Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Jantares-debate

O euro para Portugal não é descartável - defendeu António Vitorino

Falando no jantar-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”, António Vitorino sublinhou a gravidade da presente crise que a UE atravessa, identificou os desequilíbrios e as fracturas que ameaçam o projecto fundador, mas manteve a sua confiança em que os cidadãos saberão sair dos próximos testes eleitorais “com nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações”.

António Vitorino começou pelos problemas, reconhecendo que em Portugal e na Europa, hoje, é preciso ser “muito optimista” para ser europeísta, que “a Europa atravessa uma crise séria, que não é como as anteriores”, e que, “desta crise, a saída não é forçosamente um reforço da Europa”.

 

Afirmou a seguir que a construção europeia “parte de um princípio de equilíbrios”, em que, havendo embora ênfase diverso nuns ou noutros elementos, no final todos os Estados-membros se possam sentir “confortáveis com o equilíbrio encontrado”:

 

“A partir do momento em que se começar a alterar o equilíbrio de algumas das componentes, a resultante global pode ser seriamente afectada.”

 

O orador referiu depois as questões que hoje se colocam: se “fomos depressa demais e longe demais”, por exemplo  -  “se o projecto europeu precisava, de facto, de uma moeda única: se o euro era necessário, ou se não terá sido uma precipitação, um passo maior que a perna”. 

Reflectindo sobre este tema, e tendo dito que “não há tabus” para o debate em democracia, António Vitorino defendeu que não é possível sustentar a ideia de que “o euro, hoje, para um país como Portugal, ou para outros países, é descartável, e que seria possível voltar ao ponto onde estávamos antes de termos aderido à moeda única europeia”.

 

Afirmou que, em vez disso, “a questão que se coloca agora em relação ao futuro da Europa é a de que, tanto para Portugal como para o conjunto dos países europeus, não há caminho de retrocesso”.

 

Debruçou-se então sobre “o nosso posicionamento como país no quadro zona euro, à luz daquilo que pode e deve ser feito para que o projecto tenha um resultado positivo”.

 

António Vitorino passou a descrever o que está incompleto na construção do mercado interno, mencionando demoradamente o mercado interno da energia, o dos serviços, o da digitalização da economia e o do sistema de financiamento bancário, entre outros possíveis.

 

E prosseguiu dizendo que “chegamos aqui a um ponto que é um paradoxo” porque, se “há ainda muito que fazer, há que completar o mercado interno, há que completar a arquitectura da união económica e monetária”, mas as opiniões públicas não parecem disponíveis para o aceitar de bom grado.

 

Concretamente, referiu-se ao que se passa “do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, que vai ter obviamente uma repercussão directa na condução da política monetária europeia; já não falo só da política económica, falo da política monetária”.

 

Desse lado virão “efeitos inflacionistas” e, provavelmente já em Dezembro, “um primeiro aumento das taxas de juro de referência da Reserva Federal americana”. E continuou:

 

“A pressão que vai vir do outro lado do Atlântico também vai adicionar-se às pressões internas na Europa, para que o BCE deixe de praticar a política de taxas de juro negativas ou quase, e que passe também a ter uma aproximação mais proactiva sobre a política das taxas de juros, e isso pode ter efeitos negativos na perspectiva de recuperação económica europeia.”

 

“Portanto, estamos a viver um momento onde a evidência mostra que é preciso transferir novas competências para o nível europeu (...)  e, contudo, temos a consciência de que as opiniões públicas hoje não estão preparadas para aceitarem facilmente novas transferências de competências”.

 

António Vitorino recordou, neste ponto, que “o projecto europeu sempre se legitimou através dos resultados, que se traduzem em prosperidade económica, bem-estar e protecção social; mas o que hoje se passa no conjunto das opiniões públicas europeias é um sentimento difuso de que esta fórmula mágica, que durante quase 60 anos produziu essa prosperidade, bem-estar e protecção social, deixou de funcionar como no passado, no mundo globalizado em que vivemos. É aqui que reside talvez a questão mais espantosa: é a ilusão, que esteve presente no Brexit, de que a solução é cada um remar por si próprio”.

 

Para corrigir essa ilusão, chamou a atenção para os números, como disse:

 

“Em 2030, não haverá à mesa do chamado G7 nenhum país europeu. Nem a Alemanha, que será em 2030 a nona economia do mundo. No grupo das economias mais desenvolvidas, que é um grupo que dita regras para a economia mundial, nós podemos correr o risco de não ter nenhum país europeu. Só a União Europeia, como conjunto, é que pode ter o peso e a capacidade suficiente para estar presente no G7, daqui a alguns anos.”

 

A terminar, o orador equacionou o futuro da Europa em três dimensões fundamentais, que contêm em si outras tantas fracturas:

 

Repetiu que “não há caminho de retrocesso para o euro”, mas contou o resto da história, na dinâmica da moeda única entre economias com graus de desenvolvimento muito diferentes entre si:

 

“Nesta dinâmica há ganhadores e perdedores, historicamente foi sempre assim. Na União Europeia negoceiam-se interesses entre os Estados, umas vezes ganham, outras vezes perdem; o problema essencial da UE é que não pode haver quem ganhe sempre e quem perca sempre, porque isso mina a coesão do projecto. O problema é que começa a instalar-se a ideia de que as próprias regras de funcionamento da união económica e monetária geram ganhadores permanentes e perdedores permanentes.”

 

Decorrem daqui “fracturas por grupos regionais, que são a melhor forma de acabar com o projecto europeu. O Sul contra o Norte, ou o Norte contra o Sul, noutras matérias o Leste contra o Oeste ou o Oeste contra o Leste, os pequenos contra os grandes, e esta é que é a dinâmica disruptora do projecto europeu”.

 

António Vitorino insistiu na necessidade de “ultrapassar a desconfiança mútua entre os Estados, sobretudo a desconfiança mútua básica que separa a França e a Alemanha; sem haver uma convergência entre a França e a Alemanha não há progresso no projecto europeu. Não é possível pensar num motor alternativo. Agravado ainda com a saída dos Britânicos”.

 

Sublinhou depois a importância do crescimento económico  -  onde a fractura já visível passa pelo primeiro “bode expiatório” escolhido, que é o comércio internacional: “O que vemos hoje é o crescimento da ideia do proteccionismo, do fechamento das fronteiras, do isolamento dos Estados; e isso tem um custo económico, vai ter… A frase do Brexit, take back control, é uma frase muito forte, mas é uma pura ilusão… É um problema não apenas económico, mas político, porque tem a ver com o tipo de sociedade em que queremos viver.”

 

Em terceiro lugar falou na fractura social, que é “não apenas etária, geracional, mas também do ponto de vista social e das regiões onde as pessoas vivem”, como se verificou tanto no Brexit como nas eleições presidenciais nos EUA.

 

Chamou a atenção para a importância dos quatro actos eleitorais próximos na Europa, o referendo de 4 de Dezembro na Itália, em Março as eleições na Holanda, as presidenciais e as legislativas em França e depois na Alemanha.

 

António Vitorino fez questão de encerrar com uma manifestação de esperança:

 

“Tenho confiança em que o espírito de abertura, de diálogo, de tolerância, em segundo lugar a força da ideia europeia, da interdependência e dos equilíbrios que esta deve gerar, e sobretudo o amor dos europeus à democracia, nos permitirão ultrapassar estes testes eleitorais e deles sairmos desta crise com novo alento e nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações.”

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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