Segunda-feira, 20 de Janeiro, 2020
Media

A revolução do digital e os seus efeitos no modo de fazer jornalismo

O efeito da revolução digital sobre os meios de comunicação está em andamento, não estacionou, e todas as conclusões parecem provisórias. Estamos sempre a avaliar o que é bom e o que correu mal, e não temos soluções evidentes. Enrique Dans, professor de Inovação na IE Business School de Madrid, deu à media-tics uma extensa entrevista onde muitas perguntas difíceis recebem algumas respostas desagradáveis. É matéria para nos obrigar a pensar.

As primeiras questões são provocantes, e Enrique Dans retribui no mesmo registo, afirmando que não há alternativa. Concretamente, interpelado a respeito de um estudo feito na Universidade do Texas, dizendo que a transformação digital dos media pode ter sido um grande erro, responde que não, que “a transformação digital não tem alternativa, e se não fores tu a transformar-te, alguém vai fazê-lo e roubar-te directamente”. 

Interrogado sobre se o erro foi o de dar de graça, pela Internet, aquilo que se pagava no papel, diz que não, que “se não o tivessem posto grátis, aparecia outro que o daria grátis”...

“O problema não é que a transformação tenha sido um erro, o problema é que foi mal feita. Foi liderada, em muitos casos, pelas mesmas pessoas que lideravam o negócio do papel, e que tentaram continuar a fazer o mesmo.” 

Indo directamente à questão do sustento do jornalismo, Enrique Dans afirma:

“A questão é que, se pretendes que o teu produto tenha um preço parecido com o que tinha no papel, quando o levas para a rede, desenvolver o hábito de as pessoas passarem a comprar por uma coisa que não é física e que, além disso, com dois clics do ‘rato’ encontram quinze alternativas diferentes para obter a mesma informação, ou melhor, é muito complicado. (...)  Eu creio que o problema do jornalismo é não ter claro qual é a sua proposta de valor. Se a proposta é ‘eu dou-te informação’, já há muita gente que dá informação, até o Twitter dá informação, e eles não são jornalistas nem têm preparação para tal. Se não te adaptas ao que eu quero como informação, não és diferencial e portanto não podes cobrar.” 

O tom é este. Especialista em sistemas e tecnologias de Informação, Enrique Dans não está a chocar-nos de propósito, mas a explicar os caminhos que lhe parecem indicados para encontrar soluções e fazer bem o que temos estado a fazer por caminhos equivocados. Sabendo que o seu ponto de partida é o da superioridade natural, e a partir de agora indiscutível, da Informação digital. 

É assim que trata da questão da publicidade, da forma de tornar rentáveis os conteúdos, da relação desigual entre as grandes plataformas (como Facebook e Google) e os meios de Informação ‘clássicos’, e de que modo nações, como a Irlanda, a Coreia do Sul e a Espanha, têm respostas diferentes a estes problemas. Por último, das questões realmente causadoras de ansiedade  -  machine learning e o futuro do emprego.

 

Este esboço de síntese não dispensa a leitura da entrevista na íntegra, no site media-tics.

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
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