 euros brutos como rendimento mensal.” 

Apenas metade dos inquiridos trabalha sem ser em contratos a termo, estando 19,8% em regime de prestação de serviços (“recibos verdes”) e 5,2% também naquele regime, mas com avença mensal fixa. “O investigador sublinha que um cruzamento de dados permite concluir que, dos 19,8% que trabalham em prestação de serviços, 34,5% recebem um valor fixo apesar de não terem qualquer contrato de avença, sendo que 63,5% dependem do número de peças ou caracteres que produzem.” 

Quase um quarto dos jornalistas declara ser alvo de pressões da administração, no exercício do seu trabalho, e percentagem semelhante identifica pressões da direcção editorial. 

“Os resultados mostram ainda que é ‘aos mecanismos de auto-regulação que os jornalistas conferem maior importância’, avalia. Código deontológico, estatuto editorial, livro de estilo ou código de conduta e conselho de redacção são os mecanismos que os jornalistas consideram mais importantes. 93,1% concorda com a importância de mecanismos de autorregulação.”

 

Consultada sobre este estudo, a Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco, considerando “importante que a sociedade e a tutela tenham a noção que metade dos jornalistas em Portugal ganha menos de 1000 euros, situação que é grave, afirma que, num inquérito encomendado pelo Sindicato e que vai ser lançado no Congresso dos Jornalistas Portugueses, essa percentagem ainda é superior”.

Nesse estudo, feito pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia com o Sindicato dos Jornalistas e Obercom, com uma amostra de 1491 respostas, também é maior a percentagem de recibos verdes, bem como a dos que declaram sofrer pressões internas, da administração ou da direcção. 

A precarização da profissão é um dos pontos a ser debatido no Congresso de Jornalistas em Janeiro. “Há muitas questões que são semelhantes às 1998”, quando se realizou o último congresso, afirma Sofia Branco, nomeadamente de ordem ética e deontológica. Por outro lado, há uma “transformação tecnológica e de modelo de negócio significativa a colocar desafios importantes”.

 

Mais informação no Público online, de onde colhemos a imagem, de Daniel Rocha  

Connosco
Directora de Informação da BBC contra os "rufias das redes sociais" Ver galeria

A directora de Informação da BBC, Fran Unsworth, considera que os operadores públicos devem resistir à pressão exercida pelos grupos de interesse e noticiar de acordo com os seus próprios valores.

Durante a conferência anual da BBC, no Prix Italia, Unsworth considerou, ainda, que os serviços de informação têm a obrigação de ser plurais, já que os “revolucionários” não representam a voz de todos os cidadãos.

Dito isto, a directora de Informação deu o exemplo do “New York Times”, que pressionou a demissão da editora de opinião Bari Weiss, por esta não corresponder às expectativas dos utilizadores das redes sociais, lamentando o sucedida. 

“No meio do turbilhão, temos de continuar a pensar claramente. Temos de falar uns com os outros e não ceder à pressão dos ‘rufias das redes sociais’... Em última análise, são os editores que editam - não os grupos de interesse". Caso contrário, reiterou Unsworth, a democracia pode estar em risco.


“Media” franceses publicam carta de apoio ao “Charlie Hebdo” Ver galeria

Cerca de uma centena de “media” franceses publicaram uma carta aberta de apoio à revista “Charlie Hebdo”, em resposta a um apelo do director da publicação, Riss. Aliás, as antigas instalações da revista voltaram a testemunhar a violência: em 25 de Setembro, quatro pessoas ficaram feridas, naquele local, noutro ataque desta vez com arma branca.
O suspeito, um jovem paquistanês de 18 anos, que confessou a autoria do crime, confirmou que visava o "Charlie Hebdo", por este ter procedido à republicação dos "cartoons" sobre Maomé.

Em declarações à agência noticiosa France-Presse, Riss afirmou que a revista satírica francesa tinha sido, efectivamente,“mais uma vez ameaçada por organizações terroristas”, em pleno julgamento dos atentados de Janeiro de 2015, visando, igualmente, “todos os meios de comunicação e, mesmo, o Presidente”.

“Achámos necessário sugerir aos ‘media’ que pensassem na resposta colectiva que merecia ser dada a esta situação”, explicou.

Na carta aberta, intitulada “Juntos, vamos defender a liberdade”, os órgãos de comunicação social apelaram, então,  à defesa da imprensa.  “Hoje, em 2020, alguns de vós estão a receber ameaças de morte nas redes sociais quando expõem opiniões. Os meios de comunicação social são, abertamente, visados por organizações terroristas internacionais. Os Estados exercem pressões sobre os jornalistas franceses [considerados] ‘culpados’ de publicarem artigos críticos”, pode ler-se no documento.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
07
Out
A perspectiva feminina em falta sobre a Covid-19
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
14
Out
O que são os dados tendenciosos e como corrigi-los
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas