Segunda-feira, 25 de Março, 2019
Jantares-debate

O euro para Portugal não é descartável - defendeu António Vitorino

Falando no jantar-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”, António Vitorino sublinhou a gravidade da presente crise que a UE atravessa, identificou os desequilíbrios e as fracturas que ameaçam o projecto fundador, mas manteve a sua confiança em que os cidadãos saberão sair dos próximos testes eleitorais “com nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações”.

António Vitorino começou pelos problemas, reconhecendo que em Portugal e na Europa, hoje, é preciso ser “muito optimista” para ser europeísta, que “a Europa atravessa uma crise séria, que não é como as anteriores”, e que, “desta crise, a saída não é forçosamente um reforço da Europa”.

 

Afirmou a seguir que a construção europeia “parte de um princípio de equilíbrios”, em que, havendo embora ênfase diverso nuns ou noutros elementos, no final todos os Estados-membros se possam sentir “confortáveis com o equilíbrio encontrado”:

 

“A partir do momento em que se começar a alterar o equilíbrio de algumas das componentes, a resultante global pode ser seriamente afectada.”

 

O orador referiu depois as questões que hoje se colocam: se “fomos depressa demais e longe demais”, por exemplo  -  “se o projecto europeu precisava, de facto, de uma moeda única: se o euro era necessário, ou se não terá sido uma precipitação, um passo maior que a perna”. 

Reflectindo sobre este tema, e tendo dito que “não há tabus” para o debate em democracia, António Vitorino defendeu que não é possível sustentar a ideia de que “o euro, hoje, para um país como Portugal, ou para outros países, é descartável, e que seria possível voltar ao ponto onde estávamos antes de termos aderido à moeda única europeia”.

 

Afirmou que, em vez disso, “a questão que se coloca agora em relação ao futuro da Europa é a de que, tanto para Portugal como para o conjunto dos países europeus, não há caminho de retrocesso”.

 

Debruçou-se então sobre “o nosso posicionamento como país no quadro zona euro, à luz daquilo que pode e deve ser feito para que o projecto tenha um resultado positivo”.

 

António Vitorino passou a descrever o que está incompleto na construção do mercado interno, mencionando demoradamente o mercado interno da energia, o dos serviços, o da digitalização da economia e o do sistema de financiamento bancário, entre outros possíveis.

 

E prosseguiu dizendo que “chegamos aqui a um ponto que é um paradoxo” porque, se “há ainda muito que fazer, há que completar o mercado interno, há que completar a arquitectura da união económica e monetária”, mas as opiniões públicas não parecem disponíveis para o aceitar de bom grado.

 

Concretamente, referiu-se ao que se passa “do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, que vai ter obviamente uma repercussão directa na condução da política monetária europeia; já não falo só da política económica, falo da política monetária”.

 

Desse lado virão “efeitos inflacionistas” e, provavelmente já em Dezembro, “um primeiro aumento das taxas de juro de referência da Reserva Federal americana”. E continuou:

 

“A pressão que vai vir do outro lado do Atlântico também vai adicionar-se às pressões internas na Europa, para que o BCE deixe de praticar a política de taxas de juro negativas ou quase, e que passe também a ter uma aproximação mais proactiva sobre a política das taxas de juros, e isso pode ter efeitos negativos na perspectiva de recuperação económica europeia.”

 

“Portanto, estamos a viver um momento onde a evidência mostra que é preciso transferir novas competências para o nível europeu (...)  e, contudo, temos a consciência de que as opiniões públicas hoje não estão preparadas para aceitarem facilmente novas transferências de competências”.

 

António Vitorino recordou, neste ponto, que “o projecto europeu sempre se legitimou através dos resultados, que se traduzem em prosperidade económica, bem-estar e protecção social; mas o que hoje se passa no conjunto das opiniões públicas europeias é um sentimento difuso de que esta fórmula mágica, que durante quase 60 anos produziu essa prosperidade, bem-estar e protecção social, deixou de funcionar como no passado, no mundo globalizado em que vivemos. É aqui que reside talvez a questão mais espantosa: é a ilusão, que esteve presente no Brexit, de que a solução é cada um remar por si próprio”.

 

Para corrigir essa ilusão, chamou a atenção para os números, como disse:

 

“Em 2030, não haverá à mesa do chamado G7 nenhum país europeu. Nem a Alemanha, que será em 2030 a nona economia do mundo. No grupo das economias mais desenvolvidas, que é um grupo que dita regras para a economia mundial, nós podemos correr o risco de não ter nenhum país europeu. Só a União Europeia, como conjunto, é que pode ter o peso e a capacidade suficiente para estar presente no G7, daqui a alguns anos.”

 

A terminar, o orador equacionou o futuro da Europa em três dimensões fundamentais, que contêm em si outras tantas fracturas:

 

Repetiu que “não há caminho de retrocesso para o euro”, mas contou o resto da história, na dinâmica da moeda única entre economias com graus de desenvolvimento muito diferentes entre si:

 

“Nesta dinâmica há ganhadores e perdedores, historicamente foi sempre assim. Na União Europeia negoceiam-se interesses entre os Estados, umas vezes ganham, outras vezes perdem; o problema essencial da UE é que não pode haver quem ganhe sempre e quem perca sempre, porque isso mina a coesão do projecto. O problema é que começa a instalar-se a ideia de que as próprias regras de funcionamento da união económica e monetária geram ganhadores permanentes e perdedores permanentes.”

 

Decorrem daqui “fracturas por grupos regionais, que são a melhor forma de acabar com o projecto europeu. O Sul contra o Norte, ou o Norte contra o Sul, noutras matérias o Leste contra o Oeste ou o Oeste contra o Leste, os pequenos contra os grandes, e esta é que é a dinâmica disruptora do projecto europeu”.

 

António Vitorino insistiu na necessidade de “ultrapassar a desconfiança mútua entre os Estados, sobretudo a desconfiança mútua básica que separa a França e a Alemanha; sem haver uma convergência entre a França e a Alemanha não há progresso no projecto europeu. Não é possível pensar num motor alternativo. Agravado ainda com a saída dos Britânicos”.

 

Sublinhou depois a importância do crescimento económico  -  onde a fractura já visível passa pelo primeiro “bode expiatório” escolhido, que é o comércio internacional: “O que vemos hoje é o crescimento da ideia do proteccionismo, do fechamento das fronteiras, do isolamento dos Estados; e isso tem um custo económico, vai ter… A frase do Brexit, take back control, é uma frase muito forte, mas é uma pura ilusão… É um problema não apenas económico, mas político, porque tem a ver com o tipo de sociedade em que queremos viver.”

 

Em terceiro lugar falou na fractura social, que é “não apenas etária, geracional, mas também do ponto de vista social e das regiões onde as pessoas vivem”, como se verificou tanto no Brexit como nas eleições presidenciais nos EUA.

 

Chamou a atenção para a importância dos quatro actos eleitorais próximos na Europa, o referendo de 4 de Dezembro na Itália, em Março as eleições na Holanda, as presidenciais e as legislativas em França e depois na Alemanha.

 

António Vitorino fez questão de encerrar com uma manifestação de esperança:

 

“Tenho confiança em que o espírito de abertura, de diálogo, de tolerância, em segundo lugar a força da ideia europeia, da interdependência e dos equilíbrios que esta deve gerar, e sobretudo o amor dos europeus à democracia, nos permitirão ultrapassar estes testes eleitorais e deles sairmos desta crise com novo alento e nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações.”

Connosco
José Ribeiro e Castro em Abril no jantar-debate do CPI Ver galeria

Advogado de profissão, político por vocação com um pé na Comunicação Social, José Ribeiro e Castro é o próximo orador–convidado no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, marcado para 16 de Abril, na Sala da Biblioteca do Grémio Literário.

Deputado, eurodeputado, governante , membro da equipa fundadora da TVI com Roberto Carneiro e antigo líder do CDS,  José Ribeiro e Castro começou cedo a respirar a política em casa.

Filho de Fernando Santos e Castro, que presidiu à Camara Municipal de Lisboa e foi o último governador português em Angola, Ribeiro e Castro nasceu em Lisboa  a 24 de Dezembro de 1953. É casado e tem três filhas e um filho.

Risco de nova “ordem mundial de Informação” sob modelo chinês Ver galeria

No contexto da visita do Presidente Xi Jinping a vários países europeus, para promover as “novas rotas da seda” das ambições económicas e geo-estratégicas da China, importa prestar também atenção à “nova ordem mundial da Informação” contida no projecto geral. Segundo um relatório muito recente dos Repórteres sem Fronteiras, o governo chinês, seguro do controlo que já exerce sobre os media nacionais e a Internet no seu próprio espaço, deseja impor um vocabulário “ideologicamente correcto” também fora de fronteiras.

E procura consegui-lo por uma panóplia de meios, que vão desde a sedução dos media ou jornalistas estrangeiros até várias formas de pressão ou mesmo intimidação.

“Há dez anos punha-se a questão de melhorar a situação na China. Mas, enquanto ONG de defesa da liberdade de Imprensa e dos jornalistas, encontramos cada vez mais dificuldades em ter impacto no país. A questão que se coloca hoje é: de que modo podem as democracias defender-se da influência mediática chinesa?”  - diz Cédric Alviani, presentante dos RSF para a Ásia Oriental.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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