null, 24 de Março, 2019
Media

Facebook como quiosque digital que só vende primeiras páginas

Ainda não resolvemos o problema da passagem do jornal impresso ao "nativo digital" e já se discute a sobrevivência deste enquanto possuidor de identidade própria. Não é só a questão de saber de onde vêm as receitas: dentro de muito pouco tempo, diz um jornalista francês interessado por este tema, os sites de informação podem cair todos dentro do Facebook. E o que ele propõe, no fundo, é uma sobrevivência por adaptação: se o Facebook só vende capas apelativas, então cada "conteúdo" que queira captar alguma atenção tem de ser redigido como uma primeira página irrecusável  -  ou desaparecer no torvelinho.

O artigo de Raphael Cosimano, que aqui citamos de LesEchos.fr, começa pelo futuro próximo, faltam só quatro anos: em 2020 já não teremos de entrar na rede pelos nossos navegadores habituais, vamos direitos ao Facebook, porque Mark Zuckerberg ganhou a sua aposta de engolir quase toda a Internet. 

Isto significa que, daqui para a frente, os meios de informação e os criadores de conteúdos deixam de ter sites independentes e só existem nas redes sociais, sobretudo no Facebook. E se assim é, então "os media do futuro serão, de facto, apátridas; já não terão um país (o seu website), mas apenas uma pequena embaixada (a sua página no Facebook), dificilmente distinguível das outras".

E significa outra coisa mais grave: que eles só existem pelo que publicam, que vai sendo "recompensado ou condenado" ao longo do dia: "Uma pessoa pode lembrar-se, talvez, dos três últimos vídeos que lhe chamaram a atenção no Facebook. Mas não forçosamente da sua origem."

Diz então o autor :

"O próximo desaparecimento dos websites vai dar novas responsabilidades (ou obrigações) aos criadores de conteúdos. Com efeito, cada uma das suas peças publicadas definirá totalmente a identidade do meio. Vai ser preciso distinguir-se em muito pouco espaço, em poucos caracteres, poucas ideias e respeitando o formato da plataforma escolhida." 

"Do mesmo modo que uma canção que queira passar na rádio tem, absolutamente, de propor um refrão nos 30 primeiros segundos, um vídeo no Facebook tem, forçosamente, de encontrar maneira de impedir que o utente faça scroll nos primeiros cinco segundos. A forma vai gerar o fundo." 

Assustador ? Será possível fazer jornalismo sério neste formato ? E Shakespeare, aceitaria isto ?

Raphael Cosimano, que dirige a redacção de uma newsletter para o life-style de jovens casais que queiram ser informados das melhores opções para passar noites agradaváveis em Paris, não nos pede reflexões tão elevadas. 

"Um meio que deseje encontrar sucesso deverá, então, pôr muita concentração em cada uma das suas intervenções. (…) Num newsfeed que decide da vida ou da morte de um post em poucas horas, cada uma das entradas publicadas por um meio de comunicação deve ser pensada como a primeira página de um jornal de grande tiragem." 

Trata-se então de ter sucesso em fixar a preciosa atenção de quem faz deslizar, com um dedo, um caudal de notícias concorrentes:

"Uma página clássica de Facebook produzirá umas quinze 'capas' por dia, e o Facebook será, mais do que nunca, aquilo que no fundo sempre foi: um quiosque digital de jornais, que só vende primeiras páginas."

 

Mais informação no artigo original, em LesEchos.fr

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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