Sexta-feira, 22 de Março, 2019
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Estudos sobre comentários online dos leitores dão que pensar...

Que motivos levam os leitores a fazer comentários a um artigo online? Nem sempre os melhores... e frequentemente aquilo que escrevem ou é superficial, ou ignorante, ou agressivo, ou mesmo insultuoso. Muitos jornais têm posto a questão de saber se vale a pena manter esse espaço aberto, e alguns foram ao ponto de fazer sondagens ao seu próprio universo de visitantes, para avaliar da sua seriedade. O diário Le Monde revisita uma das mais significativas, feita por The Guardian sobre 70 milhões de comentários, produzidos ao longo de 17 anos, e concentra-se na mais recente, elaborada pelo site FiveThirtyEight. Os resultados dão que pensar.

Em Abril de 2016, o diário britânico The Guardian publicou as conclusões de um estudo que mandara fazer aos 70 milhões de comentários enviados pelos leitores e publicados no espaço a seguir aos artigos dos seus jornalistas ou colaboradores. Desse número total, os moderadores do site sentiram-se na necessidade de bloquear cerca de 1,4 milhões, pela sua natureza incompatível com os padrões de educação do jornal. 

O estudo dos textos, cruzados com a identidade dos autores neles visados, é perturbador por aquilo que revela. O site do CPI divulgou, em devido tempo, esse trabalho, que pode ser consultado chamando, na janela “pesquisar...”, o seu título  -  “O lado obscuro dos comentários dos leitores na Imprensa online”. 

O presente artigo do Le Monde refere-se, a seguir, a um outro trabalho da revista norte-americana The Atlantic, que começa por perguntar quantos comentários era preciso ler para perder a fé na Humanidade, e a resposta é: “Muitas vezes, basta um.” O seu diagnóstico chega a ser mais pesado do que o do Guardian: em regra, os comentários tendem a polarizar os leitores, “mesmo quando o artigo é bem equilibrado”. 

Este estudo foi publicado há dois anos, está acessível e relata a experiência de jornais que optaram finalmente por cancelar todo o espaço de comentários dos leitores, concentrando a atenção no que é realmente importante, os próprios artigos, e aumentando até a audiência do site

A experiência do FiveThirtyEight foi orientada no sentido de investigar que motivos levam uma pessoa a “entrar” pela Internet no espaço de comentários deste ou daquele artigo. A redactora de temas científicos, Christie Aschwanden, usou dois caminhos  - uma análise aos comentários recebidos neste site e uma sondagem a um universo de um pouco acima de 8.500 pessoas: “Aquilo que aprendi mudou as ideias que tinha sobre os comentadores e deu-me algumas interessantes perspectivas sobre a mentalidade de enxame.” 

Os motivos mais frequentes são os de “corrigir um erro” – 19%,  “acrescentar qualquer coisa à discussão” – 18%,  e “dar a minha perspectiva pessoal” ou “expor o meu ponto de vista”, cada um destes com 10%. 

Interrogados sobre as circunstâncias em que eram levados a enviar comentários, os leitores inquiridos disseram, em 55% dos casos, que era quando “sabem qualquer coisa sobre o assunto que não constava do artigo”, e em 41% quando “se identificam com o assunto tratado”. 

A jornalista explora depois uma coisa que acontece muito deste território, uma espécie de ricochete [no original effet retour de flamme] em que o leitor, mesmo que receba uma prova de que o seu ponto de vista estava errado, não vai mudar de opinião, mas ficar ainda mais convencido da sua própria razão. 

“Por exemplo: ao ler um título que o interpela, o internauta lembra-se de qualquer coisa que já sabe e mete-a imediatamente na caixa de comentários. O artigo não lhe ‘ensinou’ nada. Oferece-lhe simplesmente a ocasião de falar de qualquer coisa que ele já sabe. Mesmo que não chegue a lê-lo, porque, como nota com uma ponta de azedume Christie Aschwanden, os leitores escrevem frequentemente para desenvolver uma ideia que já estava presente no artigo.” 

Como conclui a autora, mandar comentários pela Internet é um pouco como “fazer parte de um clube de leitura em que ninguém acaba de ler os livros”...

 

Mais informação no trabalho do Le Monde, que contém os links para os outros estudos citados

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Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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