Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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Estudos sobre comentários online dos leitores dão que pensar...

Que motivos levam os leitores a fazer comentários a um artigo online? Nem sempre os melhores... e frequentemente aquilo que escrevem ou é superficial, ou ignorante, ou agressivo, ou mesmo insultuoso. Muitos jornais têm posto a questão de saber se vale a pena manter esse espaço aberto, e alguns foram ao ponto de fazer sondagens ao seu próprio universo de visitantes, para avaliar da sua seriedade. O diário Le Monde revisita uma das mais significativas, feita por The Guardian sobre 70 milhões de comentários, produzidos ao longo de 17 anos, e concentra-se na mais recente, elaborada pelo site FiveThirtyEight. Os resultados dão que pensar.

Em Abril de 2016, o diário britânico The Guardian publicou as conclusões de um estudo que mandara fazer aos 70 milhões de comentários enviados pelos leitores e publicados no espaço a seguir aos artigos dos seus jornalistas ou colaboradores. Desse número total, os moderadores do site sentiram-se na necessidade de bloquear cerca de 1,4 milhões, pela sua natureza incompatível com os padrões de educação do jornal. 

O estudo dos textos, cruzados com a identidade dos autores neles visados, é perturbador por aquilo que revela. O site do CPI divulgou, em devido tempo, esse trabalho, que pode ser consultado chamando, na janela “pesquisar...”, o seu título  -  “O lado obscuro dos comentários dos leitores na Imprensa online”. 

O presente artigo do Le Monde refere-se, a seguir, a um outro trabalho da revista norte-americana The Atlantic, que começa por perguntar quantos comentários era preciso ler para perder a fé na Humanidade, e a resposta é: “Muitas vezes, basta um.” O seu diagnóstico chega a ser mais pesado do que o do Guardian: em regra, os comentários tendem a polarizar os leitores, “mesmo quando o artigo é bem equilibrado”. 

Este estudo foi publicado há dois anos, está acessível e relata a experiência de jornais que optaram finalmente por cancelar todo o espaço de comentários dos leitores, concentrando a atenção no que é realmente importante, os próprios artigos, e aumentando até a audiência do site

A experiência do FiveThirtyEight foi orientada no sentido de investigar que motivos levam uma pessoa a “entrar” pela Internet no espaço de comentários deste ou daquele artigo. A redactora de temas científicos, Christie Aschwanden, usou dois caminhos  - uma análise aos comentários recebidos neste site e uma sondagem a um universo de um pouco acima de 8.500 pessoas: “Aquilo que aprendi mudou as ideias que tinha sobre os comentadores e deu-me algumas interessantes perspectivas sobre a mentalidade de enxame.” 

Os motivos mais frequentes são os de “corrigir um erro” – 19%,  “acrescentar qualquer coisa à discussão” – 18%,  e “dar a minha perspectiva pessoal” ou “expor o meu ponto de vista”, cada um destes com 10%. 

Interrogados sobre as circunstâncias em que eram levados a enviar comentários, os leitores inquiridos disseram, em 55% dos casos, que era quando “sabem qualquer coisa sobre o assunto que não constava do artigo”, e em 41% quando “se identificam com o assunto tratado”. 

A jornalista explora depois uma coisa que acontece muito deste território, uma espécie de ricochete [no original effet retour de flamme] em que o leitor, mesmo que receba uma prova de que o seu ponto de vista estava errado, não vai mudar de opinião, mas ficar ainda mais convencido da sua própria razão. 

“Por exemplo: ao ler um título que o interpela, o internauta lembra-se de qualquer coisa que já sabe e mete-a imediatamente na caixa de comentários. O artigo não lhe ‘ensinou’ nada. Oferece-lhe simplesmente a ocasião de falar de qualquer coisa que ele já sabe. Mesmo que não chegue a lê-lo, porque, como nota com uma ponta de azedume Christie Aschwanden, os leitores escrevem frequentemente para desenvolver uma ideia que já estava presente no artigo.” 

Como conclui a autora, mandar comentários pela Internet é um pouco como “fazer parte de um clube de leitura em que ninguém acaba de ler os livros”...

 

Mais informação no trabalho do Le Monde, que contém os links para os outros estudos citados

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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