Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
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Estudos sobre comentários online dos leitores dão que pensar...

Que motivos levam os leitores a fazer comentários a um artigo online? Nem sempre os melhores... e frequentemente aquilo que escrevem ou é superficial, ou ignorante, ou agressivo, ou mesmo insultuoso. Muitos jornais têm posto a questão de saber se vale a pena manter esse espaço aberto, e alguns foram ao ponto de fazer sondagens ao seu próprio universo de visitantes, para avaliar da sua seriedade. O diário Le Monde revisita uma das mais significativas, feita por The Guardian sobre 70 milhões de comentários, produzidos ao longo de 17 anos, e concentra-se na mais recente, elaborada pelo site FiveThirtyEight. Os resultados dão que pensar.

Em Abril de 2016, o diário britânico The Guardian publicou as conclusões de um estudo que mandara fazer aos 70 milhões de comentários enviados pelos leitores e publicados no espaço a seguir aos artigos dos seus jornalistas ou colaboradores. Desse número total, os moderadores do site sentiram-se na necessidade de bloquear cerca de 1,4 milhões, pela sua natureza incompatível com os padrões de educação do jornal. 

O estudo dos textos, cruzados com a identidade dos autores neles visados, é perturbador por aquilo que revela. O site do CPI divulgou, em devido tempo, esse trabalho, que pode ser consultado chamando, na janela “pesquisar...”, o seu título  -  “O lado obscuro dos comentários dos leitores na Imprensa online”. 

O presente artigo do Le Monde refere-se, a seguir, a um outro trabalho da revista norte-americana The Atlantic, que começa por perguntar quantos comentários era preciso ler para perder a fé na Humanidade, e a resposta é: “Muitas vezes, basta um.” O seu diagnóstico chega a ser mais pesado do que o do Guardian: em regra, os comentários tendem a polarizar os leitores, “mesmo quando o artigo é bem equilibrado”. 

Este estudo foi publicado há dois anos, está acessível e relata a experiência de jornais que optaram finalmente por cancelar todo o espaço de comentários dos leitores, concentrando a atenção no que é realmente importante, os próprios artigos, e aumentando até a audiência do site

A experiência do FiveThirtyEight foi orientada no sentido de investigar que motivos levam uma pessoa a “entrar” pela Internet no espaço de comentários deste ou daquele artigo. A redactora de temas científicos, Christie Aschwanden, usou dois caminhos  - uma análise aos comentários recebidos neste site e uma sondagem a um universo de um pouco acima de 8.500 pessoas: “Aquilo que aprendi mudou as ideias que tinha sobre os comentadores e deu-me algumas interessantes perspectivas sobre a mentalidade de enxame.” 

Os motivos mais frequentes são os de “corrigir um erro” – 19%,  “acrescentar qualquer coisa à discussão” – 18%,  e “dar a minha perspectiva pessoal” ou “expor o meu ponto de vista”, cada um destes com 10%. 

Interrogados sobre as circunstâncias em que eram levados a enviar comentários, os leitores inquiridos disseram, em 55% dos casos, que era quando “sabem qualquer coisa sobre o assunto que não constava do artigo”, e em 41% quando “se identificam com o assunto tratado”. 

A jornalista explora depois uma coisa que acontece muito deste território, uma espécie de ricochete [no original effet retour de flamme] em que o leitor, mesmo que receba uma prova de que o seu ponto de vista estava errado, não vai mudar de opinião, mas ficar ainda mais convencido da sua própria razão. 

“Por exemplo: ao ler um título que o interpela, o internauta lembra-se de qualquer coisa que já sabe e mete-a imediatamente na caixa de comentários. O artigo não lhe ‘ensinou’ nada. Oferece-lhe simplesmente a ocasião de falar de qualquer coisa que ele já sabe. Mesmo que não chegue a lê-lo, porque, como nota com uma ponta de azedume Christie Aschwanden, os leitores escrevem frequentemente para desenvolver uma ideia que já estava presente no artigo.” 

Como conclui a autora, mandar comentários pela Internet é um pouco como “fazer parte de um clube de leitura em que ninguém acaba de ler os livros”...

 

Mais informação no trabalho do Le Monde, que contém os links para os outros estudos citados

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Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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