Segunda-feira, 20 de Janeiro, 2020
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Quando o jornalismo é relutante a corrigir os seus próprios erros

Informar com rigor e corrigir eventuais inexactidões são princípios básicos de um jornalismo de qualidade. Deles decorre o direito de resposta de qualquer pessoa que se considere atingida por esses erros de informação. Estas normas estão regulamentadas em qualquer país democrático, mas a sua aplicação nem sempre funciona bem. Na hora de as cumprir, muitos meios de comunicação “arrastam os pés” e fazem o mínimo para asumir que erraram. Esta reflexão é o tema de um trabalho publicado na mais recente edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O texto, da autoria de Milagros Pérez Oliva, jornalista e docente de Ciências da Comunicação, começa pela constatação deste problema, que não é só espanhol, como nos será fácil reconhecer:

“A resistência dos meios a corrigir erros e inexactidões é generalizada. Poucas vezes rectificam e, quando o fazem, costuma ser tarde e de modo dissimulado. Embora o direito de resposta e de rectificação esteja na lei e nos diferentes códigos de auto-regulação em vigor, na prática poucas vezes o podem exercer os que são afectados por informações erróneas, imprecisas ou desvirtuadas. E a tendência que se observa, com as mudanças trazidas pela revolução digital ao eco-sistema mediático, não é para melhor, mas para pior.” 

A autora concentra-se, no final do seu trabalho, nas características do jornalismo digital, especialmente a sua instantaneidade, e o que significa para a questão do erro e da rectificação: 

“Agora não é preciso esperar que a pessoa afectada por um erro ou informação incorrecta exerça uma acção de rectificação. A sanção chega imediatamente, na forma de descrédito do jornalista que teve o deslize. A desqualificação é automática e os jornalistas que exercem a profissão de forma pouco escrupulosa podem comprovar agora como é amargo o remédio que deram a tomar aos outros, durante tanto tempo, impunemente.” (…) 

Mas chama também a atenção para os casos em que jornalistas que não erraram, mas afrontaram interesses ilícitos, podem ser vítimas, nas redes sociais, de campanhas de desprestígio contra as quais não têm instrumentos de defesa. 

Por outro lado, dada a natureza da Internet, mesmo que tenha havido erro e rectificação em devido tempo, a versão incorrecta ganha “vida própria” e continua a ser encontrada por leitores que não acompanharam todo o proceso. “O direito ao esquecimento é um conceito que está a fazer caminho, mas a sua regulação está ainda longe de ser satisfatória.” 

Milagros Pérez Oliva descreve ainda uma evolução, nas relações entre jornalismo e poder, que não se limita ao seu país:

“A batalha partidária pelo controlo das instituições, que temos observado em Espanha nestes últimos anos, estende-se agora a uma batalha para controlar os meios de comunicação. Em primeiro lugar os de natureza pública, sujeitos a um regime de dependência governamental que os põe ao serviço do partido que governa, mas também, e cada vez mais, aos de natureza privada, por meio de mecanismos indirectos de pressão.” 

O seu longo trabalho detém-se, com abundância de exemplos, sobre o modo como a legislação espanhola é aplicada nos casos de rectificação de notícias, de garantia da presunção de inocência, das instâncias de auto-regulação e dos provedores do leitor. 

E conclui:

“Já o tenho dito noutras ocasiões: se não formos capazes de nos regular a nós próprios e garantir a fiabilidade que a sociedade reclama de nós, teremos que defrontar uma exigência social de regulação exterior; o que seria uma catástrofe, porque, postos a regular e a limitar a liberdade de Imprensa, sabemos como se começa, mas não sabemos onde e quando acaba.” 


O texto de Milagros Pérez Oliva, na íntegra, no site da APM

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral
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