null, 17 de Novembro, 2019
Fórum

Contar a verdade apesar dos poderosos é um princípio fundamental do jornalismo

Na cerimónia de entrega do Prémio Hitchens, que distingue um jornalista ou autor cuja obra demonstre uma dedicação à liberdade de expressão e a constante procura da verdade, sem receio das consequências, Marty Baron, actual director editorial do Washington Post, definiu a missão do jornalismo como sendo a de exigir contas aos mais poderosos. O seu discurso de agradecimento vem publicado na Vanity Fair, da qual Hitchens foi colaborador, e na Global Investigative Journalism Network, como uma “mensagem aos jornalistas na era de Trump”.

O Prémio, criado pela Fundação Dennis & Victoria Ross em homenagem ao falecido escritor britânico Christopher Hitchens, é tão recente que o próprio homenageado neste ano admitiu que não tinha conhecimento dele. 

Marty Baron sublinhou as diferenças entre ele mesmo e Christopher Hitchens, mas citou, a seguir, a resposta que este dera quando lhe fora perguntado o que pensava da fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra o escritor Salman Rushdie. E a resposta era que se tratava de tudo o que detestava contra tudo o que amava. De um lado a ditadura, a religião, a estupidez, a demagogia, a censura, bullying e intimidação. Do outro lado, a literatura, a ironia, humor, o indivíduo e a defesa da liberdade de expressão, mais a amizade. 

É neste terreno dos valores, exceptuando a referência à religião  - que, sublinhou Marty Baron, ele próprio não odeia -  que se considera em comunhão com Christopher Hitchens:

“Os valores são o que mais importa. E esta é uma boa altura para falar deles. Uma boa altura para reafirmar aquilo por que nós, jornalistas, nos batemos.” 

Marty Baron referiu-se então ao Presidente que vai ser proximamente empossado, e que “foi eleito depois de ter conduzido um ataque directo contra a Imprensa; a animosidade contra os media era uma peça central da sua campanha”. Recordou que ele considerou os jornalistas “a mais baixa forma de humanidade”, e depois “a mais baixa forma de vida”. Recordou também que o jornal Washington Post teve as credenciais de acesso revogadas durante a campanha. 

“Muitos jornalistas  - disse depois -  interrogam-se com preocupação considerável como é que vai ser para nós nos próximos quatro, ou talvez oito anos. Vamos ser constantemente assediados e caluniados? O novo governo vai usar todas as oportunidades para tentar intimidar-nos? Vamos enfrentar obstruções em toda a parte?” 

Em última instância, afirmou, “a defesa da liberdade de Imprensa está no nosso trabalho diário”, e citou os princípios estabelecidos em 1933 pelo então novo proprietário do Washington Post, Eugene Meyer: “A primeira missão de um jornal é contar a verdade, tão exacta como essa verdade possa ser averiguada.” 

E foi a propósito da sua própria experiência enquanto editor do Boston Globe, cuja equipa de investigação Spotlight conduziu a famosa reportagem de denúncia da pedofilia e seu encobrimento entre o clero católico da região de Boston, que Marty Baron recordou uma pergunta que lhe era feita depois de o tema ser tratado em filme: como é que tinham procedido desse modo contra a mais poderosa instituição da Nova Inglaterra, e uma das mais poderosas do mundo, a Igreja Católica. Disse Marty Baron: 

“Essa pergunta realmente deixa-me perplexo, principalmente quando vem de jornalistas ou de quem deseja entrar na profissão. Porque exigir contas aos mais poderosos é aquilo que se espera que nós façamos. Se não fizermos isso, então qual é, exactamente, o propósito do jornalismo? Deus nos livre de nos metermos com as instituições ou os indivíduos mais fracos, deixando de fora os mais fortes, só porque podem ripostar com toda a força."

 

O discurso de Marty Baron, na íntegra, na Vanity Fair e na GIJN; imagem do Departamento de Jornalismo da Lehigh University

 

Connosco
Centro Báltico ensaia novos modelos para o jornalismo investigativo Ver galeria

Um dos principais actores no campo do jornalismo colaborativo no Báltico é o Re:Baltica – Centro Báltico para a Investigação do Jornalismo de Investigação. O projecto está sediado na capital da Letónia, Riga, e foi criado há oito anos, introduzindo duas ideias inovadoras para a prática do jornalismo na região.

O Centro realiza pesquisas e cria uma história e, posteriormente, fornece-a, a título gratuito, aos meios de comunicação. Em segundo lugar, adoptou um novo modelo de negócio, que depende principalmente de doações e concessões.

O Observatório Europeu de Jornalismo falou recentemente com Inga Springe, questionando-a sobre o trabalho quotidiano de uma organização de comunicação social, sem fins lucrativos, e os desafios que actualmente enfrenta.

Springe defende que que o problema não é o das pessoas lerem o jornal "certo" ou "errado". O problema é não lerem os media tradicionais. Esse foi o motivo que a levou a impulsionar com o projecto Re:Baltica Light e várias reportagens sob a rubrica #StarpCitu (#ByTheWay), disponíveis no YouTube e no Facebook.

Um artigo sobre a organização foi publicado, pela primeira vez, no site do Observatório Europeu de Jornalismo e reproduzido no site da GIJN, do qual a Re:Baltica é membro.

O “LeKiosk” muda para “Cafeyn” e alarga oferta a assinantes Ver galeria

O serviço de notícias LeKiosk mudou de nome para Cafeyn e passou a apresentar-se como um serviço de streaming de informações. O quiosque digital permite a consulta de mais de mil títulos de imprensa francesa e internacional por 9,99 euros por mês.

A mudança de nome e de visual têm como objectivo atrair um público mais numeroso e fazer frente à Apple News+.

De salientar que a alteração da designação é, também, explicada por uma batalha jurídica, iniciada em 2012, entre LeKiosk Monkiosque.fr, publicada pelo Grupo Toutabo.

O departamento de propriedade intelectual da União Europeia decidiu, em Março, que havia um risco de confusão para o público, e que a Toutabo tinha registado a sua marca antes da LeKiosk.

Cafeyn tem, atualmente, cerca de um milhão de utilizadores activos por mês, em comparação com os 200 mil em 2017, que lêem uma média de 15 revistas diferentes. A maior parte destes assinantes foram obtidos através de operadores de telecomunicações, como a Bouygues Telecom e a Free, que oferecem o acesso a alguns dos seus clientes.

Isto permitiu à empresa aumentar o seu volume de negócios, que quintuplicou em três anos.

Em breve deverão ser anunciadas parcerias internacionais.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


ver mais >
Opinião
A “tabloidizacão” dos media portugueses parece imparável, com as televisões na dianteira, privadas e pública, sejam os canais generalistas ou temáticos. A obsessão pelos “casos” que puxem ao drama, ao pasmo ou à lágrima, tomou conta dos telejornais e da Imprensa. A frenética disputa das audiências nas TVs e a queda continuada das vendas nos jornais são, normalmente, apontadas...
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
Agenda
19
Nov
Connections Europe
09:00 @ Marriott Hotel, Amsterdão
19
Nov
19
Nov
Dia da Comunicação
10:00 @ Teatro Tivoli
21
Nov