Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Colectânea

O efeito da revolução digital sobre a arquitectura das redacções

A transformação, no jornalismo, é tão rápida que até os novos termos ficam desactualizados sem que demos conta disso. Pior ainda, sem que os tenhamos sequer assimilado correctamente. É o caso da “convergência redaccional”, ou integração dos vários elementos da redacção no seu espaço reajustado. Esta reflexão é desenvolvida por Félix Bahón, jornalista, docente e investigador do Instituto para la Innovación Periodística, e foi publicada no nº 22 de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa pelo princípio do milénio, que ainda não tem muitos anos, mas que impôs aos jornais a noção de que tinham de integrar no mesmo espaço as edições em papel e Internet.

A imagem de que se serve Félix Bahón para explicar o que sucedeu é a de um acordeão: “O modelo de convergência, que levou muitos títulos a precarizar a qualidade dos seus conteúdos porque era preciso adaptá-los a todas as plataformas, não é compreendido hoje como há dez anos. Também este conceito muda, o que faz com que algumas redacções emblemáticas mostrem as suas salas como acordeões que se encolhem e esticam.” 

O modelo de redacção em que todos os jornalistas fazem de tudo, já não serve. Mas, como explica o autor, “desta mentalidade transversal passámos a uma lógica horizontal: cada plataforma tem de manter a sua identidade própria”.

E Félix Bahón exemplifica com o plano da mais recente reestruturação feita no El País (a que pertence a imagem incluída), “em que se pode ver como os distintos núcleos (digital, impresso, audiovisual), se diferenciam claramente, embora mantenham todos a sua órbita em torno da mesa central, a que coordena a geração de contéudos para uns e outros, de acordo com as plataformas por que são distribuídos”. 

“O desafio profissional desta integração horizontal assenta em conhecer como funcionam as plataformas emergentes, detectar quais as redes mais populares, chegar lá e interagir. Quanto aos conteúdos, saber como transportar uma notícia jornalística para esas redes. Conhecer os elementos próprios de cada uma: como titular a publicação, se leva vídeo, foto, ou que formato é mais adequado para que o utente possa receber todos os dados. E além disso é preciso pensar no horário de publicação e ajustar a ele o registo narrativo.” 

A sequência do texto mantém este tom e revela um “caderno de encargos” muito mais intenso e frenético do que aqueles a que estavam habituados os chefes de redacção dos jornais impressos de há duas décadas. 

E Félix Bahón conclui deste modo:

“Mesmo o nome [o título do órgão de comunicação] acabará por ser residual, se esta tendência do mercado se impuser. Poucos títulos sairão todos os días. Parece que o impresso vai ser relegado para o fim-de-semana, quando se tem mais tempo para uma leitura repousada. E vão aparecer muitos suplementos e edições especiais que possam dar suporte à publicidade, que continua a ser a grande geradora de receitas.”

 

O texto original, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas; foto de Matthew Simantov

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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