Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Fórum

Contar a verdade apesar dos poderosos é um princípio fundamental do jornalismo

Na cerimónia de entrega do Prémio Hitchens, que distingue um jornalista ou autor cuja obra demonstre uma dedicação à liberdade de expressão e a constante procura da verdade, sem receio das consequências, Marty Baron, actual director editorial do Washington Post, definiu a missão do jornalismo como sendo a de exigir contas aos mais poderosos. O seu discurso de agradecimento vem publicado na Vanity Fair, da qual Hitchens foi colaborador, e na Global Investigative Journalism Network, como uma “mensagem aos jornalistas na era de Trump”.

O Prémio, criado pela Fundação Dennis & Victoria Ross em homenagem ao falecido escritor britânico Christopher Hitchens, é tão recente que o próprio homenageado neste ano admitiu que não tinha conhecimento dele. 

Marty Baron sublinhou as diferenças entre ele mesmo e Christopher Hitchens, mas citou, a seguir, a resposta que este dera quando lhe fora perguntado o que pensava da fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra o escritor Salman Rushdie. E a resposta era que se tratava de tudo o que detestava contra tudo o que amava. De um lado a ditadura, a religião, a estupidez, a demagogia, a censura, bullying e intimidação. Do outro lado, a literatura, a ironia, humor, o indivíduo e a defesa da liberdade de expressão, mais a amizade. 

É neste terreno dos valores, exceptuando a referência à religião  - que, sublinhou Marty Baron, ele próprio não odeia -  que se considera em comunhão com Christopher Hitchens:

“Os valores são o que mais importa. E esta é uma boa altura para falar deles. Uma boa altura para reafirmar aquilo por que nós, jornalistas, nos batemos.” 

Marty Baron referiu-se então ao Presidente que vai ser proximamente empossado, e que “foi eleito depois de ter conduzido um ataque directo contra a Imprensa; a animosidade contra os media era uma peça central da sua campanha”. Recordou que ele considerou os jornalistas “a mais baixa forma de humanidade”, e depois “a mais baixa forma de vida”. Recordou também que o jornal Washington Post teve as credenciais de acesso revogadas durante a campanha. 

“Muitos jornalistas  - disse depois -  interrogam-se com preocupação considerável como é que vai ser para nós nos próximos quatro, ou talvez oito anos. Vamos ser constantemente assediados e caluniados? O novo governo vai usar todas as oportunidades para tentar intimidar-nos? Vamos enfrentar obstruções em toda a parte?” 

Em última instância, afirmou, “a defesa da liberdade de Imprensa está no nosso trabalho diário”, e citou os princípios estabelecidos em 1933 pelo então novo proprietário do Washington Post, Eugene Meyer: “A primeira missão de um jornal é contar a verdade, tão exacta como essa verdade possa ser averiguada.” 

E foi a propósito da sua própria experiência enquanto editor do Boston Globe, cuja equipa de investigação Spotlight conduziu a famosa reportagem de denúncia da pedofilia e seu encobrimento entre o clero católico da região de Boston, que Marty Baron recordou uma pergunta que lhe era feita depois de o tema ser tratado em filme: como é que tinham procedido desse modo contra a mais poderosa instituição da Nova Inglaterra, e uma das mais poderosas do mundo, a Igreja Católica. Disse Marty Baron: 

“Essa pergunta realmente deixa-me perplexo, principalmente quando vem de jornalistas ou de quem deseja entrar na profissão. Porque exigir contas aos mais poderosos é aquilo que se espera que nós façamos. Se não fizermos isso, então qual é, exactamente, o propósito do jornalismo? Deus nos livre de nos metermos com as instituições ou os indivíduos mais fracos, deixando de fora os mais fortes, só porque podem ripostar com toda a força."

 

O discurso de Marty Baron, na íntegra, na Vanity Fair e na GIJN; imagem do Departamento de Jornalismo da Lehigh University

 

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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