Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Trabalho precário e mal remunerado afecta o jornalismo praticado em Portugal

As condições em que trabalham hoje os jornalistas portugueses significam salários baixos e vínculo profissional precário. Implicam também um abandono precoce da profissão, decorrente desta mesma precariedade. São estas algumas das conclusões de um inquérito feito a 806 profissionais, de todo o País, por João Miranda, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, no âmbito de uma tese de doutoramento.

Segundo os resultados deste trabalho, realizado durante o ano passado e agora apresentado na Faculdade de Letras daquela Universidade, da qual João Miranda é docente e doutorando, um pouco mais de metade (56,3%) dos jornalistas declara receber 1000, ou menos, euros brutos por mês, o que significa “valores líquidos ainda mais baixos, que não incluem impostos nem descontos”.

Nos termos da notícia do Público online, que aqui citamos, “o grupo mais significativo é o dos que recebem entre 601 e 900 euros, com 22,1% dos inquiridos, e uma percentagem relevante (7,3%) que refere receber abaixo do que era o salário mínimo quando foi desenvolvido o inquérito”.

“Com melhores remunerações, há 19,1% que declaram receber entre 1001 e 1500 euros e 24,6% que indicam mais de 1500 euros brutos como rendimento mensal.” 

Apenas metade dos inquiridos trabalha sem ser em contratos a termo, estando 19,8% em regime de prestação de serviços (“recibos verdes”) e 5,2% também naquele regime, mas com avença mensal fixa. “O investigador sublinha que um cruzamento de dados permite concluir que, dos 19,8% que trabalham em prestação de serviços, 34,5% recebem um valor fixo apesar de não terem qualquer contrato de avença, sendo que 63,5% dependem do número de peças ou caracteres que produzem.” 

Quase um quarto dos jornalistas declara ser alvo de pressões da administração, no exercício do seu trabalho, e percentagem semelhante identifica pressões da direcção editorial. 

“Os resultados mostram ainda que é ‘aos mecanismos de auto-regulação que os jornalistas conferem maior importância’, avalia. Código deontológico, estatuto editorial, livro de estilo ou código de conduta e conselho de redacção são os mecanismos que os jornalistas consideram mais importantes. 93,1% concorda com a importância de mecanismos de autorregulação.”

 

Consultada sobre este estudo, a Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco, considerando “importante que a sociedade e a tutela tenham a noção que metade dos jornalistas em Portugal ganha menos de 1000 euros, situação que é grave, afirma que, num inquérito encomendado pelo Sindicato e que vai ser lançado no Congresso dos Jornalistas Portugueses, essa percentagem ainda é superior”.

Nesse estudo, feito pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia com o Sindicato dos Jornalistas e Obercom, com uma amostra de 1491 respostas, também é maior a percentagem de recibos verdes, bem como a dos que declaram sofrer pressões internas, da administração ou da direcção. 

A precarização da profissão é um dos pontos a ser debatido no Congresso de Jornalistas em Janeiro. “Há muitas questões que são semelhantes às 1998”, quando se realizou o último congresso, afirma Sofia Branco, nomeadamente de ordem ética e deontológica. Por outro lado, há uma “transformação tecnológica e de modelo de negócio significativa a colocar desafios importantes”.

 

Mais informação no Público online, de onde colhemos a imagem, de Daniel Rocha  

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


ver mais >
Opinião
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
Uma das coisas em que a informação sobre o mercado publicitário português peca é na análise das contas que são ganhas pelas agências de meios aqui em Portugal. Volta e meia vejo notícias do género a marca X decidiu atribuir a sua conta de publicidade em Portugal à agência Y. Quando se vai a ver, o que aconteceu é que a marca internacional X decidiu num qualquer escritório em Londres, Paris ou Berlim,...
Agenda
16
Set
16
Set
Ferramentas Google para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
19
Set
Local Media Fal(l) School
09:00 @ Covilhã
23
Set
Radio Broadcasters Convention of Southern Africa
09:00 @ Johannesburg, África do Sul