Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Media

Facebook como quiosque digital que só vende primeiras páginas

Ainda não resolvemos o problema da passagem do jornal impresso ao "nativo digital" e já se discute a sobrevivência deste enquanto possuidor de identidade própria. Não é só a questão de saber de onde vêm as receitas: dentro de muito pouco tempo, diz um jornalista francês interessado por este tema, os sites de informação podem cair todos dentro do Facebook. E o que ele propõe, no fundo, é uma sobrevivência por adaptação: se o Facebook só vende capas apelativas, então cada "conteúdo" que queira captar alguma atenção tem de ser redigido como uma primeira página irrecusável  -  ou desaparecer no torvelinho.

O artigo de Raphael Cosimano, que aqui citamos de LesEchos.fr, começa pelo futuro próximo, faltam só quatro anos: em 2020 já não teremos de entrar na rede pelos nossos navegadores habituais, vamos direitos ao Facebook, porque Mark Zuckerberg ganhou a sua aposta de engolir quase toda a Internet. 

Isto significa que, daqui para a frente, os meios de informação e os criadores de conteúdos deixam de ter sites independentes e só existem nas redes sociais, sobretudo no Facebook. E se assim é, então "os media do futuro serão, de facto, apátridas; já não terão um país (o seu website), mas apenas uma pequena embaixada (a sua página no Facebook), dificilmente distinguível das outras".

E significa outra coisa mais grave: que eles só existem pelo que publicam, que vai sendo "recompensado ou condenado" ao longo do dia: "Uma pessoa pode lembrar-se, talvez, dos três últimos vídeos que lhe chamaram a atenção no Facebook. Mas não forçosamente da sua origem."

Diz então o autor :

"O próximo desaparecimento dos websites vai dar novas responsabilidades (ou obrigações) aos criadores de conteúdos. Com efeito, cada uma das suas peças publicadas definirá totalmente a identidade do meio. Vai ser preciso distinguir-se em muito pouco espaço, em poucos caracteres, poucas ideias e respeitando o formato da plataforma escolhida." 

"Do mesmo modo que uma canção que queira passar na rádio tem, absolutamente, de propor um refrão nos 30 primeiros segundos, um vídeo no Facebook tem, forçosamente, de encontrar maneira de impedir que o utente faça scroll nos primeiros cinco segundos. A forma vai gerar o fundo." 

Assustador ? Será possível fazer jornalismo sério neste formato ? E Shakespeare, aceitaria isto ?

Raphael Cosimano, que dirige a redacção de uma newsletter para o life-style de jovens casais que queiram ser informados das melhores opções para passar noites agradaváveis em Paris, não nos pede reflexões tão elevadas. 

"Um meio que deseje encontrar sucesso deverá, então, pôr muita concentração em cada uma das suas intervenções. (…) Num newsfeed que decide da vida ou da morte de um post em poucas horas, cada uma das entradas publicadas por um meio de comunicação deve ser pensada como a primeira página de um jornal de grande tiragem." 

Trata-se então de ter sucesso em fixar a preciosa atenção de quem faz deslizar, com um dedo, um caudal de notícias concorrentes:

"Uma página clássica de Facebook produzirá umas quinze 'capas' por dia, e o Facebook será, mais do que nunca, aquilo que no fundo sempre foi: um quiosque digital de jornais, que só vende primeiras páginas."

 

Mais informação no artigo original, em LesEchos.fr

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...