Sexta-feira, 22 de Março, 2019
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Recuperar a confiança dos leitores com os valores básicos do jornalismo

Há hoje, por parte do público, uma grande falta de confiança na Imprensa. E não é só o público dos “brancos zangados, de direita; há muitos jovens e pessoas de cor que não ligam ao jornalismo como o temos feito”. “O jornalismo é só uma parte do problema, mas pode, e a meu ver devia, ser parte da solução.”

Esta reflexão é de Michael Oreskes, que foi chefe da delegação do New York Times em Washington, e sente-se nela a marca do debate em curso nos EUA  - mas o exemplo não se esgota lá. A sua proposta é de recuperar a confiança dos leitores retomando os “valores básicos” da profissão, voltando a dar às mais humildes comunidades locais, transformadas em “desertos de notícias”, um jornalismo de proximidade, baseado na escuta, na correcção, no rigor e no empenhamento em fazer autêntica reportagem.

O autor começa pela constatação de que grandes porções do seu país simplesmente “não acreditam em nós”, olhando os jornalistas como instrumentos de algum obscuro establishment

 

Michael Oreskes defende que é precisamente neste ponto que o jornalismo deve providenciar “uma base de factos comum e um vocabulário comum” que permitam uma discussão séria sobre os desafios e alternativas. Um jornalismo que possa apresentar, umas às outras, pessoas de diferentes meios e pontos de vista, e assim “convocar conversas importantes”.

 

Para o conseguir, é preciso restabelecer a confiança:

 

“Temos de estar abertos e disponíveis a todos. Temos de substituir a raiva pela empatia, e a disputa pela razão. A nichefication [tendência para ocupar nichos] pode ajudar os projectos de mercado das empresas noticiosas, mas enfraquece a sua capacidade de servir o público.”

 

O verdadeiro desafio do jornalismo, como diz adiante, é fazer a ligação por entre todo o espectro de pontos de vista e proveniências:

 

“Tornar o nosso jornalismo mais opinativo não ajuda. Coloca o ênfase no lugar errado.”

 

“Valores e práticas são o que nos define e distingue. São o que torna jornalismo o jornalismo. Sem eles somos apenas conteúdos e opinião, e rapidamente desaparecemos na confusão. A perda do jornalismo seria a longo prazo um desastre para o país, pior do que qualquer coisa que imaginemos que saia destas eleições.”

 

O artigo de Michael Oreskes, no site da CJR   

 

 

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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