Terça-feira, 26 de Outubro, 2021
Jantares-debate

O euro para Portugal não é descartável - defendeu António Vitorino

Falando no jantar-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”, António Vitorino sublinhou a gravidade da presente crise que a UE atravessa, identificou os desequilíbrios e as fracturas que ameaçam o projecto fundador, mas manteve a sua confiança em que os cidadãos saberão sair dos próximos testes eleitorais “com nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações”.

António Vitorino começou pelos problemas, reconhecendo que em Portugal e na Europa, hoje, é preciso ser “muito optimista” para ser europeísta, que “a Europa atravessa uma crise séria, que não é como as anteriores”, e que, “desta crise, a saída não é forçosamente um reforço da Europa”.

 

Afirmou a seguir que a construção europeia “parte de um princípio de equilíbrios”, em que, havendo embora ênfase diverso nuns ou noutros elementos, no final todos os Estados-membros se possam sentir “confortáveis com o equilíbrio encontrado”:

 

“A partir do momento em que se começar a alterar o equilíbrio de algumas das componentes, a resultante global pode ser seriamente afectada.”

 

O orador referiu depois as questões que hoje se colocam: se “fomos depressa demais e longe demais”, por exemplo  -  “se o projecto europeu precisava, de facto, de uma moeda única: se o euro era necessário, ou se não terá sido uma precipitação, um passo maior que a perna”. 

Reflectindo sobre este tema, e tendo dito que “não há tabus” para o debate em democracia, António Vitorino defendeu que não é possível sustentar a ideia de que “o euro, hoje, para um país como Portugal, ou para outros países, é descartável, e que seria possível voltar ao ponto onde estávamos antes de termos aderido à moeda única europeia”.

 

Afirmou que, em vez disso, “a questão que se coloca agora em relação ao futuro da Europa é a de que, tanto para Portugal como para o conjunto dos países europeus, não há caminho de retrocesso”.

 

Debruçou-se então sobre “o nosso posicionamento como país no quadro zona euro, à luz daquilo que pode e deve ser feito para que o projecto tenha um resultado positivo”.

 

António Vitorino passou a descrever o que está incompleto na construção do mercado interno, mencionando demoradamente o mercado interno da energia, o dos serviços, o da digitalização da economia e o do sistema de financiamento bancário, entre outros possíveis.

 

E prosseguiu dizendo que “chegamos aqui a um ponto que é um paradoxo” porque, se “há ainda muito que fazer, há que completar o mercado interno, há que completar a arquitectura da união económica e monetária”, mas as opiniões públicas não parecem disponíveis para o aceitar de bom grado.

 

Concretamente, referiu-se ao que se passa “do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, que vai ter obviamente uma repercussão directa na condução da política monetária europeia; já não falo só da política económica, falo da política monetária”.

 

Desse lado virão “efeitos inflacionistas” e, provavelmente já em Dezembro, “um primeiro aumento das taxas de juro de referência da Reserva Federal americana”. E continuou:

 

“A pressão que vai vir do outro lado do Atlântico também vai adicionar-se às pressões internas na Europa, para que o BCE deixe de praticar a política de taxas de juro negativas ou quase, e que passe também a ter uma aproximação mais proactiva sobre a política das taxas de juros, e isso pode ter efeitos negativos na perspectiva de recuperação económica europeia.”

 

“Portanto, estamos a viver um momento onde a evidência mostra que é preciso transferir novas competências para o nível europeu (...)  e, contudo, temos a consciência de que as opiniões públicas hoje não estão preparadas para aceitarem facilmente novas transferências de competências”.

 

António Vitorino recordou, neste ponto, que “o projecto europeu sempre se legitimou através dos resultados, que se traduzem em prosperidade económica, bem-estar e protecção social; mas o que hoje se passa no conjunto das opiniões públicas europeias é um sentimento difuso de que esta fórmula mágica, que durante quase 60 anos produziu essa prosperidade, bem-estar e protecção social, deixou de funcionar como no passado, no mundo globalizado em que vivemos. É aqui que reside talvez a questão mais espantosa: é a ilusão, que esteve presente no Brexit, de que a solução é cada um remar por si próprio”.

 

Para corrigir essa ilusão, chamou a atenção para os números, como disse:

 

“Em 2030, não haverá à mesa do chamado G7 nenhum país europeu. Nem a Alemanha, que será em 2030 a nona economia do mundo. No grupo das economias mais desenvolvidas, que é um grupo que dita regras para a economia mundial, nós podemos correr o risco de não ter nenhum país europeu. Só a União Europeia, como conjunto, é que pode ter o peso e a capacidade suficiente para estar presente no G7, daqui a alguns anos.”

 

A terminar, o orador equacionou o futuro da Europa em três dimensões fundamentais, que contêm em si outras tantas fracturas:

 

Repetiu que “não há caminho de retrocesso para o euro”, mas contou o resto da história, na dinâmica da moeda única entre economias com graus de desenvolvimento muito diferentes entre si:

 

“Nesta dinâmica há ganhadores e perdedores, historicamente foi sempre assim. Na União Europeia negoceiam-se interesses entre os Estados, umas vezes ganham, outras vezes perdem; o problema essencial da UE é que não pode haver quem ganhe sempre e quem perca sempre, porque isso mina a coesão do projecto. O problema é que começa a instalar-se a ideia de que as próprias regras de funcionamento da união económica e monetária geram ganhadores permanentes e perdedores permanentes.”

 

Decorrem daqui “fracturas por grupos regionais, que são a melhor forma de acabar com o projecto europeu. O Sul contra o Norte, ou o Norte contra o Sul, noutras matérias o Leste contra o Oeste ou o Oeste contra o Leste, os pequenos contra os grandes, e esta é que é a dinâmica disruptora do projecto europeu”.

 

António Vitorino insistiu na necessidade de “ultrapassar a desconfiança mútua entre os Estados, sobretudo a desconfiança mútua básica que separa a França e a Alemanha; sem haver uma convergência entre a França e a Alemanha não há progresso no projecto europeu. Não é possível pensar num motor alternativo. Agravado ainda com a saída dos Britânicos”.

 

Sublinhou depois a importância do crescimento económico  -  onde a fractura já visível passa pelo primeiro “bode expiatório” escolhido, que é o comércio internacional: “O que vemos hoje é o crescimento da ideia do proteccionismo, do fechamento das fronteiras, do isolamento dos Estados; e isso tem um custo económico, vai ter… A frase do Brexit, take back control, é uma frase muito forte, mas é uma pura ilusão… É um problema não apenas económico, mas político, porque tem a ver com o tipo de sociedade em que queremos viver.”

 

Em terceiro lugar falou na fractura social, que é “não apenas etária, geracional, mas também do ponto de vista social e das regiões onde as pessoas vivem”, como se verificou tanto no Brexit como nas eleições presidenciais nos EUA.

 

Chamou a atenção para a importância dos quatro actos eleitorais próximos na Europa, o referendo de 4 de Dezembro na Itália, em Março as eleições na Holanda, as presidenciais e as legislativas em França e depois na Alemanha.

 

António Vitorino fez questão de encerrar com uma manifestação de esperança:

 

“Tenho confiança em que o espírito de abertura, de diálogo, de tolerância, em segundo lugar a força da ideia europeia, da interdependência e dos equilíbrios que esta deve gerar, e sobretudo o amor dos europeus à democracia, nos permitirão ultrapassar estes testes eleitorais e deles sairmos desta crise com novo alento e nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações.”

Connosco
Jornal finlandês troca "cadeados" por "diamantes" para atrair assinantes Ver galeria

Com a era digital, vários jornais passaram a apostar nos conteúdos “online”, recorrendo às “paywalls” para obter receitas.

Este novo modelo de negócio foi introduzido um pouco por toda a Europa, incluindo na Finlândia, onde o jornal “Helsingin Sanomat” conta com a subscrição de 48% de todos os assinantes de produtos noticiosos do país.

Conforme apontou Hanaa Tameez num artigo publicado no “Nieman Lab”, o "Helsingin Sanomat” foi fundado em 1889, quando a Finlândia ainda integrava o Império Russo. Agora, este jornal é detido pelo Grupo Sanoma, que controla 40 outras marcas mediáticas naquele país.

Em 2016, continuou Tameez, os editores do “Helsingin Sanomat” chegaram à conclusão de que a “paywall” não estava a obter os resultados esperados.

Por isso mesmo, os responsáveis por aquela publicação começaram a analisar o tipo de conteúdos que deveriam ser exclusivos para subscritores e, em vez de os assinalarem com um “cadeado”, passaram a identificá-los através de um “diamante”.

“O símbolo do cadeado passou a ser reconhecido mundialmente enquanto um identificador da ‘Paywall’”, disse o editor-executivo, Kaius Niemi, em entrevista para o “Nieman Lab”. “Sentimos, contudo, que o cadeado não simboliza valor acrescentado no jornalismo, ou ‘storytelling’ avançado. Por outro lado, acaba por ter uma conotação negativa, já que fecha a porta a um potencial subscritor. Os diamantes, por sua vez, ilustram o trabalho árduo dedicado a cada história”.

Graças a estas iniciativas, a equipa editorial daquele jornal finlandês percebeu que estava a apostar em temáticas que não chamavam a atenção dos leitores, e decidiram investir em artigos sobre sociedade, cultura e “lifestyle”.

Relatório aponta prioridade para o jornalismo isento e objectivo Ver galeria

As audiências valorizam a imparcialidade no jornalismo, e justificam a convicção de que os artigos noticiosos e as colunas de opinião devem ser, claramente, distinguidas, aponta o estudo The Relevance Of Impartial News In A Polarised World, encomendado pela Universidade de Oxford.

De acordo com este relatório -- que contou com 52 participantes, provenientes da Alemanha, do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido -- a informação objectiva e a contextualização devem estar no centro de qualquer formato noticioso.

Neste sentido, os participantes do estudo alertaram para o facto de as peças noticiosas e as colunas de opinião não serem facilmente identificáveis em formatos “online”, ao contrário do que acontece nas publicações em formato de papel.

“As audiências valorizam a opinião como um suplemento dos factos, mas, na sua generalidade, querem que a informação objectiva seja estabelecida em primeiro lugar. O público preocupa-se, também, com a mistura destes dois formatos”.

Os jornais assumem-se, assim, como a fonte noticiosa mais fiável, embora alguns leitores mais jovens considerem que estas publicações transmitem “ideais conservadores”, com os quais não se identificam.

Por outro lado, os participantes afirmam que as redes sociais não são boas fontes noticiosas, já que os seus algoritmos dão prioridade aos artigos de opinião, sem que estes estejam identificados como tal.

“Nas redes sociais, torna-se difícil distinguir entre notícias e a opinião, devido à falta de pistas. Algumas pessoas consideram que isto é um problema”, indica o relatório. “Alguns temem que o conteúdo de opinião esteja a contaminar as notícias. Outros assumem, simplesmente, que a opinião é uma característica inerente a estas plataformas”.

O Clube


Conhecidas as propostas do governo para o Orçamento de Estado, verifica-se que o sector dos media continua a ser o “parente pobre”, sem atrair medidas de reanimação capazes de corrigirem e de equilibrarem o plano inclinado em que se encontra a maioria das empresas jornalísticas, já periclitantes antes de serem fortemente flageladas pela pandemia.
O Sindicato dos Jornalistas lamenta-o e estranha que o OE ignore “completamente as dificuldades da comunicação social”. As associações do sector, como é o caso do CPI, certamente não menos.
O documento é omisso em medidas de apoio, que possam contribuir para inverter o declínio das vendas de jornais e revistas, sem pôr em causa a independência das publicações.
O bom jornalismo não precisa de ser subsidiado, mas implica redacções ágeis e com capacidade de resposta, que não dependam das redes sociais para medirem a realidade.
Com as contas no “vermelho”, as empresas editoriais não dispõem , contudo, de meios nem de condições propícias ao investimento, por exemplo, na reportagem de investigação.
Os jornalistas saem cada vez menos e a pandemia, com o teletrabalho, mais acentuou esse défice de contacto com o exterior.
É impossível não concordar com o SJ quando este defende várias medidas, como a criação de um voucher de 20 euros por agregado familiar para assinaturas ou compra de jornais e revistas, o desconto do IVA de produtos de media no IRS e a oferta de jornais ou de uma assinatura digital a todos os jovens que completem 18 anos.
Salva-se apenas a digitalização, a única que tem verbas disponíveis no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR). É importante. Mas não é exclusivamente por aí que se salvam os media em sérias dificuldades, que lutam pela sobrevivência. E que são um pilar da democracia. Eis um debate urgente ao qual nos associamos.


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O que une radicais de direita e de esquerda
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Contra o que frequentemente se julga, um radical de direita não está a uma distância de 180 graus de um radical de esquerda. Ambos partilham um desprezo pela democracia liberal, que consideram um regime político “mole”, sem “espinha dorsal”. Não aceitam que quem pense de maneira diferente da nossa não seja um inimigo a abater.  No passado dia 1 a Eslovénia sucedeu a Portugal na presidência semestral da UE....
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A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
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