Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
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Contar a verdade apesar dos poderosos é um princípio fundamental do jornalismo

Na cerimónia de entrega do Prémio Hitchens, que distingue um jornalista ou autor cuja obra demonstre uma dedicação à liberdade de expressão e a constante procura da verdade, sem receio das consequências, Marty Baron, actual director editorial do Washington Post, definiu a missão do jornalismo como sendo a de exigir contas aos mais poderosos. O seu discurso de agradecimento vem publicado na Vanity Fair, da qual Hitchens foi colaborador, e na Global Investigative Journalism Network, como uma “mensagem aos jornalistas na era de Trump”.

O Prémio, criado pela Fundação Dennis & Victoria Ross em homenagem ao falecido escritor britânico Christopher Hitchens, é tão recente que o próprio homenageado neste ano admitiu que não tinha conhecimento dele. 

Marty Baron sublinhou as diferenças entre ele mesmo e Christopher Hitchens, mas citou, a seguir, a resposta que este dera quando lhe fora perguntado o que pensava da fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra o escritor Salman Rushdie. E a resposta era que se tratava de tudo o que detestava contra tudo o que amava. De um lado a ditadura, a religião, a estupidez, a demagogia, a censura, bullying e intimidação. Do outro lado, a literatura, a ironia, humor, o indivíduo e a defesa da liberdade de expressão, mais a amizade. 

É neste terreno dos valores, exceptuando a referência à religião  - que, sublinhou Marty Baron, ele próprio não odeia -  que se considera em comunhão com Christopher Hitchens:

“Os valores são o que mais importa. E esta é uma boa altura para falar deles. Uma boa altura para reafirmar aquilo por que nós, jornalistas, nos batemos.” 

Marty Baron referiu-se então ao Presidente que vai ser proximamente empossado, e que “foi eleito depois de ter conduzido um ataque directo contra a Imprensa; a animosidade contra os media era uma peça central da sua campanha”. Recordou que ele considerou os jornalistas “a mais baixa forma de humanidade”, e depois “a mais baixa forma de vida”. Recordou também que o jornal Washington Post teve as credenciais de acesso revogadas durante a campanha. 

“Muitos jornalistas  - disse depois -  interrogam-se com preocupação considerável como é que vai ser para nós nos próximos quatro, ou talvez oito anos. Vamos ser constantemente assediados e caluniados? O novo governo vai usar todas as oportunidades para tentar intimidar-nos? Vamos enfrentar obstruções em toda a parte?” 

Em última instância, afirmou, “a defesa da liberdade de Imprensa está no nosso trabalho diário”, e citou os princípios estabelecidos em 1933 pelo então novo proprietário do Washington Post, Eugene Meyer: “A primeira missão de um jornal é contar a verdade, tão exacta como essa verdade possa ser averiguada.” 

E foi a propósito da sua própria experiência enquanto editor do Boston Globe, cuja equipa de investigação Spotlight conduziu a famosa reportagem de denúncia da pedofilia e seu encobrimento entre o clero católico da região de Boston, que Marty Baron recordou uma pergunta que lhe era feita depois de o tema ser tratado em filme: como é que tinham procedido desse modo contra a mais poderosa instituição da Nova Inglaterra, e uma das mais poderosas do mundo, a Igreja Católica. Disse Marty Baron: 

“Essa pergunta realmente deixa-me perplexo, principalmente quando vem de jornalistas ou de quem deseja entrar na profissão. Porque exigir contas aos mais poderosos é aquilo que se espera que nós façamos. Se não fizermos isso, então qual é, exactamente, o propósito do jornalismo? Deus nos livre de nos metermos com as instituições ou os indivíduos mais fracos, deixando de fora os mais fortes, só porque podem ripostar com toda a força."

 

O discurso de Marty Baron, na íntegra, na Vanity Fair e na GIJN; imagem do Departamento de Jornalismo da Lehigh University

 

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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